YBI transforma a busca por terra fértil em uma aflitiva distopia amazônica
Curta dirigido por Eliza Telles e Begê Muniz apresenta uma Amazônia devastada, onde encontrar um pedaço de terra capaz de regenerar a vida pode significar tanto a salvação da humanidade quanto o fim de quem ainda sobrevive naquele lugar.
RESENHAS
Michael Douglas
10/6/20264 min read
Existe algo particularmente desconfortável em assistir a uma história sobre um mundo que está morrendo quando aquilo que vemos na tela não parece tão distante daquilo que conhecemos. É justamente nessa sensação que YBI, curta-metragem amazonense dirigido por Eliza Telles e Begê Muniz, encontra sua força. O filme constrói uma distopia em que a busca por um pedaço de terra fértil deixa de ser apenas uma procura por sobrevivência e passa a representar uma possibilidade de reconstrução de um planeta que já chegou ao limite. O curta tem cerca de 16 minutos e foi exibido na 8ª Mostra Do Outro Lado – Cinema Fantástico, do 33º Festival de Cinema de Vitória, onde recebeu o prêmio de Melhor Filme do Júri Técnico.
A história acompanha Ana, uma cientista que atravessa uma Amazônia devastada procurando pela Terra Preta, apresentada na narrativa como um dos últimos vestígios de regeneração do planeta. No caminho, ela encontra Maria, uma menina que protege a última floresta viva. É a partir desse encontro que o filme começa a construir seu principal conflito: aquilo que pode representar uma esperança para a humanidade também pode colocar em risco justamente o último lugar onde a vida ainda conseguiu sobreviver.
E acho que é aqui que YBI se distancia de uma ficção científica tradicional sobre o fim do mundo. A personagem não está simplesmente em uma missão grandiosa para salvar a humanidade. Antes disso, ela está tentando sobreviver. Ela atravessa aquele cenário porque precisa encontrar alguma coisa que ainda possa produzir vida. A busca por terra fértil é também uma busca por um futuro, mas o filme não transforma esse futuro em algo confortável ou garantido.
As cenas são aflitivas, e a direção trabalha justamente para transportar o telespectador para dentro da angústia da personagem. Existe uma sensação constante de secura, de desgaste e de ausência de vida. A paisagem não funciona apenas como pano de fundo para a história, mas como parte da própria narrativa. A personagem caminha por um mundo que parece ter perdido aquilo que normalmente associamos à Amazônia: água, vegetação, umidade e abundância.
É uma escolha visual que me lembrou bastante algumas imagens de Duna, principalmente pela maneira como o ambiente parece ter se tornado uma extensão do sofrimento dos personagens. Mas, enquanto em Duna o deserto faz parte da construção de um planeta alienígena, em YBI existe algo muito mais incômodo: estamos olhando para uma possibilidade de futuro da própria Amazônia.
O filme trabalha muito bem com o contraste. De um lado, temos a aridez, a terra improdutiva e a sensação de que alguma coisa fundamental foi perdida. Do outro, surgem momentos em que a possibilidade de uma terra verde aparece quase como uma ruptura naquele mundo morto. É como se a narrativa abrisse uma espécie de portal para aquilo que a personagem procura durante toda a jornada.
E esse contraste faz com que a presença da natureza tenha ainda mais força. Quando existe pouca vida ao redor, qualquer sinal de verde ganha uma dimensão enorme. A floresta deixa de ser apenas floresta e passa a representar aquilo que o restante do planeta perdeu.
A própria Eliza Telles já explicou que o filme nasceu de uma preocupação com o agravamento das crises climáticas e com as secas cada vez mais severas no Amazonas. Em entrevista, a cineasta descreveu YBI como uma distopia sobre uma menina que procura o último pedaço de terra fértil, com a intenção de utilizar a ficção para aproximar crianças e adolescentes da ideia de reconexão com a natureza.
Mas o interessante é que o curta não precisa transformar essa mensagem em um discurso. Ele consegue colocá-la dentro da própria imagem.
A sensação de caminhar por uma terra sem vida é suficiente para entendermos o que está em jogo.
E então surge o paradoxo que, para mim, é uma das partes mais interessantes de YBI. A informação ou recurso encontrado pela personagem pode ajudar a humanidade, mas também pode destruir a última possibilidade de sobrevivência daquele pequeno núcleo que ainda resiste. Salvar milhões de pessoas significa correr o risco de condenar quem está diante dela.
É uma escolha que transforma a ficção científica em uma discussão sobre sobrevivência, mas também sobre responsabilidade.
A direção parece compreender isso ao não transformar a jornada em uma aventura convencional. Os planos contemplativos e o ritmo contribuem para essa sensação de deslocamento e isolamento. O uso da câmera, a escolha dos planos, o ritmo da narrativa e a fotografia são elementos importantes para a construção do fantástico no filme.
E existe uma pergunta que permanece: até onde alguém deveria ir para salvar a humanidade se o preço dessa salvação for destruir aquilo que ainda resta?
O título do filme, YBI, significa “terra” e reforça essa ideia de regeneração que atravessa toda a narrativa. No próprio Festival de Cinema de Vitória, o júri destacou essa relação entre o título e a necessidade de regeneração do planeta, além de apontar Maria como uma personagem associada à esperança de seu futuro.
No fim, o que mais me chamou atenção em YBI é justamente o fato de ele não apresentar a sobrevivência como algo simples. Não existe uma saída limpa para aquele mundo. Não existe uma escolha que permita salvar todo mundo sem sacrificar alguma coisa.
E então percebemos o quanto a nossa própria existência depende de coisas que normalmente só percebemos quando começam a desaparecer.
Até o momento dessa postagem, o curta pode ser assistido de graça por esse link (clique aqui).




Contato
Somos apaixonados por ficção científica e gostamos de falar sobre ela de todas as formas possíveis. Com mais de 7 anos no ar no Instagram, e mais de 200 livros sobre o gênero lidos, estamos com a missão de propagar a ficção científica pelo planeta terra (e marte futuramente rs), além de fomentar a literatura da sci-fi nacional.
É um prazer ter você conosco nessa viagem espacial!
Email:
contato@umleitordescifi.com.br
© 2026. All rights reserved.
Quem somos nós?
Fale conosco para sugestões e parcerias
Faça sua sugestão para melhorar o site:
@umleitordescifi
Instagram:
Receba no seu e-mail as novas publicações. Se inscreve.