Volte para contar: quando a humanidade deixa de ser humana?
Uma cápsula retorna de um passado distante trazendo Tomas, um humanoide que pode ser mais próximo da humanidade original do que os próprios humanos do futuro.
RESENHAS
Michael Douglas
9/25/20266 min read
Sinceramente, eu nunca vou cansar de enaltecer a ficção científica nacional. Existe alguma coisa muito interessante em perceber como autores brasileiros conseguem pegar conceitos enormes — viagens espaciais, futuros distantes, inteligência artificial, transformações biológicas — e colocá-los dentro de histórias que, muitas vezes, cabem em poucas páginas. Foi exatamente o que senti lendo “Volte para contar”, conto de Aron Russid. São apenas dez páginas, mas dez páginas que me fizeram parar, voltar alguns parágrafos e riscar a folha enquanto lia. Inclusive, o conto está disponível gratuitamente para leitura, e acho que isso torna a experiência ainda mais interessante para quem gosta de descobrir autores e ideias dentro da nossa própria ficção científica.
A história começa com algo que parece simples, mas que rapidamente ganha proporções muito maiores: uma cápsula espacial retorna à Terra depois de um período absurdamente longo. Dentro dela está Tomas, um humanoide enviado ao espaço no ano de 2189, como parte de uma missão inédita. O problema — ou talvez a melhor parte da história — é que, quando Tomas retorna, ele não encontra mais a humanidade que conhecia. O mundo mudou, a sociedade mudou e, principalmente, o próprio ser humano mudou. Aquela cápsula é quase uma cápsula do tempo, mas, em vez de carregar apenas tecnologia ou objetos de uma civilização desaparecida, ela traz de volta uma representação física de quem a humanidade um dia foi.
É nesse ponto que o conto começa a ficar muito mais interessante do que uma simples história sobre exploração espacial. A cientista que entra em contato com Tomas começa a investigar seu passado, seus registros e tudo aquilo que ele carrega consigo. E quanto mais ela descobre, mais fica evidente que existe uma distância enorme entre aquele ser criado no passado e os humanos que agora habitam aquele futuro. A humanidade já não está restrita à Terra. Ela se espalhou pela Lua, por Vênus e por outros mundos, e essa expansão trouxe uma consequência inevitável: cada ambiente passou a exigir novas formas de adaptação.
Imagine seres humanos vivendo durante centenas ou milhares de anos em ambientes completamente diferentes. Um planeta exige determinadas características fisiológicas, outro exige outras. Um grupo pode precisar de pulmões maiores, outro de uma estrutura óssea diferente, outro pode sofrer pressões ambientais que simplesmente não existiam na Terra. No conto, essa transformação aparece como parte natural daquele futuro, mas é justamente aí que comecei a pensar em uma das questões mais interessantes da história: quando uma população humana começa a mudar fisicamente para sobreviver em outro mundo, até onde podemos continuar chamando aquilo simplesmente de “humano”?
A ficção científica gosta muito dessa fronteira entre aquilo que somos e aquilo que podemos nos tornar. E “Volte para contar” toca diretamente em uma discussão que aparece no transumanismo: a possibilidade de utilizar ciência e tecnologia para modificar o corpo humano, ampliar suas capacidades ou superar limitações biológicas. Hoje isso pode parecer uma discussão distante quando pensamos em humanos vivendo em outros planetas, mas a ideia central é bastante simples. Se tivermos ferramentas suficientes para modificar nosso corpo, por que não faríamos isso para sobreviver melhor em determinados ambientes? E, mais importante, se fizermos isso durante gerações, será que ainda estaremos falando apenas de seres humanos adaptados ou estaremos diante de algo biologicamente diferente?
Essa pergunta me lembrou imediatamente de uma obra que considero muito interessante dentro da história da ficção científica brasileira: “3 Meses no Século 81”, de Jerônymo Monteiro, publicada em 1947. É curioso perceber que, décadas atrás, a ficção científica brasileira já estava interessada em imaginar uma humanidade tão distante no tempo que o próprio ser humano poderia se tornar irreconhecível para aqueles que vieram antes. A obra trabalha com uma sociedade futura profundamente modificada, não apenas tecnologicamente, mas também física e mentalmente. E acho interessante colocar as duas histórias lado a lado justamente por causa dessa preocupação em comum: o futuro não transforma apenas o mundo ao nosso redor; ele pode transformar aquilo que somos.
No caso de “Volte para contar”, essa ideia ganha uma dimensão ainda maior porque a transformação não acontece em um único lugar. A humanidade se espalhou. E quando uma espécie se espalha por ambientes diferentes, surge inevitavelmente a possibilidade de caminhos diferentes. Na biologia, existe o conceito de especiação, processo pelo qual populações de uma mesma espécie podem, ao longo do tempo e sob determinadas condições, acumular diferenças suficientes para se tornarem espécies distintas. Obviamente, o que o conto apresenta é uma extrapolação de ficção científica, não uma representação literal de como necessariamente aconteceria a evolução humana. Mas é justamente essa extrapolação que torna a história tão divertida de pensar.
Porque se imaginarmos humanos vivendo em Marte, Vênus, luas, estações espaciais e outros mundos durante milhares de anos, com diferentes condições ambientais e, ainda por cima, com a possibilidade de manipulação genética, podemos começar a imaginar algo muito mais radical do que simplesmente “humanos vivendo no espaço”. Podemos estar falando de diferentes descendentes da humanidade, cada um carregando características próprias. Talvez, em algum momento, a palavra “humano” passe a ser tão ampla quanto hoje seria chamar espécies muito diferentes de animais pelo mesmo nome apenas porque compartilham uma origem distante.
E existe uma ironia muito bonita no centro de “Volte para contar”. Tomas é artificial. Ele é um ser construído, uma criação tecnológica, enviado ao espaço por uma humanidade que já desapareceu ou se transformou profundamente. Em teoria, ele deveria ser justamente o elemento menos humano daquela história. Mas, conforme vamos conhecendo sua função e percebendo a distância entre ele e os humanos que vivem naquele futuro, surge uma possibilidade quase paradoxal: talvez Tomas seja uma das coisas mais próximas da humanidade original que ainda existem naquele mundo.
Essa inversão é, para mim, uma das melhores ideias do conto. Durante muito tempo, a ficção científica trabalhou com o medo de que as máquinas se tornassem humanas. Aqui, a questão pode ser lida de outra maneira: e se forem os humanos que se tornarem tão diferentes que uma máquina construída por seus antepassados passe a parecer mais humana do que eles próprios? Nesse caso, a discussão deixa de ser apenas sobre inteligência artificial ou robôs e sim e passa a ser sobre identidade.
O que exatamente define um ser humano? O nosso DNA? A nossa aparência? A nossa capacidade de pensar? Nossas memórias? Nossa consciência? Nossa cultura? Nossa história? Se um ser humano do futuro possuir um corpo completamente diferente do nosso, tiver sido geneticamente modificado para sobreviver em outro planeta e enxergar o mundo de uma maneira que sequer conseguimos imaginar, ainda assim continuaremos chamando esse ser de humano simplesmente porque ele descende de nós?
Não “como será o futuro?”, mas o que sobrará de nós quando o futuro finalmente chegar?
A ficção científica tem uma capacidade muito particular de fazer isso. Ela cria uma tecnologia impossível, coloca uma nave no espaço, inventa uma espécie alienígena ou avança milhares de anos no tempo, mas, no fundo, está quase sempre falando sobre alguma coisa extremamente humana. Em “Volte para contar”, uma cápsula espacial e um humanoide acabam servindo para discutir identidade, memória, evolução, tecnologia e os limites do próprio conceito de humanidade.
E é por isso que eu goste tanto dessas histórias. Não necessariamente porque elas acertem como será o futuro, mas porque elas nos obrigam a imaginar possibilidades que seriam difíceis de considerar olhando apenas para o presente. Aron Russid pega uma premissa que poderia facilmente ser apenas uma aventura de ficção científica e transforma essa volta de Tomas em uma espécie de encontro entre duas humanidades: aquela que o criou e aquela que veio depois.
No final, fica aquela pergunta incômoda que a boa ficção científica sabe deixar na cabeça do leitor: se daqui a centenas ou milhares de anos nossos corpos forem diferentes, nossa genética puder ser alterada, nossa consciência puder estar conectada a máquinas e a humanidade estiver espalhada por diversos mundos, em que momento estaremos deixando de ser aquilo que hoje chamamos de humano?
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