Você tem medo de ler clássicos de ficção científica?

A ideia de que todo clássico é difícil pode afastar novos leitores do gênero. Mas autores como H. G. Wells, Mary Shelley, Jeronymo Monteiro e Isaac Asimov mostram que é possível viajar pelo passado da ficção científica sem transformar a leitura em um exercício de sofrimento

REFLETINDO FICÇÃO CIENTÍFICA

Michael Douglas

9/3/20267 min read

Eu sei. Sempre que falamos sobre leitura clássica, vem aquela sensação de que estamos diante de um livro difícil, com uma linguagem complicada, páginas e páginas de descrições e uma história que exige muito esforço para ser compreendida. E, por vezes, realmente é.

Alguns clássicos exigem paciência. Foram escritos em outras épocas, obedecem a estilos literários diferentes dos que encontramos hoje e carregam referências culturais que nem sempre são imediatamente familiares para o leitor contemporâneo. Mas existe uma coisa que precisamos lembrar: ser um clássico não significa necessariamente ser difícil de ler.

Na ficção científica, talvez isso seja ainda mais interessante. Muitas das ideias que hoje parecem comuns no gênero nasceram justamente em livros escritos há mais de um século. Viagens no tempo, invasões alienígenas, inteligência artificial, experimentos científicos capazes de transformar a humanidade e futuros radicalmente diferentes já estavam sendo imaginados quando sequer existiam as tecnologias que hoje fazem parte do nosso cotidiano.

E o melhor: alguns desses livros continuam sendo surpreendentemente acessíveis.

Se você tem vontade de conhecer os clássicos da ficção científica, mas morre de medo de começar por um livro que vai parecer um trabalho de faculdade, aqui estão alguns autores que podem provar que o passado do gênero não precisa ser assustador.

H. G. Wells: comece pelo começo da ficção científica moderna

Eu sei, você já deve ter visto ou ouvido falar desse autor.

H. G. Wells, nascido na Inglaterra em 1866, é um daqueles nomes praticamente impossíveis de evitar quando começamos a investigar a história da ficção científica. Autor de A Máquina do Tempo, A Guerra dos Mundos e O Homem Invisível, Wells ajudou a estabelecer algumas das bases do gênero como conhecemos hoje.

E existe uma coisa particularmente interessante em sua obra: mesmo tendo sido escrita no final do século XIX e início do século XX, sua narrativa continua funcionando muito bem para o leitor atual.

Wells tinha uma capacidade impressionante de apresentar conceitos enormes de maneira relativamente simples. Em A Máquina do Tempo, por exemplo, ele não precisa transformar a viagem temporal em uma aula interminável de física. O conceito está ali para levar o protagonista a uma sociedade futura e, a partir dela, discutir desigualdade, divisão de classes e os possíveis caminhos da humanidade.

Em A Guerra dos Mundos, a invasão alienígena serve também para inverter uma perspectiva. Os seres humanos, acostumados a dominar e colonizar outros povos, passam a experimentar a sensação de serem aqueles que estão sendo invadidos.

E talvez seja justamente isso que torne Wells tão interessante para quem tem medo de clássicos: as ideias são gigantescas, mas a leitura não precisa ser.

Você pode abrir um livro de Wells mais de cem anos depois de sua publicação e perceber que ele não está tentando provar o quanto é inteligente. Ele simplesmente quer contar uma história.

Mary Shelley: o clássico que nasceu antes mesmo do gênero

Agora vamos falar da aniversariante.

Mary Shelley ocupa um lugar especial na história da literatura e da ficção científica. Publicado originalmente em 1818, Frankenstein; ou, O Prometeu Moderno é frequentemente apontado como uma das primeiras obras de ficção científica da literatura.

E aqui existe uma curiosidade que sempre gosto de lembrar: quando pensamos em Frankenstein, normalmente imaginamos o monstro, a eletricidade, o laboratório e aquela estética criada pelo cinema ao longo de décadas. Mas o livro de Shelley é muito mais do que isso.

A premissa é, no mínimo, perturbadora: um cientista decide ultrapassar os limites conhecidos da ciência e criar vida. O resultado, porém, não é exatamente aquilo que Victor Frankenstein esperava.

É uma história de ciência, mas também é uma história sobre solidão, preconceito, responsabilidade, abandono e sobre aquilo que acontece quando a sociedade decide que alguém é um monstro antes mesmo de conhecê-lo.

E existe algo delicioso na escrita de Mary Shelley. Apesar de ser uma obra do século XIX, Frankenstein consegue combinar uma narrativa gótica com momentos de grande beleza e uma escrita que pode surpreender quem chega ao livro esperando encontrar uma leitura impossível.

É um clássico, sim. Mas também é uma história profundamente humana.

E talvez essa seja uma das melhores portas de entrada para perceber que ficção científica não precisa ser apenas sobre tecnologia. Às vezes, basta uma pergunta impossível para começar: o que aconteceria se o ser humano realmente conseguisse criar vida?

Jeronymo Monteiro: você não precisa viajar para outro país para encontrar um clássico

E se estamos falando de clássicos, não podemos olhar apenas para fora.

Jeronymo Monteiro é uma figura fundamental para quem quer conhecer a história da ficção científica brasileira. Frequentemente lembrado como um dos pioneiros do gênero no país, Monteiro escreveu em uma época em que a ficção científica ainda estava construindo sua identidade por aqui.

Em 3 Meses no Século 81, encontramos Campos, um jornalista que viaja para o século 81. A premissa poderia facilmente cair naquele modelo tradicional de viagem no tempo que já conhecemos tão bem, mas Monteiro encontra caminhos próprios para trabalhar a ideia.

A obra também presta uma homenagem à tradição iniciada por H. G. Wells, especialmente à A Máquina do Tempo, mas não se limita a repetir aquilo que já havia sido feito.

E existe uma satisfação particular em ler um clássico brasileiro de ficção científica. Primeiro porque descobrimos que o gênero não começou apenas em Londres ou Nova York. Segundo porque encontramos uma literatura que tenta imaginar o futuro a partir de referências muito mais próximas da nossa realidade.

A escrita de Monteiro tem uma elegância que pode surpreender justamente quem chega ao livro esperando encontrar algo excessivamente antiquado.

Ler 3 Meses no Século 81 também é uma maneira de perceber que a ficção científica brasileira possui uma história muito mais antiga e interessante do que às vezes imaginamos.

Isaac Asimov: talvez a porta de entrada mais fácil

E, claro, não tem como você começar a ler ficção científica e não esbarrar nesse nobre senhor, não é mesmo?

Isaac Asimov é um dos autores mais importantes da história da ficção científica e também pode ser uma excelente porta de entrada para quem está começando a explorar os clássicos.

Se existe um livro que eu indicaria para alguém que tem medo de começar, é Eu, Robô.

Publicado em 1950, o livro reúne contos relacionados aos robôs e às famosas Três Leis da Robótica. E aqui está uma das grandes qualidades de Asimov: ele consegue pegar um conceito aparentemente complicado e transformá-lo em uma situação narrativa simples.

Um robô recebeu uma determinada ordem. O que acontece quando essa ordem entra em conflito com uma das leis que deveriam impedir que ele machucasse um ser humano?

Pronto. Temos uma história.

E, a partir dessa situação aparentemente simples, Asimov começa a construir problemas cada vez mais interessantes sobre lógica, comportamento humano, tecnologia e responsabilidade.

A escrita é direta, funcional e extremamente fácil de absorver. Em vez de gastar páginas tentando impressionar o leitor com uma linguagem complicada, Asimov frequentemente coloca o problema na mesa e deixa você pensar junto com os personagens.

É uma ótima maneira de descobrir uma das coisas mais legais da ficção científica: uma história pode ser fácil de ler e, ainda assim, difícil de esquecer.

O problema talvez esteja na palavra “clássico”

Talvez o maior obstáculo seja justamente a palavra.

Quando alguém diz “você precisa ler um clássico”, existe uma expectativa quase automática de que será necessário sentar diante do livro com um dicionário, um caderno e muita disposição para sofrer.

Mas a literatura não funciona assim.

Um clássico não é necessariamente um livro difícil. É uma obra que conseguiu permanecer relevante, influente ou significativa ao longo do tempo. E isso não significa que sua leitura precise ser uma penitência.

Na ficção científica, inclusive, temos uma vantagem: muitos dos grandes clássicos foram escritos justamente para provocar o leitor com ideias.

Eles queriam imaginar o que aconteceria se pudéssemos viajar no tempo. Se fôssemos invadidos por extraterrestres. Se conseguíssemos criar vida artificialmente. Se máquinas começassem a tomar decisões que antes pertenciam exclusivamente aos seres humanos.

E essas perguntas continuam funcionando.

É claro que alguns elementos envelheceram. Algumas previsões tecnológicas não se concretizaram. Certos costumes e visões sociais pertencem claramente ao período em que os livros foram escritos. Mas talvez seja justamente aí que esteja parte da diversão.

Você não lê um clássico apenas para descobrir o futuro que o autor imaginou.

Você lê para descobrir o que aquele autor imaginava sobre o próprio presente.

Então, se você tem medo, comece

Não precisa começar por uma obra de 800 páginas. Não precisa estabelecer uma meta de leitura impossível. E, principalmente, não precisa sentir que está fazendo uma prova.

Comece por um conto. Pegue Eu, Robô. Leia A Máquina do Tempo. Dê uma chance a Frankenstein. Procure 3 Meses no Século 81 e descubra um pouco da história da nossa própria ficção científica.

Talvez você descubra que aquele livro que parecia velho demais para você é, na verdade, uma história que continua fazendo perguntas muito atuais.

Porque essa é uma das coisas mais bonitas dos clássicos de ficção científica: eles envelhecem, mas as perguntas permanecem.

E, quando uma história escrita há cem ou duzentos anos ainda consegue fazer você parar a leitura e pensar sobre o mundo em que vive, talvez seja aí que entendemos por que ela se tornou um clássico.

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