Viajantes do abismo - Nikellen Witter

Existem livros que marcam, e esse com certeza é um deles.

RESENHAS LITERÁRIAS

5/10/20263 min read

Viajantes do Abismo, de Nikelen Witter: Fantasia com ficção científica brasileira que toca a alma

Uma aventura possível, com um toque de faroeste e o peso de um mundo à beira do colapso. Uma fantasia genuína com veias de ficção científica correndo por baixo da areia.

Há livros que você lê. E há livros que você habita. Viajantes do Abismo pertence ao segundo grupo.

A mente de Elissa, a protagonista, é tão real, tão próxima da nossa, que a história se instala de forma natural e incrivelmente íntima. Se você ainda não teve a experiência de abrir um livro e se ver transportado para dentro de outra pessoa, esta é sua chance. Com essa leitura, é possível descrever o que está na página como se você estivesse lá, sentindo junto.

Os ventos secos tocam a pele de Elissa, deixando claro que, assim como em sua alma, a sequidão ainda durará por um tempo. Entre a espada e o altar, ela se vê presa entre duas escolhas impossíveis: aceitar o casamento, ter a vida programada por outros, ou tornar-se uma desertora, mal falada, mas livre e fiel a si mesma. Os grãos de areia invadem a cidade, tomando tudo como se fosse seu de direito. Uma nova forma de vida surge às sombras, e ninguém está percebendo. E a forma de vida que todos conhecem vem morrendo devagar, e novamente, ninguém está percebendo.

Elissa é curandeira, uma espécie de farmacêutica do seu tempo. É boa no que faz, e faz o que lhe dá sentido. Sem hipocrisias, sem esperar retribuição, ela cuida dos enfermos e trata as feridas alheias. As próprias, no entanto, ela se recusa a encarar. Está perdida dentro de si, e já faz tempo.

Um noivado interrompido. As vozes caluniando seguem os ouvidos de Elissa enquanto ela corre pela vila com lágrimas nos olhos e rancor no coração. As águas amarronzadas caem pelas pedras com limo, chegando aos seus pés cansados e descalços. A mente viaja para a região mais íntima de si mesma.

Então, olhos arregalados lhe chamam a atenção, e uma voz suave rouba seu coração. Uma menina misteriosa aparece com um diálogo inexplicável, falando da vida, das pessoas e do planeta. E algo muda. Elissa decide tomar o controle do próprio destino, deixar de ser passageira da própria história e escolher para onde vai.

Em uma caminhada contra a tempestade de areia que consome seu país, ela se vê no centro de uma guerra entre estados, e as pessoas ao redor passam a enxergar nela uma esperança que ela mesma ainda não sabe carregar.

Por que vale a leitura?

Viajantes do Abismo é um livro que surpreende. Quem chega esperando uma aventura steampunk convencional, com engrenagens e estética neovitoriana, vai encontrar algo mais denso e mais humano do que imaginava. Ao invés do tom puramente aventureiro do subgênero, Nikelen Witter aposta em uma abordagem voltada à reflexão sobre o meio ambiente e ao mesmo tempo faz um trabalho mais profundo de construção de sua protagonista.

O que impressiona é como a autora consegue fazer o mundo fictício parecer um espelho do nosso. Lendo o livro, você identifica com facilidade vários componentes da nossa cultura: a descrença na ciência, a negação diante de mudanças ambientais severas, o coronelismo, os desmandos de políticos que se sentem donos do poder, uma população desassistida que só pode contar com a própria coragem. É ficção científica brasileira de verdade, enraizada no que somos.

A decisão de contar tudo em um único volume agrada muito em um mercado saturado de trilogias com primeiros tomos meramente introdutórios. As trezentas e quatro páginas fluem bem, com uma escrita atraente e reflexões maduras. A trama é rica em acontecimentos que se conectam de forma orgânica, sem que nada soe forçado.

Há uma fluidez na narrativa, várias críticas à nossa sociedade e uma pegada meio distópica que surpreende. Elissa, depois de algumas perdas e uma virada enorme em seu destino, se torna uma personagem muito real, o que torna a história ainda mais incrível. 

Nem tudo é unanimidade, claro. Alguns leitores apontam que certos personagens de apoio ficam um pouco à sombra de Elissa, e que o elemento steampunk aparece de forma mais discreta do que o esperado. Mas esses são detalhes que não diminuem o que o livro entrega.

Outros leitores simplesmente não encontram palavras para descrever o quanto o livro os marcou, sentindo que conhecem cada personagem e que participaram da história, sentindo a força palpável de cada um. Essa é exatamente a experiência que Viajantes do Abismo proporciona quando você se entrega a ele.

Nikelen Witter escreveu algo raro: uma fantasia que não apenas entretém, mas que faz pensar e sentir com a mesma intensidade. Para quem quer descobrir o melhor da ficção científica brasileira, este é um ponto de partida obrigatório.