Vamos falar sobre Frankenstein de Mary Shelley: A nomeada primeira ficção científica do mundo.
Mais de dois séculos após sua publicação, Frankenstein continua levantando questões sobre preconceito, responsabilidade, vaidade e os limites da ciência.
REFLETINDO FICÇÃO CIENTÍFICA
Michael Douglas
7/23/20263 min read
Recentemente, eu li a obra que é considerada a primeira ficção científica escrita na face da Terra, e as emoções e reflexões que ela me causou em tão poucas páginas não poderiam ser colocadas em um vídeo curto. Então, nosso vídeo especial de hoje será sobre ele: Frankenstein, de Mary Shelley.
Antes de falar da criatura, devemos falar da criadora. E eu não estou falando, ainda, da trama fictícia.
Mary Shelley, uma britânica nascida em 30 de agosto de 1797, iniciou sua vida já com uma tragédia e rejeição. Sua mãe, uma filósofa e feminista inglesa, morreu alguns dias após o parto. Mary foi nomeada em homenagem à mãe, que, de forma indireta, acabou perdendo a vida ao lhe dar à luz.
Já na vida adulta, ainda muito jovem, aos 18 anos, Mary se relacionou com um homem casado, o que foi visto como uma enorme desonra por seu pai, que a rejeitou. Ela se viu, novamente, entre a escuridão do abandono, da tristeza e do remorso.
Guardem bem essas informações, pois, como dizem, sempre existe um pedaço do autor em sua obra. E este livro, se espremido em um moinho espectral, escorreria luto, culpa, consequências e amargor.
Mary Shelley, participando de um concurso caseiro entre seu companheiro e alguns amigos, foi desafiada a criar um conto de terror. A ideia surgiu a partir de um sonho.
Um terrível sonho que deu início a essa terrível história.
Falando na história, agora que abordamos a criadora, vamos falar da criatura.
Para mim, esse livro já transmite, logo de início, reflexões sobre aparência, preconceito e racismo.
Em certo ponto da história, os pais de Victor Frankenstein, criador do monstro sem nome, encontram um caseiro e sua família vivendo em extrema pobreza. Movidos pela compaixão, adotam apenas uma criança: a mais bela, a reluzente, que, segundo a narrativa, não merecia viver naquele lugar tão insalubre, justamente por sua beleza.
Tudo bem... mas e as outras crianças?
Aquilo me pegou muito.
Mas vamos, de fato, iniciar a reflexão.
Victor Frankenstein é um jovem que busca seu propósito em uma faculdade de ciências naturais.
Sempre foi apaixonado pelas ciências da vida, pela química, pela física e pela eletricidade. Após algumas aulas e conversas com seus mestres, Victor é despertado por um ímpeto que o convence de que seria capaz de criar vida a partir da morte, utilizando restos mortais.
Essa parte do livro é nauseante e fez minhas entranhas se remexerem ao imaginar tamanha podridão do ser humano sob diversos pontos de vista.
Primeiro, o fato de terminarmos de forma tão imunda e pútrida quase parece um lembrete para não nos prendermos tanto à vaidade enquanto estamos vivos. No fim, tudo volta ao pó.
Segundo, a vaidade de Victor em criar algo novo, gerar vida, sentir-se Deus, sentir-se único, foi justamente o que o condenou à sentença amarga que seria sua própria existência.
Terceiro, e talvez o mais absurdo, quando o monstro finalmente abre os olhos, Victor, assustado, simplesmente vai para seu quarto dormir, como uma criança que fecha os olhos para não enxergar a bagunça que fez.
Isso me fez refletir sobre quantas vezes fechamos os olhos para as consequências das nossas próprias ações.
Quando a criatura é solta no mundo, Victor simplesmente acredita que nada daquilo terá importância. Volta à sua rotina, às suas alegrias e até às suas vaidades, até que seu irmão é encontrado assassinado.
E ele sabe muito bem quem foi o responsável.
Victor retorna para a casa de seus pais, encontra o luto e a dor e descobre que a empregada foi incriminada. Mesmo sabendo a verdade, não faz absolutamente nada para impedir aquela injustiça.
Afinal, se revelasse toda a história, poderia ser considerado culpado e condenado à morte ou simplesmente tratado como louco.
Esse medo do julgamento alheio faz com que Victor carregue esse segredo durante praticamente toda a narrativa.
Precisa dizer mais alguma coisa?
Uma das partes mais impactantes da obra, para mim, foi quando o monstro assume a narrativa e conta como viveu desde que fugiu da casa onde foi criado. Ele observa, durante muito tempo, uma família bondosa pelas frestas de uma cabana e, movido pela solidão, tenta se aproximar daquele lar.
Mas, no momento em que sua aparência é revelada, recebe apenas insultos, medo e violência.
É nesse instante que ele compreende por que aquelas mesmas pessoas, tão generosas com todos os outros, o rejeitaram com tamanha crueldade.
As aparências importam.
O preconceito existe.
Vou parar por aqui para não contar toda a história.
Mas esse livro deixou em mim reflexões que continuam ecoando.
Até onde podemos ir em busca da nossa verdade? O que, afinal, é a verdade? O verdadeiro monstro é a criatura que tira vidas ou o criador que, movido pela própria vaidade, abandona sua responsabilidade e passa o restante da vida se martirizando pelo sofrimento que ele mesmo causou?


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