Urucum: sangue sobre silício mistura cyberpunk, ancestralidade e inteligência artificial em um futuro brasileiro

Rafael Kapiwara transforma suas experiências, referências literárias e estudos sobre inteligência artificial em uma ficção científica que imagina um Brasil do futuro sem esquecer as marcas do passado

REFLETINDO FICÇÃO CIENTÍFICA

Michael Douglas

10/3/20267 min read

É muito interessante pensar que cada arte, seja plástica, música ou literatura, nasceu de alguém. E esse alguém é uma soma de lembranças, vivências e experiências. Logo, a arte é o artigo mais valioso da humanidade, uma vez que representa o supra sumo da alma humana, da existência do ser pensante, do nós.

E é por isso que o Um Leitor de Sci-fi sente tanta alegria em entrevistar autores que estão lançando suas obras, pois percebemos e aprendemos de onde saiu aquela história futurista, de quais experiências reais do autor aqueles personagens brotaram e porque de verdade, aquele livro veio ao mundo.

Hoje vamos conhecer um livro recém lançado de ficção científica cyberpunk com nuances indígenas. Urucum: sangue sobre silício, de Rafael Kapiwara.

E talvez uma das coisas mais interessantes seja perceber que, antes de existir como livro, Urucum nasceu justamente desse lugar em que diferentes interesses se encontram. Rafael estava mergulhado em estudos sobre inteligência artificial, engenharia de prompt e agentes autônomos, enquanto também planejava estudar cosmologias indígenas, culturas africanas e linguagem. A história começou a ganhar forma depois que ele assistiu a um TEDx de Ale Santos falando sobre sua própria trajetória.

A identificação foi imediata. Rafael conta que aquela fala o fez voltar para um mundo do qual estava, naquele momento, um pouco distante: o da escrita. E é curioso pensar nisso porque Urucum acabaria justamente se tornando uma obra em que tecnologia e identidade caminham lado a lado.

O livro se passa em 2087, em uma realidade na qual o Brasil passou a se chamar Nova Pindorama. Só que trocar o nome de um país não significa necessariamente mudar aquilo que existe por baixo dele. E é justamente aí que a ficção científica de Rafael começa a ficar interessante.

Nova Pindorama é formada por cidades-estado flutuantes, como Nova São Paulo, Nova Rio de Janeiro e Nova Brasília, enquanto abaixo delas existe o Solo, espaço onde vivem aqueles que não tiveram acesso às mesmas condições de quem está acima. O futuro, nesse caso, não apagou a desigualdade. Apenas encontrou novas maneiras de organizá-la.

No centro dessa sociedade está a GovCorp, uma estrutura que mistura governo e corporações e utiliza algoritmos para definir quem pode subir e quem permanece embaixo. É uma ideia que conversa bastante com algumas das grandes questões da ficção científica contemporânea: até que ponto podemos entregar nossas decisões para sistemas que dizem ser objetivos? E o que acontece quando esses sistemas são alimentados pelos mesmos preconceitos que já existem na sociedade?

É justamente esse um dos grandes dilemas de Urucum. Como explica Rafael, o futuro pode chegar cheio de tecnologia de ponta, mas isso não significa que as estruturas sociais tenham evoluído na mesma velocidade. O racismo algorítmico que já existe no presente é levado para esse futuro, mostrando uma sociedade em que as máquinas podem ser mais sofisticadas, mas os problemas humanos continuam reconhecíveis.

E a história começa com um assassinato.

Ozzy Chatterton, criador do console de imersão em realidade virtual Scuba Diving, é encontrado morto dentro da própria criação. Nenhuma porta foi arrombada e não existe uma explicação simples para aquilo. O perito cibernético Alcenio Borges é chamado para investigar o caso e precisa descobrir quem está por trás do assassinato antes que outros jogadores sejam mortos durante uma partida de Battle Royale.

A premissa pode inicialmente lembrar aquele tipo de ficção científica policial em que um investigador precisa descobrir como uma morte aparentemente impossível aconteceu. Mas Rafael utiliza esse ponto de partida para construir algo maior. O mistério é apenas a porta de entrada para uma discussão sobre tecnologia, desigualdade, ancestralidade e sobre quem realmente terá o direito de construir o futuro.

E é nesse ponto que entra uma das características que mais chamam atenção na obra: a tecnologia de Urucum não parece existir separada da identidade brasileira.

Rafael conta que é apaixonado por hard sci-fi e que suas referências passam por obras como Pantheon, Cyberpunk: Edgerunners, Blade Runner, Philip K. Dick e Isaac Asimov. O trabalho de Pedro Domingos em O Algoritmo Mestre também serviu como uma espécie de alicerce técnico para a construção da história. Mas essas referências internacionais encontram outras muito mais próximas de sua própria formação, como o livro Tekoá, de Kaká Werá, além da literatura de Machado de Assis, Nelson Rodrigues e Gabriel García Márquez.

O resultado dessa mistura é um cyberpunk que não tenta esconder de onde veio.

Em vez de simplesmente reproduzir uma estética futurista importada, Urucum coloca no centro de seu universo elementos indígenas e afroindígenas. A própria ideia de Nova Pindorama já carrega essa intenção. Pindorama é um nome de origem tupi associado ao território que hoje chamamos de Brasil, e no romance essa mudança de nome funciona como parte de uma reflexão sobre memória, apagamento e identidade.

Há ainda uma linguagem criada para esse universo, a chamada Criptupigrafia, construída a partir de referências ao Tupi-Guarani. A tecnologia, portanto, não aparece apenas como uma sucessão de máquinas, implantes e códigos. Ela também pode nascer de conhecimentos ancestrais.

E isso fica ainda mais evidente nos personagens.

Alcenio Borges é um homem negro e perito da PolCorp, a Polícia Corporativa de Nova Pindorama. Amana, outra personagem central, é uma indígena especialista em programação que estudou com Borges e cresceu nas chamadas Aldeias Multiétnicas. Os dois carregam experiências diferentes e acabam se reencontrando em uma história que coloca passado e futuro em constante colisão.

É uma escolha que combina diretamente com aquilo que Rafael buscava quando começou a escrever. O autor conta que sua própria vivência, marcada por uma ascendência indígena, negra e branca, atravessa a construção da obra. Dessa maneira, o livro não nasceu apenas daquilo que ele estudou sobre inteligência artificial, mas também daquilo que ele viveu, leu e tentou compreender sobre o próprio lugar no mundo.

E talvez seja exatamente por isso que a ideia inicial desta matéria faça tanto sentido quando falamos de Urucum. Uma obra não nasce do nada. Ela é uma espécie de encontro entre tudo aquilo que uma pessoa carregou até o momento em que decidiu escrever.

No caso de Rafael, esse encontro envolveu inteligência artificial, literatura brasileira, cyberpunk, culturas indígenas, referências africanas, jornalismo, tecnologia e a própria experiência de ser um homem brasileiro tentando entender o futuro a partir do lugar onde está.

Até mesmo a maneira como o livro foi escrito nasceu das circunstâncias da vida do autor.

Rafael estava trabalhando em outro romance, uma ficção sobre transferência de consciência, quando descobriu o Prêmio Kindle e, depois, o Prêmio Amazon Vozes Negras. A ideia então foi pausar aquele projeto e tentar escrever Urucum a tempo de participar da premiação.

O problema é que Rafael não estava escrevendo com todo o tempo do mundo. Ele é trabalhador CLT, tem casa, casamento e uma rotina que, como acontece com a maioria das pessoas que precisam conciliar literatura com a vida real, não permite simplesmente desaparecer durante meses para escrever.

Foi então que criou uma estrutura que chama de “fractal”: capítulos secos, diretos e sem gordura, algo que também carrega influência de sua experiência com jornalismo e marketing. Mesmo assim, o tempo continuava curto. Até que a Amazon anunciou a extensão das inscrições por mais 30 dias.

Foi o tempo que faltava.

O resultado é um romance que mistura investigação, realidade virtual, inteligência artificial, desigualdade social e ancestralidade. Há exoesqueletos, próteses, implantes cibernéticos e modificações corporais, elementos que ajudam a construir a atmosfera cyberpunk, mas que convivem com referências indígenas, movimentos de resistência e uma tentativa de imaginar como os conhecimentos do passado poderiam participar da construção do futuro.

E talvez essa seja uma das perguntas mais interessantes que Urucum parece fazer: se nós construirmos um futuro extremamente tecnológico sem resolver os problemas que carregamos do passado, estaremos realmente vivendo em um futuro ou apenas colocando máquinas novas sobre problemas antigos?

Rafael parece partir justamente dessa inquietação. Ele mesmo define seu leitor ideal como o “nerd culto”, alguém que consegue transitar entre animes, games, quadrinhos, Marvel e DC, mas que também tem interesse por Machado de Assis, Gabriel García Márquez e ensaios científicos.

É um público que conhece a ficção científica estrangeira, mas que também está procurando descobrir o que acontece quando o gênero olha para o Brasil e não tenta disfarçar suas próprias raízes.

Urucum: sangue sobre silício foi lançado de forma independente e atualmente concorre ao Prêmio Kindle Vozes Negras 2026, iniciativa da Amazon em parceria com a Companhia das Letras. Rafael Kapiwara, nome literário de Rafael Vieira Sinhorilio, é jornalista, roteirista e diretor. Entre seus trabalhos estão o thriller Ladrão que Rouba Ladrão, sobre corrupção no Brasil, e o documentário Mazzaropi Feito para o Povo. Urucum marca sua estreia no romance de ficção especulativa.

No fim, o que mais nos interessou é perceber que Urucum não tenta imaginar um futuro completamente distante de nós. Pelo contrário. Ele olha para aquilo que já está acontecendo, pega inteligência artificial, algoritmos, desigualdade, racismo, tecnologia e nossas próprias dificuldades de lidar com o passado, e empurra tudo algumas décadas para frente.

Porque, no fim das contas, a ficção científica nunca precisou falar apenas sobre o futuro.

Às vezes ela fala sobre o presente usando o amanhã como espelho.

E Urucum: sangue sobre silício parece querer fazer exatamente isso: imaginar um Brasil que conseguiu colocar suas cidades no céu, mas que ainda precisa decidir o que fará com tudo aquilo que deixou no chão.

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