Totverso, um nacional que fala sobre multiversos

Entre deuses egípcios, Terras paralelas e versões alternativas da humanidade, Totverso transforma o conceito de multiverso em uma viagem caótica, criativa e surpreendentemente reflexiva.

RESENHAS

Michael Douglas

6/22/20262 min read

Quando a gente pensa em multiverso, é quase automático lembrar da Marvel. Mas lendo esse livro aqui, o que veio na minha cabeça foi The Flash. Lembram daquela ideia de várias Terras coexistindo, cada uma com versões diferentes das mesmas pessoas?

E aí vem a pergunta mais interessante: como seria encontrar outro “você”? Um sósia de outra realidade, mas moldado por experiências completamente diferentes, outras memórias, outros traumas e outra personalidade. Como escreveu José Saramago: “Somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos.”

É justamente essa sensação que Totverso tenta explorar.

No livro, acompanhamos Tot, o deus egípcio, viajando entre diferentes Terras enquanto tenta resolver problemas específicos de cada realidade. A trama começa com um megalomaníaco que deseja destruir o multiverso inteiro — ou seja, todas as realidades existentes. Inicialmente achei que a história giraria apenas em torno dessa ameaça principal, mas o autor rapidamente mostra que a proposta vai muito além disso.

Cada Terra possui sua própria problemática, sua própria estrutura social e até suas próprias loucuras. E isso deixa a leitura muito dinâmica, porque a sensação é de constante renovação. Quando você acha que já entendeu o rumo da história, surge uma nova realidade com regras e consequências completamente diferentes.

Tot ajuda muito nisso. Ele é um personagem carismático, inteligente e, em vários momentos, bastante engraçado. Como um verdadeiro viajante profissional do multiverso, ele vai narrando como cada Terra chegou ao estado atual e explicando os impactos sociais, políticos e até científicos daquele universo específico.

E aqui entra uma das coisas mais legais do livro: o autor realmente abraça o conceito de multiverso sem medo de exagerar. Tem física quântica, química, engenharia, astronomia, invasão alienígena e até sex robots dominando uma das Terras.

Sim, o livro vai de um apocalipse causado pela falta de cerveja até Nikola Tesla retornando no corpo de uma sex robot.

E, sinceramente, isso torna tudo ainda mais divertido.

A escrita do Matheus Freitas funciona bem, principalmente pela criatividade das ideias e pela dinâmica entre os personagens. Talvez a leitura ficasse ainda mais fluida se algumas informações fossem mostradas de forma mais natural, ao invés de sempre explicadas diretamente pelo personagem. Mas isso também faz sentido dentro da proposta da obra, já que a narrativa funciona como um relato gravado pelo próprio Tot.

Outra coisa interessante é que o autor não faz distinção entre mitologias, religiões ou crenças. Ele mistura referências de várias culturas e trabalha diferentes visões de mundo dentro das realidades paralelas. E confesso que, quando a história tocou em pontos ligados à minha fé pessoal, li meio “de rabo de olho” porque bateu aquele desconforto (risos). Mas entendo totalmente a proposta dele: apresentar múltiplas versões e interpretações de tudo — inclusive da espiritualidade.

No fim, Totverso realmente passa a sensação de uma viagem pelo multiverso. E o mais curioso é perceber o nível de detalhamento que o autor coloca nas regras das viagens entre realidades. Tem momentos em que você começa a pensar: “cara… e se um dia isso realmente existir?”

Parece exagero, mas o livro cria suas próprias lógicas de funcionamento de forma tão específica que, em certos momentos, quase funciona como um guia fictício de sobrevivência multiversal.

Se você curte histórias sobre universos paralelos, ciência maluca, caos existencial e aquela sensação constante de “o que mais pode acontecer agora?”, provavelmente vai gostar bastante de Totverso.

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