Tenet, a liberdade de escrever e o tempo de Christopher Nolan

Um texto sobre liberdade editorial, ficção científica, espionagem, o tempo e as escolhas que fazemos. Afinal, o que aconteceria se pudéssemos olhar para o futuro e descobrir as consequências das nossas decisões?

HENRIQUE SANCHES

11/5/20269 min read

Quando recebi o convite para me tornar colunista do Um Leitor de Sci-Fi, fiquei muito feliz. Afinal, fazer parte de um espaço dedicado à ficção científica, à literatura e à divulgação de histórias é algo que tem tudo a ver comigo.

Minha preocupação inicial foi, será que terei tempo de escrever, de preparar uma pauta de escrita, que darei conta do recado?

Mas uma das coisas que mais me chamou a atenção foi a liberdade que o Michael Douglas, nosso querido MD (uma abreviação que aprendi com o escritor e também colunista Rafael Kapiwara), oferece aos seus colunistas.

A proposta é simples e, ao mesmo tempo, extraordinária... escrever sobre aquilo que gostamos, aquilo que nos instiga, aquilo que queremos compartilhar com os leitores. Não precisamos ficar presos a um único assunto, formato ou abordagem. Podemos falar de livros, filmes, séries, ciência, tecnologia, educação, inovação, futuros possíveis e, claro, ficção científica em suas mais variadas manifestações.

E isso é cabuloso!

Porque, para mim, a ficção científica nunca esteve limitada às páginas de um livro ou às telas do cinema. Ela está nas conversas, nas perguntas que fazemos, nas tecnologias que desenvolvemos e nas possibilidades que imaginamos para o futuro.

Na segunda-feira passada, conhecida também como anteontem, publiquei mais uma edição de Lançamentos da Semana, no Notícias Sci-Fi, minha coluna semanal sobre lançamentos e novidades do gênero. Entre as indicações, mencionei um filme que merece muito mais do que uma simples recomendação: Tenet de 2020.

E pensei, por que não aproveitar a liberdade que o MD nos dá para conversar um pouco mais sobre essa obra? Afinal, Tenet é um daqueles filmes que continuam trabalhando na nossa cabeça mesmo depois que os créditos terminam. E, para mim, é um dos melhores trabalhos de Nolan.

Prepare-se. Vamos entrar nessa missão!

Christopher Nolan e a arte de brincar com o tempo

Se você acompanha o cinema de Christopher Nolan (você é Nolanzete?), sabe que o diretor tem uma verdadeira paixão por narrativas complexas, conceitos científicos e histórias que desafiam nossa percepção da realidade.

Em Amnésia (2000), meu primeiro contato com Nolan, somos apresentados a uma narrativa que brinca com a memória e a ordem dos acontecimentos. Em A Origem (2010), Nolan nos leva a explorar os sonhos, suas camadas e a possibilidade de manipular o tempo dentro deles. Em Interestelar (2014), temos uma aventura espacial que aborda relatividade, dilatação temporal, gravidade e a sobrevivência da humanidade. Fui no cinema esse ano, assistir a exibição de 10 anos de Interestelar.

E então chegamos a Tenet. Lançado em 2020, o filme mistura espionagem internacional, ação, conceitos científicos e uma narrativa que exige atenção do espectador. É uma experiência que parece reunir elementos de James Bond com a ficção científica mais cerebral de Nolan.

Temos agentes secretos, operações internacionais, armas sofisticadas, perseguições, organizações misteriosas e uma missão que pode determinar o destino da humanidade.

Mas há algo que diferencia Tenet de uma aventura tradicional de espionagem... o tempo não é apenas o cenário da história. Ele é parte fundamental da ação.

E isso muda completamente as regras do jogo.

Uma mistura perfeita de 007 com ficção científica

Confesso que gosto muito da combinação entre espionagem e ficção científica. E Tenet consegue reunir essas duas vertentes de uma maneira muito interessante.

De um lado, temos os elementos clássicos de um filme de espionagem: um protagonista recrutado para uma missão secreta, organizações misteriosas, identidades ocultas, operações internacionais, tecnologia avançada e uma ameaça global.

Do outro, temos um conceito científico especulativo que transforma tudo isso em algo muito diferente do que estamos acostumados a assistir.

O protagonista, conhecido simplesmente como “O Protagonista”, é recrutado para uma missão que envolve uma organização chamada Tenet. Durante sua investigação, ele descobre a existência de objetos e pessoas que apresentam um comportamento incomum, que parecem estar se movendo no sentido contrário do tempo.

Balas que retornam às armas. Veículos que parecem se comportar de maneira impossível. Pessoas que experimentam acontecimentos em uma direção temporal diferente da nossa.

E, a partir daí, o filme constrói uma narrativa em que o espectador precisa aprender a observar os acontecimentos de outra maneira.

É quase como se Nolan nos dissesse, "Você conhece as regras do mundo em que vive. Agora, imagine o que aconteceria se algumas delas fossem diferentes."

E é justamente esse convite que torna Tenet tão fascinante para quem gosta de ficção científica.

Mas afinal, estamos falando de viagem no tempo?

Essa é uma das perguntas que mais aparecem quando conversamos sobre Tenet.

A resposta curta e grossa, depois de ter assistido mais de três vezes, é: sim, o filme trabalha com a ideia de manipulação temporal, mas não exatamente da maneira tradicional como estamos acostumados a ver em histórias de viagem no tempo.

Em muitas narrativas, viajar no tempo significa entrar em uma máquina, desaparecer no presente e reaparecer em outra época. Em Tenet, o conceito central é a inversão temporal.

A ideia especulativa apresentada pelo filme é que determinados objetos e pessoas podem ter sua entropia invertida, passando a experimentar o tempo em sentido contrário ao nosso.

Isso significa que não se trata simplesmente de viajar para o passado e alterar acontecimentos. O personagem continua existindo, mas sua experiência do tempo passa a acontecer em uma direção diferente.

Imagine caminhar por uma rua enquanto, ao seu redor, algumas pessoas estão vivendo os acontecimentos na ordem inversa. Para elas, o que você considera passado pode ser futuro. E aquilo que você ainda está prestes a fazer já aconteceu na perspectiva delas.

Confuso? Um pouco. Fascinante? Muito! A primeira vez que assisti, por indicação do Fernando “Véio do Paradoxo” Rômbola, me senti confuso. Mas também me senti fascinado.

É claro que estamos falando de ficção científica especulativa. O conceito apresentado no filme não deve ser confundido com uma tecnologia real disponível ou com uma aplicação prática da física. Nolan utiliza ideias relacionadas à entropia e à reversibilidade de processos físicos como ponto de partida para construir sua narrativa.

E o mais interessante é que essa ideia não serve apenas para criar cenas de ação visualmente impressionantes. Ela também transforma a maneira como pensamos sobre causa e consequência.

Porque, em Tenet, o tempo não é apenas algo que passa. É algo com que os personagens precisam aprender a lidar.

Sator: muito mais do que um nome

Agora chegamos a uma das minhas partes favoritas dessa história, o misterioso quadrado de Sator.

Se você ainda não assistiu ao filme, talvez não saiba que os nomes de alguns elementos importantes da trama estão relacionados a um antigo palíndromo latino conhecido como Quadrado de Sator.

O quadrado é formado por cinco palavras:

SATOR
AREPO
TENET
OPERA
ROTAS

Essas palavras formam uma estrutura que pode ser lida tanto da esquerda para a direita quanto da direita para a esquerda, e de cima para baixo ou de baixo para cima.

No filme, Nolan utiliza essas cinco palavras como nomes e referências importantes:

  • Sator: o antagonista da história, um homem poderoso ligado à ameaça que coloca o mundo em perigo.

  • Arepo: o nome associado a uma pessoa envolvida na falsificação de uma obra de arte.

  • Tenet: a organização secreta que recruta O Protagonista e o envolve na missão.

  • Opera: o local de uma sequência que dá início aos acontecimentos do filme.

  • Rotas: associado ao nome da embarcação utilizada na narrativa.

É uma escolha que vai muito além de uma curiosidade visual.

O palíndromo representa uma estrutura que pode ser percorrida em diferentes direções sem perder sua identidade. E isso conversa diretamente com a proposta de Tenet, uma história em que os acontecimentos podem ser experimentados de trás para frente e de frente para trás.

O próprio título do filme está no centro desse jogo. Tenet é uma palavra que pode ser lida da mesma forma nos dois sentidos.

Não é simplesmente um detalhe escondido para os espectadores mais atentos. É uma espécie de chave conceitual para compreender a estrutura da narrativa.

E eu adoro quando um filme faz isso, quando o título, os nomes, os objetos e os acontecimentos estão conectados por uma ideia maior.

O tempo, as escolhas e suas consequências

Mas, para mim, Tenet vai além da espionagem e das explicações sobre inversão temporal.

O filme também nos leva a pensar sobre algo muito presente em nossas vidas, as decisões que tomamos e as consequências que elas produzem.

Estamos acostumados a imaginar que nossas escolhas acontecem no presente e que seus resultados aparecem no futuro. Plantamos hoje, colhemos amanhã. Fazemos uma escolha, enfrentamos suas consequências. E, quando olhamos para trás, tentamos compreender como chegamos até determinado ponto.

Mas e se pudéssemos observar os acontecimentos de outra perspectiva?

E se soubéssemos que uma decisão tomada agora teria consequências que ainda não conseguimos enxergar? E se o futuro já estivesse, de alguma maneira, influenciando aquilo que fazemos no presente?

Essas são perguntas que Tenet explora de maneira bastante provocadora.

O filme brinca com a ideia de que os acontecimentos podem estar conectados por uma estrutura maior do que nossa compreensão imediata. Os personagens precisam agir sem conhecer todas as respostas, confiar em informações incompletas e tomar decisões em situações nas quais o tempo parece não obedecer às regras habituais.

E isso tem algo de muito humano. Afinal, quantas vezes precisamos tomar decisões sem saber exatamente o que acontecerá depois? Quantas vezes nossas escolhas dependem de informações que ainda não temos? E quantas vezes só compreendemos o significado de determinada decisão quando olhamos para trás?

A ficção científica nos permite explorar essas questões por meio de situações extraordinárias.

Em Tenet, o extraordinário é a inversão temporal. Mas o dilema continua sendo o mesmo, o que fazemos diante de um futuro que não conseguimos compreender completamente?

O paradoxo de conhecer o futuro

Uma das coisas mais interessantes em histórias que envolvem viagem no tempo é o paradoxo que surge quando os personagens passam a conhecer acontecimentos que ainda não ocorreram.

Se você sabe o que vai acontecer amanhã, essa informação pode mudar a maneira como age hoje. Mas, se você muda sua ação, o futuro que conhecia continua sendo o mesmo? E se suas ações já fazem parte daquele futuro?

Esse tipo de questionamento aparece em diversas obras de ficção científica, desde histórias clássicas de viagem temporal até produções mais recentes. E Tenet transforma esse dilema em parte essencial de sua narrativa.

O filme nos convida a considerar uma possibilidade inquietante: e se aquilo que entendemos como livre-arbítrio estiver conectado a acontecimentos que não conseguimos perceber por completo?

Não vou entrar em detalhes sobre os acontecimentos finais, porque acredito que parte da experiência de Tenet está justamente em descobrir como as peças se encaixam. Mas posso dizer que a relação entre destino, escolhas e consequências é um dos aspectos que mais me fazem querer revisitar o filme.

E, cada vez que assisto, tenho a impressão de que encontro algo novo.

Um filme que merece ser revisto

Eu sei que Tenet dividiu opiniões. Sua narrativa complexa, as explicações científicas e a maneira como Nolan apresenta os acontecimentos podem tornar a experiência desafiadora. Mas talvez seja justamente isso que me agrada.

Não é um filme que entrega tudo mastigado. Ele exige que o espectador participe, observe, conecte informações e aceite que nem todas as respostas estarão imediatamente disponíveis.

E isso combina muito com a ficção científica. Gosto de histórias que nos deixam com perguntas. Gosto de obras que nos fazem conversar depois da sessão, procurar explicações, discutir teorias e pensar sobre aquilo que acabamos de assistir.

Tenet é um desses filmes. Além disso, gosto muito da maneira como ele combina diferentes elementos: a ação de um filme de espionagem, os enigmas de uma narrativa complexa, as possibilidades da ciência especulativa e uma reflexão sobre o tempo e nossas escolhas.

É uma obra que não precisa ser compreendida completamente na primeira sessão para continuar sendo fascinante.

E talvez seja esse um dos grandes prazeres de assistir a um filme de ficção científica: perceber que a história não termina quando a tela escurece.

E se pudéssemos voltar e fazer tudo diferente?

Essa é uma pergunta que provavelmente já passou pela cabeça de muita gente.

Se pudéssemos voltar no tempo, mudaríamos alguma decisão? Corrigiríamos um erro? Evitaríamos uma situação dolorosa? Ou descobriríamos que nossas escolhas, mesmo aquelas que consideramos equivocadas, contribuíram para nos tornar quem somos?

Tenet não oferece respostas simples para essas questões. E ainda bem!

A ficção científica não precisa resolver todos os dilemas que apresenta. Às vezes, sua maior contribuição é justamente nos fazer pensar sobre eles.

O filme de Christopher Nolan é uma aventura de espionagem, uma experiência de ficção científica e um convite para refletir sobre o tempo, o destino, o livre-arbítrio e as consequências das nossas decisões.

E, para mim, é também uma lembrança de por que gosto tanto desse gênero.

A ficção científica nos permite imaginar possibilidades que ainda não existem, explorar conceitos que desafiam nossa compreensão e olhar para o presente a partir de perspectivas inesperadas.

Por isso, aproveito a liberdade que o MD nos oferece aqui no Um Leitor de Sci-Fi para compartilhar esta reflexão sobre um dos meus filmes favoritos de Christopher Nolan (sou um Nolanzete?).

Porque falar de ficção científica também é falar daquilo que nos inquieta, nos fascina e nos faz querer descobrir um pouco mais.

E você? Já assistiu a Tenet? Gostou da experiência ou precisou de uma segunda sessão para organizar as ideias? Qual é o seu filme favorito de Christopher Nolan?

Vamos conversar nos comentários. Afinal, se o tempo pode ser experimentado em diferentes direções, talvez uma boa história também possa ser revisitada infinitas vezes.


Boas leituras, boas sessões e... Fim da transmissão!


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