Spider-Noir prova que nem toda ficção científica precisa se passar no futuro

Muito além do visual noir e da investigação policial, a série utiliza experimentos científicos, manipulação biológica e interesses militares para construir uma narrativa tipicamente de ficção científica.

REFLETINDO FICÇÃO CIENTÍFICA

Michael Douglas

7/8/20262 min read

Quando pensamos em ficção científica, é comum imaginar naves espaciais, inteligência artificial ou viagens no tempo. Mas a verdade é que o gênero vai muito além disso.

A nova série Spider-Noir, já disponível no Prime Video e estrelada por Nicolas Cage, é um bom exemplo. À primeira vista, ela parece apenas uma história de detetive ambientada em uma Nova York alternativa dos anos 1930, mergulhada na estética dos filmes noir. Mas basta acompanhar os episódios para perceber que a ficção científica está presente o tempo todo.

A série acompanha Ben Reilly, um investigador particular que tenta deixar para trás seu passado como o misterioso herói conhecido apenas como "The Spider". Enquanto investiga uma rede de crimes, ele acaba se envolvendo em uma conspiração que mistura figuras do submundo, cientistas e interesses militares.

É justamente aí que entra a ficção científica.

Ao longo da temporada, a série apresenta experimentos conduzidos em animais e seres humanos com o objetivo de compreender — e reproduzir — as habilidades extraordinárias do protagonista. O conhecimento científico deixa de ser apenas uma ferramenta para se transformar em arma, despertando o interesse de militares e grupos que enxergam naquele poder uma vantagem estratégica.

Esse tipo de narrativa tem um nome dentro da ficção científica: bioficção/biopunk ou ficção científica biológica. O foco não está em espaçonaves ou robôs, mas na manipulação da vida por meio da ciência. Alterações genéticas, experimentos secretos, pesquisas conduzidas sem limites éticos e o uso militar da ciência são temas recorrentes do gênero há décadas.

Na prática, Spider-Noir conversa com obras que discutem o que acontece quando governos e cientistas ultrapassam os limites da ética em nome do progresso. O cenário pode ser inspirado na década de 1930, mas os questionamentos são extremamente atuais.

Outro aspecto interessante é que a série utiliza a ciência como motor da narrativa, e não apenas como explicação para a origem de um super-herói. Os experimentos influenciam decisões políticas, alimentam disputas de poder e moldam os interesses de organizações que enxergam aqueles avanços como ferramentas de controle.

Isso faz com que Spider-Noir transite entre diferentes gêneros. Ela é um drama policial, uma história de super-herói e, ao mesmo tempo, uma obra de ficção científica.

Talvez esse seja um dos maiores méritos da série.

Ela lembra que ficção científica não depende de um futuro distante para existir. Basta imaginar como a ciência pode transformar a sociedade — para o bem ou para o mal.

E essa sempre foi uma das perguntas favoritas da boa sci-fi.

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