Será mesmo que estamos vivos e PKD morto?
Entre paranoias, drogas, experiências transcendentais e androides, a vida de Philip K. Dick parece ter saído de um de seus próprios livros.
JUNE GARCIA
10/3/20265 min read
Como diria a expressão “quem é vivo sempre aparece” (sim, piadoca com o título do artigo, que também pega carona na biografia de PKD escrita por Emmanuel Carrère), olha quem voltou aqui pro “Um Leitor de Sci-fi”! Me imaginem que nem a Clara da novela: “Vocês não imaginam o prazer que é estar de volta”.
Depois de perguntar pros meus colegas o que eles mais queriam ver em uma coluna de ficção científica, fiz uma breve reformulação dos temas por aqui. Não se preocupem, a pergunta condutora ainda será a base dos títulos (minha marca registrada, né?), mas agora vamos focar mais na vida e obra de alguns autores, bem como em acontecimentos históricos que redefiniram as possibilidades da ficção científica.
E quem melhor pra inaugurar essa nova proposta do que um cara que questionou completamente a realidade?
Philip K. Dick provavelmente é para a ficção científica o que Stephen King é para o terror, isso porque foi um dos autores mais adaptados para o cinema e para a televisão. Entre as adaptações mais famosas, temos os filmes “Blade Runner”, “Minority Report”, “O Vingador do Futuro” e “Screamers, Assassinos Cibernéticos”, além das séries “O Homem do Castelo Alto” e “Sonhos Elétricos”.
Porém, apesar de tanto reconhecimento, inclusive rendendo ao autor uma premiação em seu nome, o Philip K. Dick Award, que premia anualmente obras originais de ficção científica publicadas em formato de livro de bolso nos Estados Unidos, sua vida foi marcada por uma trajetória pessoal e familiar extremamente conturbada.
PKD e sua irmã gêmea nasceram prematuros e ela acabou não resistindo às primeiras semanas de vida, algo que ele afirmou nunca ter superado. A partir daí, ele passou a ser a única criança da casa e seus pais acabaram se divorciando quando Philip tinha 5 anos. Ele passou a infância morando com a mãe e era um aluno com ótimas notas. Curiosidade, ele estudou na mesma escola que Ursula K. Le Guin, embora os dois não fossem próximos. Sua vida mudou mesmo aos 12 anos, quando ele leu seu primeiro conto de ficção científica.
Ao se formar na escola, até tentou ingressar na universidade, mas acabou abandonando o curso e começou a estudar por conta própria história, psicologia e filosofia, especialmente a obra de Platão, que deu a PKD alguns dos insumos para começar a questionar a realidade.
Inclusive, um ponto importante de sua biografia é que não dá para afirmar que Dick era esquizofrênico. Apesar de ele próprio acreditar nisso e ter contado para sua terceira esposa, Anne, que era formada em psicologia, a grande verdade é que seu estado psicológico foi interpretado de maneiras diferentes ao longo da vida. Ele tinha, sim, episódios de paranoia intensa, alterações de percepção e experiências transcendentais. Dick passou a escrever essas percepções em um diário que foi posteriormente publicado sob o título “The Exegesis of Philip K. Dick”.
Também é incorreto afirmar que PKD questionava a realidade em suas obras por ser “apenas um drogado”. Sim, Dick teve uma relação prolongada com drogas, sobretudo anfetaminas. Ele próprio afirmou em uma entrevista que havia escrito praticamente todos os seus livros publicados antes de 1970 sob efeito de anfetaminas. Ele também experimentou psicodélicos, embora tenha escrito “Os Três Estigmas de Palmer Eldritch” antes de experimentar LSD. Ele próprio falava sobre drogas com bastante consciência de seus efeitos e conhecia pessoas que tiveram problemas graves relacionados a elas. Em 1971, Dick passou por um período de forte envolvimento com drogas e, posteriormente, buscou tratamento.
É importante dizer que o ápice de sua paranoia aconteceu em 1974, após efeitos causados pelo tiopental durante a extração de um siso. A partir desse momento, ele passou a vivenciar mais e mais experiências transcendentais, afirmando coisas como ter visto Jesus na Roma Antiga. Dick passou o restante da vida tentando entender o que exatamente havia acontecido com ele, registrando suas hipóteses em milhares de páginas que posteriormente seriam reunidas em “The Exegesis of Philip K. Dick”.
E um dos focos mais intensos de sua paranoia começou a ser o comunismo. Não podemos esquecer que era o período da Guerra Fria, especialmente marcado nos Estados Unidos pelo macarthismo.
Sua segunda esposa, Kleo, era estudante na Universidade da Califórnia e tinha envolvimento com movimentos de esquerda e posições socialistas. Em 1955, o FBI apareceu na casa do casal, aparentemente interessado nas atividades políticas de Kleo. Só que não foi uma batida policial propriamente dita. Eles estavam à paisana e interessados nas atividades políticas de Kleo. Ou seja, Dick viveu uma experiência concreta de vigilância governamental.
E isso culmina, é claro, no absurdo da carta ao FBI em 1974, na qual ele diz que Stanisław Lem não existe e que seria o nome utilizado por um “comitê” de escritores e intelectuais, sediado na Polônia, que produzia ficção científica para manipular a opinião pública ocidental. O mais triste de tudo isso é que Lem era um grande admirador do trabalho de PKD, sendo um dos poucos escritores americanos de ficção científica que ele elogiava.
Mas essa história do Lem não foi um episódio isolado. Nesse mesmo ano, Dick enviou pelo menos 21 comunicações ao FBI nas quais apresentava teorias sobre uma conspiração marxista internacional. Ele chegou a acusar Fredric Jameson, Peter Fitting e outros de serem agentes ligados ao Pacto de Varsóvia. Eu imagino que o FBI já devia até ter uma piada interna sobre ele, porque não é possível rsrs
É importante citar também que a paranoia de Dick se estendeu aos seus casamentos posteriores ao de Kleo, sendo os mais conturbados os com Anne e Leslie. O relacionamento com Anne foi marcado por conflitos intensos, que incluíam agressões físicas e destruição de objetos dentro de casa. Dick afirmou a vizinhos que Anne tentava matá-lo e conseguiu que ela fosse internada involuntariamente em uma instituição psiquiátrica por cerca de duas semanas.
Felizmente, eles se divorciaram e, felizmente, nenhuma das ex-esposas sofreu um fim trágico. Espero que elas tenham ficado bem, se recuperado psicologicamente e tido uma boa vida posterior ao relacionamento. E acho importante falar disso porque a genialidade de um autor não deve servir para relativizar ou apagar a violência doméstica presente em sua própria história.
Dick faleceu em 1982, vítima de um AVC, e não pôde ver nenhuma de suas obras ser adaptada, pois a estreia de “Blade Runner” aconteceu alguns meses após sua morte.
Em 2005, a empresa Hanson Robotics apresentou um robô humanoide baseado no rosto e na personalidade de PKD. A ideia era criar um androide que pudesse conversar com as pessoas como se fosse o próprio escritor. O bizarro é que, durante uma demonstração, um jornalista perguntou ao androide se ele acreditava que os robôs poderiam dominar o mundo e ele respondeu algo do tipo: “Não se preocupe, mesmo que eu evolua para uma inteligência artificial superinteligente, vou tratar vocês como animais de estimação”.
Em 2006, a cabeça do androide desapareceu durante o transporte para uma conferência. David Hanson havia colocado a cabeça robótica na bagagem de mão durante uma viagem de avião e acabou esquecendo-a dentro da aeronave depois de uma troca de voo. A companhia aérea encontrou a cabeça, mas ela desapareceu antes de ser devolvida. Nunca foi recuperada.
Sim, até o androide de PKD perdeu a cabeça.




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