Senhor Tempo Bom: a ficção científica brasileira que transforma viagem no tempo em memória, saudade e trauma

Entre trens improvisados, paradoxos temporais e memórias dos anos 80, Anna Martino transforma viagem no tempo em uma ficção científica intimista sobre saudade, trauma e as lembranças que nunca realmente ficam no passado.

RESENHAS

Michael Douglas

6/27/20265 min read

De todos os temas que a ficção científica já explorou, viagem no tempo talvez seja o que mais revela algo sobre quem nós somos. Existe sempre uma certa arrogância embutida nessas histórias: a ideia de que, diante da oportunidade, tentaríamos corrigir erros, alterar eventos históricos ou descobrir o futuro da humanidade.

Mas o que mais me fascina em viagens temporais nunca foi o futuro.

Sempre foi o passado.

Talvez porque o passado carregue um tipo diferente de mistério. O futuro é desconhecido por natureza. Já o passado tem algo mais desconfortável: ele parece resolvido até o momento em que voltamos a encará-lo de perto.

E foi justamente isso que encontrei em Senhor Tempo Bom, noveleta da autora brasileira Anna Martino.

Uma máquina do tempo diferente de tudo que já vimos e lemos

A premissa inicialmente parece simples e até clássica dentro da ficção científica. Galileu, um meteorologista de quarenta anos que ironicamente tem medo de chuva, trabalha com três colegas em um laboratório sucateado da USP. Entre equipamentos improvisados e um ambiente que parece constantemente à beira de desabar, eles escondem uma invenção impossível: uma máquina do tempo.

Mas uma das coisas mais interessantes na obra é justamente como Anna Martino trata essa tecnologia.

Não existem portais brilhantes.
Não existe estética futurista sofisticada.
Nada lembra o deslumbre tecnológico tradicional de boa parte da ficção científica sobre viagem temporal.

A máquina é literalmente um vagão de trem cheio de remendos e gambiarras.

E isso muda completamente o tom da história.

Porque Senhor Tempo Bom entende algo importante sobre as melhores histórias de viagem no tempo: o mecanismo nunca é a parte principal. O que realmente importa é o que a viagem obriga o personagem a enfrentar.

Quando Galileu retorna para a São Paulo de 1980, perto de onde viveu a infância, a narrativa começa a abandonar lentamente a sensação de aventura científica e passa a entrar em um território mais íntimo e emocional. O reencontro com a avó que o criou funciona quase como uma colisão entre memória e trauma.

E Anna Martino faz isso de maneira muito inteligente.

O livro nunca parece excessivamente preocupado em explicar regras temporais complexas ou construir uma engenharia narrativa gigantesca sobre paradoxos. Eles existem — inclusive o famoso “paradoxo do avô” aparece de maneira bastante divertida — mas a obra entende que o verdadeiro conflito da viagem temporal não está no risco de destruir o espaço-tempo. Está no risco de reencontrar versões antigas de si mesmo.

Existe uma diferença enorme entre lembrar e revisitar.

Talvez por isso a ambientação dos anos 80 seja uma das partes mais fortes da novela. Anna Martino reconstrói esse passado cotidiano sem transformar a nostalgia em caricatura. O livro não tenta simplesmente dizer “olha como aquela época era melhor”. Pelo contrário: existe uma melancolia muito específica atravessando toda a narrativa.

As ruas com crianças brincando.
Os cachorros dormindo nas calçadas.
A televisão de tubo ligada na sala.
O telefone bege em cima da toalhinha de crochê.

Tudo isso cria uma sensação estranha de familiaridade até para leitores que sequer viveram aquela época. E talvez funcione porque a autora não escreve o passado como reconstrução histórica fria. Ela escreve como memória afetiva.

O curioso é que, ao mesmo tempo em que o texto é leve, engraçado e frequentemente brinca com as palavras, ele vai abrindo espaço para temas extremamente densos. Aos poucos, a história começa a falar sobre trauma, preconceito, culpa e os mecanismos que usamos para reorganizar lembranças dolorosas dentro da nossa própria narrativa pessoal.

E existe um momento específico da leitura — que eu obviamente não vou revelar — em que a história provoca um desconforto genuíno. Daqueles momentos em que você pensa: “isso está errado”. Anna Martino conduz essa sensação de maneira muito calculada, porque sabe exatamente o tipo de reação emocional que quer construir antes da revelação seguinte reorganizar completamente o que o leitor estava sentindo.

A ficção científica usada para falar de emoçoes humanas

Também chama atenção como Senhor Tempo Bom pertence a uma tradição muito específica da ficção científica: aquela que usa elementos extraordinários para falar sobre emoções profundamente humanas. Nesse sentido, a novela parece mais próxima de obras que busca entender o sentido da raça humana ou do próprio personagem individualizado, do que de narrativas focadas em salvar o mundo ou impedir catástrofes temporais.

O próprio medo de chuva de Galileu acaba funcionando menos como peculiaridade excêntrica e mais como sintoma emocional. Conforme a história avança, fica claro que clima, memória e trauma estão profundamente conectados dentro da experiência do personagem.

E talvez seja exatamente por isso que a noveleta funcione tão bem em poucas páginas.

Anna Martino não desperdiça tempo tentando convencer o leitor da plausibilidade científica da máquina. Ela usa a viagem temporal como ferramenta para discutir algo muito mais delicado: a maneira como certas lembranças permanecem emocionalmente vivas mesmo décadas depois.

A música como inspiração e complemento dessa atmosfera 

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Existe ainda outro detalhe bonito no livro: o próprio título nasce da música Senhor Tempo Bom, de Thaíde e DJ Hum. Depois de terminar a leitura, fui ouvir a música novamente e entendi imediatamente por que ela dialoga tão bem com a obra.

A faixa inteira carrega essa sensação agridoce de olhar para trás sabendo que certas coisas eram bonitas justamente porque não poderiam durar para sempre.

E acho que Senhor Tempo Bom entende isso perfeitamente.

Porque, no fundo, a novela não fala apenas sobre voltar no tempo. Ela fala sobre aquele momento estranho da vida adulta em que percebemos que o passado nunca desapareceu completamente. Ele apenas ficou esperando alguma coisa — uma música, uma chuva, uma rua antiga — para voltar inteiro de uma vez, como alguns leitores pontuaram no Skoob.

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