Se a memória define quem somos, o que acontece quando ela pode ser apagada, alterada ou vendida?

A terceira temporada de Silo voltou a colocar uma das perguntas mais fascinantes da ficção científica no centro da história: sem nossas memórias, ainda seríamos a mesma pessoa?

REFLETINDO FICÇÃO CIENTÍFICA

Michael Douglas

7/17/20263 min read

Quem está acompanhando a terceira temporada de Silo provavelmente percebeu que um dos grandes temas da série deixou de ser apenas o mistério dos silos. Aos poucos, a narrativa começa a discutir algo muito mais profundo: a memória.

E essa é uma das questões filosóficas que mais gosto de encontrar na ficção científica.

Afinal, o que realmente nos torna quem somos? Nossa personalidade nasce conosco? Ela é moldada pelas experiências que vivemos? Ou depende exclusivamente das lembranças que carregamos ao longo da vida?

Não é a primeira vez que reflito sobre esse assunto. Recentemente, por exemplo, li Os Códigos de Lya, do autor brasileiro Mário Vinícius Lima, uma obra que também levanta questionamentos sobre identidade e consciência.

Essa discussão também me faz lembrar de um dos experimentos mentais mais conhecidos da filosofia: o Paradoxo do Navio de Teseu.

A ideia é relativamente simples. Se todas as peças de um navio forem substituídas, uma por uma, ele continua sendo o mesmo navio? E se as peças antigas forem reunidas e montadas novamente, qual dos dois seria o verdadeiro?

A ficção científica adora adaptar esse paradoxo para seres humanos. Se substituímos nossas memórias, modificamos nossas lembranças ou apagamos partes importantes da nossa história, continuamos sendo a mesma pessoa?

A própria vida parece oferecer pistas para essa discussão. Pense em irmãos gêmeos idênticos criados em países diferentes, com culturas, famílias e experiências completamente distintas. Apesar da mesma genética, muitas vezes desenvolvem personalidades muito diferentes. Isso sugere que aquilo que vivemos tem um peso enorme na construção de quem somos.

Talvez seja justamente por isso que tantos autores de ficção científica escolham explorar a memória.

Um excelente exemplo nacional é Memórias Violadas, de Luis Wickboldt.

Na história, existe uma tecnologia capaz de transformar memórias em mercadoria. Pessoas podem vender suas lembranças e outras podem comprá-las, experimentando viagens, romances, aventuras e experiências que nunca viveram de verdade.

A proposta parece fascinante à primeira vista. Quem não gostaria de experimentar a sensação de escalar o Everest, visitar Marte ou conhecer outra época da história?

Mas a pergunta inevitável surge logo em seguida: quando começamos a acumular lembranças que nunca aconteceram conosco, essas experiências passam a fazer parte da nossa identidade? Ainda somos apenas nós mesmos ou começamos a nos tornar uma mistura de inúmeras outras vidas?

Curiosamente, essa reflexão não parece tão distante da realidade em que já vivemos.

Hoje, passamos horas consumindo as experiências de outras pessoas nas redes sociais. Viajamos por meio dos vídeos de influenciadores, acompanhamos rotinas, emoções e histórias que não são nossas. Evidentemente isso não equivale a implantar memórias, mas até que ponto esse consumo constante também influencia a forma como enxergamos a nós mesmos?

Outro exemplo muito interessante da ficção científica brasileira é A Prole, de Maikel Rosa.

O conto apresenta uma empresa especializada em reconstrução de memórias utilizando uma inteligência artificial extremamente avançada. A tecnologia promete restaurar lembranças perdidas, mas também levanta outra questão inevitável: se alteramos nossas memórias, alteramos também nossas experiências. E, se nossas experiências moldam nossa personalidade, será que deixamos de ser quem éramos?

Talvez seja exatamente esse tipo de pergunta que faça a ficção científica permanecer tão atual.

Muito antes de existirem inteligências artificiais capazes de conversar conosco ou pesquisas sobre interfaces cerebrais, o gênero já imaginava mundos onde a memória poderia ser manipulada, apagada, vendida ou reconstruída. E, no fundo, essas histórias nunca falaram apenas de tecnologia. Sempre falaram sobre identidade.

É justamente por isso que estou gostando tanto do caminho que Silo está seguindo nesta terceira temporada. Mais do que responder mistérios, a série parece interessada em discutir aquilo que talvez seja o maior mistério de todos: o que realmente faz de nós quem somos?

E você, acredita que nossas memórias definem nossa identidade? Ou existe algo mais profundo que continua existindo mesmo quando elas desaparecem?

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