Resistência: quando a humanidade leva seus velhos problemas para o espaço
Em Resistência, Antonio Camará transforma uma nave-cidade, uma nova colônia em Titã e uma misteriosa forma de vida alienígena em palco para discutir corrupção, polarização política e os velhos vícios da humanidade.
RESENHAS
Michael Douglas
10/8/20266 min read
A Terra foi finalmente quase toda destruída.
O meio ambiente foi negligenciado, a sociedade entrou em ruínas e o ego, a vaidade e a corrupção venceram. Mas não se preocupem: os felizardos endinheirados, ou aqueles que ainda podem servi-los, estão a bordo de uma gigantesca nave espacial rumo a uma nova casa. Uma nova história. Uma oportunidade de recomeçar.
Seria a chance perfeita para a humanidade olhar para os próprios erros, deixar algumas coisas para trás e construir uma sociedade realmente saudável.
Só que não.
Eu sempre pensei que o problema nunca seria exatamente o fim do mundo. O planeta pode acabar, mas, de alguma forma, a humanidade sempre encontra um jeito de carregar seus próprios problemas para onde quer que vá. Em Resistência, de Antonio Camará, é justamente isso que encontramos.
A humanidade deixou a Terra, mas não deixou de ser humanidade.
A bordo da Aurora Prime, uma verdadeira nave-cidade construída com tecnologias de autossustentação e sistemas avançados de sobrevivência, existe uma sociedade que tenta reproduzir aquilo que conhecemos na Terra. Há prefeitos, ministros, senadores, presidentes e, claro, corrupção. O governo que deveria representar uma segunda chance para a espécie humana acaba reproduzindo boa parte dos mesmos vícios do mundo que ficou para trás.
E existe um ingrediente ainda mais importante nessa equação: dinheiro.
Para desenvolver toda a tecnologia necessária para manter uma cidade inteira funcionando no espaço, a humanidade descobriu na Terra um minério capaz de produzir quantidades extraordinárias de energia: o quartzo. Como quase tudo que envolve um recurso valioso, aquilo que poderia representar uma solução para a humanidade também se transforma em uma fonte gigantesca de poder e lucro.
É nesse cenário que encontramos Eliah.
Depois de acordar de um coma, ele se vê em uma sociedade que não conhece, tentando entender o que aconteceu com a Terra e como aquela nova civilização funciona. Aos poucos, porém, sua trajetória muda completamente. O que começa como a história de alguém perdido em uma sociedade desconhecida se transforma na história de um homem que acaba liderando uma resistência contra um governo corrupto.
E talvez uma das coisas mais interessantes do personagem seja justamente essa transformação.
Eliah começa sendo alguém essencialmente pacífico e, ao longo da história, precisa colocar alguns de seus princípios à prova. A Federação não está disposta a abrir mão de seus interesses e, para enfrentá-la, Eliah percebe que talvez apenas boas intenções não sejam suficientes.
A Resistência, então, deixa de ser apenas uma ideia e passa a ser uma guerra.
Antes disso, porém, a história chega a Titã, lua de Saturno que se transforma em um dos principais palcos da narrativa. Uma colônia é estabelecida e, junto com os seres humanos, chegam também os velhos problemas estruturais da nossa sociedade: racismo, homofobia, intolerância religiosa e, principalmente, polarização política.
É justamente nesse ponto que Resistência me ganhou bastante.
O livro utiliza a ficção científica para falar de problemas extremamente atuais. Naves espaciais, mineração extraterrestre, tecnologias futuristas e vida alienígena funcionam como uma grande lente de aumento para observar comportamentos que já conhecemos muito bem.
É aquela ficção científica que utiliza o futuro para falar do presente.
E a polarização política talvez seja um dos temas mais evidentes. Camará apresenta uma sociedade que, mesmo tendo atravessado uma catástrofe planetária e precisado abandonar a Terra, ainda encontra motivos para se dividir. A humanidade consegue chegar a outro mundo, mas não consegue superar a necessidade de transformar diferenças em conflitos.
Também gostei da forma como o autor trabalha a própria resistência. Durante boa parte da história, ela aparece como algo clandestino, misterioso e secreto. Em alguns momentos, porém, tive a impressão de que a Federação sabia muito mais sobre a organização do que a narrativa inicialmente fazia parecer, o que me deixou um pouco confuso.
Por outro lado, quando finalmente chega o momento em que o grupo de Eliah decide partir para o confronto direto, essa questão deixa de existir. E, sinceramente, foi uma das partes que mais gostei.
Não tinha mais resistência escondida, segredo ou jogo político.
Era guerra.
Fogo, foguete, laser e bomba.
E funciona muito bem dentro da proposta do livro.
Outro ponto que me chamou atenção foi a vida alienígena encontrada em Titã. E aqui existe algo que eu gostaria muito de ver explorado em uma possível continuação. A maneira como Antonio Camará imaginou essas criaturas foge bastante daquele padrão mais conhecido de ficção científica. Não estamos falando simplesmente de um ser humanoide com cabeça grande e olhos enormes. A presença alienígena possui uma característica muito mais espectral, quase como se estivesse relacionada a outra dimensão.
Achei essa escolha bastante interessante.
O autor também parece gostar de apresentar conceitos, ideias e elementos que despertam nossa curiosidade e, em vez de explicar tudo imediatamente, deixa pequenas pistas ao longo da narrativa. Isso cria uma sensação de expectativa que me fez continuar procurando respostas.
Existe, inclusive, um elemento específico que aparece durante a história, desaparece por boa parte dela e retorna justamente na última página, funcionando quase como uma justificativa para sua ausência e, ao mesmo tempo, como uma semente para o próximo livro.
Para mim, foi uma decisão muito boa.
Mas nem tudo funcionou perfeitamente.
Uma das coisas que senti falta foi de um background mais desenvolvido para Eliah antes de todos os acontecimentos. Em determinado momento, ele parece surgir praticamente do nada dentro dessa nova realidade e, posteriormente, assume uma posição de liderança bastante importante. Eu gostaria de ter entendido melhor quem era Eliah antes do coma, qual era sua trajetória, quais experiências o levaram até aquele ponto e, principalmente, por que ele estava em uma posição tão relevante.
Isso fica ainda mais evidente quando surge a questão da colônia em Titã. Em determinado momento, Eliah já aparece como alguém capaz de chefiar uma colônia autorizada pelo governo da nave-cidade. E eu fiquei pensando: quem era esse cara antes de tudo isso? Como ele chegou a esse nível de responsabilidade?
Não considero isso algo que destrua a experiência de leitura, mas é uma lacuna de construção de personagem que me deixou curioso. Talvez seja justamente uma daquelas coisas que poderiam ser aprofundadas em um segundo ato ou em uma continuação.
Também houve um personagem cujas opiniões e atitudes ao longo da história me fizeram esperar uma resolução um pouco mais trabalhada. Ele recebe aquilo que, dentro da narrativa, parece merecer. Tudo bem. Mas fiquei pensando se houve realmente uma mudança de pensamento.
E essa é uma questão interessante porque, na vida real, nem sempre as pessoas aprendem.
Nem sempre alguém que errou muda.
Nem sempre alguém que teve uma experiência ruim sai dela com uma nova visão de mundo. Às vezes, o pau que nasceu torto continua torto. E talvez essa ausência de transformação também possa ser interpretada como uma escolha do autor, ainda que eu pessoalmente tivesse preferido uma resolução mais elaborada.
No fim das contas, eu devorei Resistência.
Poderia dizer simplesmente que é um livro fluido e rápido de ler, e isso seria verdade. Mas acho que ele funciona justamente porque Antonio Camará sabe colocar uma série de questões diante do leitor e, ao mesmo tempo em que entrega uma aventura espacial, consegue falar sobre problemas muito mais próximos da nossa realidade.
A Terra acabou.
A humanidade fugiu para o espaço.
Construiu uma nova cidade.
Chegou a Titã.
Encontrou novos recursos.
Talvez tenha encontrado até uma nova forma de vida.
Mas continuou sendo a mesma humanidade.
E talvez seja justamente essa a grande provocação de Resistência: não importa para onde a humanidade vá, seus maiores problemas provavelmente irão junto.
É uma ficção científica que olha para o futuro para falar do presente. E, mesmo com alguns pontos que eu gostaria de ver mais desenvolvidos, principalmente na construção do passado de Eliah e em alguns aspectos da organização daquele novo mundo, foi uma leitura que me deixou querendo saber o que vem depois.
E isso, para mim, já é uma ótima qualidade para um primeiro livro.
Agora é esperar para ver até onde essa resistência vai chegar.


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