Quem disse que o futuro só poderia ser imaginado em inglês?

Da Espanha à América Latina, uma tradição de ficção científica que merece muito mais espaço nas nossas estantes.

JUNE GARCIA

10/31/20265 min read

Quando pensamos na história da ficção científica, provavelmente os primeiros nomes que aparecem na nossa cabeça são Isaac Asimov, Arthur C. Clarke, Philip K. Dick, Ursula K. Le Guin, H. G. Wells e talvez alguns outros autores dos EUA e Reino Unido que ajudaram a consolidar o gênero. Se avançarmos um pouco mais, podemos lembrar de Stanisław Lem, da Polônia, ou dos irmãos Arkádi e Boris Strugátski, da antiga União Soviética.

Mas e quando falamos de ficção científica em espanhol? Quais são os primeiros nomes que vem à sua mente?

Pois é, acho que muita gente vai precisar de alguns segundos para responder essa pergunta. E não é porque não existam bons autores, obras importantes ou uma tradição consolidada. Na verdade, a ficção científica produzida na Espanha e nos países hispanohablantes tem uma história bastante extensa, com experiências literárias que começaram muito antes do gênero alcançar a popularidade que conhecemos hoje.

E eu gostaria de começar justamente pela Espanha, porque acredito que o país merece muito mais destaque quando falamos sobre a história da ficção científica.

Um exemplo interessante é Enrique Gaspar y Rimbau, dramaturgo e escritor espanhol que publicou, em 1887, “El anacronópete”. O livro apresenta uma máquina capaz de viajar no tempo, permitindo que seus passageiros explorem diferentes períodos históricos. E aqui temos uma curiosidade muito relevante: a obra foi publicada oito anos antes de “A Máquina do Tempo”, de H. G. Wells, que chegou às livrarias em 1895.

Não estou dizendo que Gaspar inventou sozinho a ideia de viagem temporal, até porque já existiam narrativas anteriores envolvendo deslocamentos no tempo por meio de sonhos, experiências fantásticas e outros recursos. Mas é legal destacar sua importância nesse tema.

Outro nome que vale ressaltar é Nilo María Fabra, que escreveu diversas narrativas de antecipação científica, incluindo histórias envolvendo viagens espaciais e conflitos entre nações. Ou seja, enquanto a ficção científica começava a se consolidar em diferentes partes do mundo, a Espanha também estava experimentando suas próprias possibilidades narrativas.

E essa tradição não desapareceu completamente, embora tenha passado por períodos de menor desenvolvimento e reconhecimento, especialmente após a Guerra Civil Espanhola. Inclusive, é possível notar como a produção posterior passou a dialogar mais intensamente com a ficção científica internacional, particularmente a norte-americana.

Atravessando o Atlântico, na América Latina, encontramos experiências de ficção científica que remontam ao período colonial. Um exemplo é “Sizigias y cuadraturas lunares”, escrito em 1775 pelo mexicano Manuel Antonio de Rivas. A narrativa apresenta uma viagem à Lua e estabelece um diálogo entre imaginação literária e conhecimentos científicos de sua época.

Durante o século XIX, outros escritores também começaram a experimentar esse tipo de narrativa. Entre eles, podemos citar Eduardo Ladislao Holmberg, na Argentina, Pedro Castera, no México, e Juana Manuela Gorriti, também argentina. Muitas dessas obras não eram necessariamente classificadas como ficção científica, recebendo denominações como fantasia científica, narrativas fantásticas ou histórias do futuro.

Isso é importante porque nem sempre os gêneros literários são definidos da mesma maneira ao longo da história. Às vezes, procuramos manifestações de ficção científica em obras que foram publicadas antes mesmo de existir uma definição consolidada para o gênero. E algo que é relevante pra esse ponto é que a ficção científica latino-americana não precisa necessariamente reproduzir os mesmos caminhos da tradição anglo-americana para ser reconhecida como ficção científica.

Conforme já falamos em outros textos, ao longo do século XX, diferentes países desenvolveram suas próprias experiências literárias, incorporando elementos de suas realidades políticas, sociais e culturais. Isso não significa que exista uma característica única compartilhada por todos esses autores, mas podemos encontrar aproximações interessantes entre algumas dessas produções.

Na Argentina, por exemplo, temos Angélica Gorodischer, uma das escritoras mais importantes da ficção especulativa em língua espanhola. Sua obra “Kalpa Imperial” apresenta a história de um império imaginário por meio de diferentes narradores, acompanhando suas transformações, ascensões e decadências. Ao contrário de uma narrativa tradicional sobre uma civilização futurista, com explicações técnicas sobre suas tecnologias ou uma descrição detalhada de seus sistemas políticos, Angélica utiliza a construção de um mundo imaginário para discutir poder, memória, história e a maneira como diferentes pessoas contam os acontecimentos de uma sociedade.

Outro nome que também merece destaque é Daína Chaviano, escritora cubana que mistura ficção científica, fantasia, mitologia e elementos da tradição cultural de seu país. Em “Fábulas de una abuela extraterrestre", por exemplo, encontramos justamente essa aproximação entre diferentes formas de imaginar o mundo, sem a necessidade de estabelecer uma separação rígida entre o fantástico e o científico.

Também temos Hugo Correa, no Chile, autor de "Los altísimos”, publicado em 1951, uma obra que explora civilizações extraterrestres e questões relacionadas à humanidade. E, no México, Juan José Arreola, conhecido por seus contos que frequentemente misturam humor, absurdo e especulação científica.

Mas, entre tantos nomes, existe uma escritora espanhola que eu gostaria de destacar especialmente: Rosa Montero. Se você acompanha a coluna, provavelmente já percebeu que gosto bastante de autores que utilizam a ficção científica para discutir questões que vão muito além da tecnologia. E Rosa é um exemplo excelente disso.

Jornalista e escritora espanhola, Rosa construiu uma carreira literária bastante diversificada, com romances, ensaios e trabalhos jornalísticos. Entretanto, quando falamos especificamente de ficção científica, uma das suas contribuições mais interessantes é a série protagonizada por Bruna Husky. A personagem aparece pela primeira vez em “Lágrimas en la lluvia", publicado em 2011, e retorna em “El peso del corazón" (2015), “Los tiempos del odio" (2018) e “Animales difíciles" (2025), livro que encerra a série.

Bruna é uma replicante de combate que vive em um futuro no qual humanos, androides e outras formas de vida artificial coexistem. Ela trabalha como detetive, possui uma personalidade bastante particular e carrega uma característica que influencia profundamente sua maneira de enxergar o mundo: tem uma expectativa de vida limitada.

Bruna nasceu com 25 anos e sabe que morrerá aos 35. Sim, dez anos de existência, com uma contagem regressiva que acompanha sua própria memória.

E isso muda bastante a maneira como enxergamos a personagem. Afinal, estamos falando de uma criatura artificial, criada para desempenhar uma função específica, que precisa lidar com a própria mortalidade e com a consciência de que seu tempo é limitado. Mas será que isso a torna menos humana?

Aliás, essa discussão não é exatamente nova na ficção científica. Podemos lembrar de “Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?”, de Philip K. Dick, que serve de base para a personagem de Rosa (como é possível notar no primeiro volume da série, com a referência ao discurso final de Roy Batty no filme “Blade Runner”), que levanta questões sobre a memória, a identidade e os limites entre seres humanos e criaturas artificiais.

Porém, o interesse de Rosa está em observar como os problemas do nosso próprio tempo podem continuar existindo, mesmo quando a humanidade tiver desenvolvido tecnologias que hoje parecem impossíveis. Em entrevista, ela comenta que considera as histórias de Bruna Husky algumas de suas obras mais realistas, justamente porque utiliza a ficção científica como uma ferramenta para refletir sobre a condição humana e sobre o mundo contemporâneo.

A reflexão que Rosa nos propicia é a seguinte: de que adianta desenvolver tecnologias extraordinárias se continuamos reproduzindo as mesmas desigualdades?


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