Quando nascem os robôs

As histórias sobre robôs nasceram muito antes da publicação do primeiro romance de ficção científica e continuam evoluindo como um reflexo da própria humanidade.

ROGÉRIO PIETRO

5/30/20263 min read

closeup photo of white robot arm
closeup photo of white robot arm

Os robôs são tão intimamente ligados ao gênero da ficção científica que até parece que ambos nasceram juntos. Mas, se analisarmos bem, talvez essa ideia não seja tão errada assim.

A ficção científica moderna nasceu com a publicação de Frankenstein ou O Prometeu Moderno, livro escrito pela talentosa britânica Mary Shelley em 1818. Longe de querer fazer uma análise da obra, vou me ater aqui a um ponto crucial dela: a história se trata da criação de um ser vivo feito de partes de pessoas mortas. O desejo do Dr. Victor Frankenstein era criar algo semelhante a ele.

É elementar que o monstro não era um robô. Todavia, o desejo de trazer ao mundo um ser autônomo e pensante já estava presente na história de Shelley, ao menos como uma semente.

Cem anos depois, quando o mundo passava por transformações mecânicas importantes, sobretudo nas fábricas, um dramaturgo Tcheco chamado Karel Čapek escreveu em 1920 uma peça de teatro fundamental para a ficção científica global, e ela foi encenada em janeiro de 1921. A peça se chamava RUR: Robôs Universais de Rossum, e foi justamente nela que a palavra robô foi grafada pela primeira vez. Mais do que isso, ela foi criada ali.

Portanto, o nascimento dos robôs aconteceu pela máquina de escrever de Karel Čapek. Mas, muito além de uma palavra, o autor nos trouxe uma maravilhosa história de revolta das “máquinas”, profunda e repleta de aspectos filosóficos.

É bom lembrar, porém, que os robôs originais eram seres humanos de carne e osso criados artificialmente em uma fábrica, nascidos em uma linha de produção industrial e vendidos como trabalhadores baratos. Enquanto o ser autômato de Frankenstein era um mero experimento, os robôs de Čapek ganharam os tons da época na qual a humanidade vivia no início do Século 20.

Pouco depois surgiu Metrópolis, a cidade que engolia os trabalhadores pela manhã e os vomitava de noite, a cidade quase viva que, por si mesma, era como uma imensa máquina. Thea Von Harbou imaginou em 1925 um cenário onde o trabalho humano não apenas dependia das máquinas, mas era voltado para elas. Além disso, a obra nos apresenta Maria, a autômata que hoje reconhecemos ser aquilo que chamamos de Robô, apesar de a obra não trazer essa palavra. Em Metrópolis lemos “Maschinenmensch” (“homem-máquina”, em alemão).

De RUR para Metrópolis vimos a transformação dos robôs orgânicos para máquinas pensantes. E, então, veio Asimov.

Entre 1940 e 1950, Isaac Asimov publicou uma série de contos de ficção científica sobre robôs na revista Astounding Science Fiction. Ao final, a coletânea desses contos deu origem ao lendário Eu, Robô, que trouxe para a humanidade a palavra robótica e suas Três Leis. E a importância desse livro é tão grande que muita gente acredita que Asimov é o pai dos robôs.

De Metrópolis para Eu, Robô vemos os autômatos ganhando profundidade e consistência por meio das leis que basicamente funcionam como os pilares da sua consciência.

Por fim, a origem dos robôs foi coroada por Philip K. Dick em 1968, quando ele deu ao mundo o livro Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?

Mais do que o livro, a história ganhou o mundo no filme Blade Runner (1982), e é justamente ali que o nascimento dos robôs fecha seu ciclo. Pode-se dizer que o filme é a união de todos esses universos ficcionais das obras anteriormente citadas. Ali está a necessidade humana de criar algo semelhante a ela, e ao mesmo tempo relegar essa criação ao abandono, como vimos em Frankenstein. Ali também vemos os robôs sendo explorados como trabalhadores baratos ou soldados descartáveis, ideia explorada em RUR. Assistimos à quase simbiose entre humano e máquina de Metrópolis, e ao nascimento da consciência de autopreservação, de cuidado com a vida humana, conceitos esses desenvolvidos em Eu, Robô.

Neste ponto, com Blade Runner, os Robôs terminaram de nascer. Mas a jornada deles não terminou ainda. E o maior exemplo disso é o filme Blade Runner 2044, continuação do clássico anterior. Nesse filme, o cerne crucial é a possibilidade de um androide (um robô não mecânico e idêntico a um humano), poder ter filhos.

Em RUR: Robôs Universais de Rossum, os robôs eram estéreis, não podiam se reproduzir por questões de mercado. A ligação entre RUR e Blade Runner 2044 é tão incrivelmente profunda que poderíamos até dizer que o filme é continuação da peça de teatro de 1920.

E que os robôs continuem evoluindo na ficção, nos surpreendendo como espelhos postos diante de nós.



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