Quando a ficção científica toma espaço na fantasia?

Muito além de mutações e experimentos genéticos, o biopunk imagina um futuro em que a própria vida se torna uma tecnologia — e mostra que a ficção científica pode existir muito mais perto da realidade do que parece.

REFLETINDO FICÇÃO CIENTÍFICA

Michael Douglas

7/15/20264 min read

Antes de tudo, eu preciso confessar uma coisa: durante muito tempo eu também associava ficção científica quase exclusivamente a naves espaciais, robôs e viagens interplanetárias. Talvez você também faça isso. Afinal, quando pensamos no gênero, é comum que a mente vá direto para batalhas no espaço, inteligências artificiais ou futuros repletos de máquinas. Mas quanto mais leio ficção científica, mais percebo que ela nunca esteve presa a um cenário específico. O que realmente define uma obra como sci-fi é a forma como ela utiliza a ciência para construir sua narrativa.

Se você tem costume de assistir filmes e séries da Marvel ou da DC, provavelmente já consumiu muita ficção científica sem nem perceber. O universo cinematográfico da Marvel, por exemplo, é sustentado por inúmeros conceitos científicos, ainda que fantasiosos. O Homem de Ferro existe graças ao desenvolvimento tecnológico de sua armadura. O Homem-Formiga depende de uma descoberta ligada à física quântica. Wakanda é construída sobre um metal com propriedades extraordinárias. E quando os personagens não surgem a partir da tecnologia, normalmente eles vêm de outro planeta, como Thor e os asgardianos, ou de civilizações alienígenas extremamente avançadas. A ciência, mesmo extrapolada, está sempre presente.

Mas existe um subgênero que faz um caminho completamente diferente. Em vez de olhar para computadores, foguetes ou inteligência artificial, ele volta seus olhos para aquilo que talvez seja a tecnologia mais fascinante de todas: a própria vida.

É aí que entra o biopunk.

Enquanto o cyberpunk imagina sociedades dominadas pela informação, pelas grandes corporações e pela tecnologia digital, o biopunk faz uma pergunta muito mais íntima: e se aprendêssemos a modificar organismos vivos com a mesma facilidade com que atualizamos um software? O que aconteceria quando editar DNA fosse tão comum quanto instalar um aplicativo? Como seria um mundo em que doenças fossem eliminadas geneticamente, mas em que também fosse possível criar seres humanos sob medida, vender organismos patenteados ou fabricar espécies inteiras em laboratório?

O interessante é que boa parte dessas perguntas deixou de pertencer exclusivamente à ficção. Ferramentas como a edição genética por CRISPR, pesquisas com órgãos cultivados em laboratório, carne produzida a partir de células e avanços na biologia sintética mostram que já começamos a dar os primeiros passos nessa direção. O biopunk apenas pega essas possibilidades e as leva às últimas consequências, explorando não apenas os avanços científicos, mas principalmente os dilemas éticos, sociais e políticos que eles carregam.

É por isso que o gênero costuma apresentar laboratórios clandestinos, megacorporações farmacêuticas, experimentos genéticos fora de controle, pandemias artificiais, mutações e seres humanos modificados. O corpo deixa de ser algo fixo e passa a ser uma tecnologia programável. A pergunta já não é "como construir uma máquina mais inteligente?", mas "até onde podemos modificar aquilo que nos torna humanos?".

Um exemplo interessante dessa abordagem aparece na trilogia Executores, de Executores, de Brandon Sanderson. Embora muita gente conheça Sanderson por suas obras de fantasia, essa série mergulha justamente em um conceito típico da ficção científica. Depois que uma misteriosa manifestação celeste concede superpoderes a determinadas pessoas, esses indivíduos passam a agir como tiranos em vez de heróis. A explicação para suas habilidades não nasce da magia, mas de um fenômeno que busca uma justificativa científica dentro do universo da obra. Não é exatamente um romance biopunk clássico, mas mostra como alterações na própria natureza humana podem ser o ponto de partida para discutir poder, evolução e responsabilidade.

E talvez seja justamente aí que mora a maior riqueza da ficção científica.

Ela nunca dependeu de um cenário específico para existir. Pode acontecer em uma estação espacial na órbita de Saturno, em uma cidade tomada por inteligências artificiais, em um laboratório de manipulação genética, no fundo do oceano ou até em uma pequena cidade do interior. O que une todas essas histórias não é o lugar onde elas acontecem, mas a pergunta que fazem: "e se a ciência permitisse isso?".

Outro exemplo clássico é o filme Gattaca. Diferente de muitas obras do gênero que apostam em mutações grotescas ou experimentos fora de controle, Gattaca constrói um futuro assustador justamente porque parece plausível. Na sociedade retratada pelo filme, a engenharia genética se tornou tão comum que os pais escolhem as melhores características de seus filhos antes mesmo do nascimento. O resultado é uma divisão social baseada no DNA: quem nasce geneticamente "aperfeiçoado" tem acesso às melhores oportunidades, enquanto os chamados "inválidos", concebidos naturalmente, são tratados como cidadãos de segunda classe.

O autor nacional Clayton De La Vie, tem vários contos com essa vertente biopunk, além do que já pode ser chamado pioneiro nesse subgênero o seu livro: O Último Rúivo.

É por isso que gosto tanto do gênero. A ficção científica pode estar em qualquer lugar. Ela pode vestir uma armadura de metal, pilotar uma nave interestelar, habitar um planeta alienígena ou simplesmente existir dentro de uma única célula. O importante nunca foi o cenário. Sempre foi a curiosidade de imaginar para onde a ciência pode nos levar e, principalmente, o que essas possibilidades revelam sobre nós mesmos

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