Por que toda megacidade cyberpunk chove?
Desde os romances de William Gibson até os animes dos anos 90, o cyberpunk parece ter desenvolvido uma obsessão específica por cidades molhadas. Isso tem uma explicação.
JUNE GARCIA
5/24/20262 min read


Por que toda megacidade cyberpunk chove?
Desde os romances de William Gibson até os animes dos anos 90, o cyberpunk parece ter desenvolvido uma obsessão específica por cidades molhadas.
Não importa se é Los Angeles, Neo Tóquio, uma megalópole genérica do ano 2145 ou uma rua cheia de neon. Está sempre de noite, sempre úmido e quase sempre chovendo.
O curioso é que o cyberpunk nunca imaginou o futuro como limpo. Pelo contrário: o futuro aparece como acúmulo. De gente, de cabos, de propaganda, de fumaça, de telas, de infraestrutura e, principalmente, de clima. Até o ar parece congestionado.
Talvez por isso seja fácil esquecer que Blade Runner se passa em Los Angeles. A cidade do imaginário solar americano virou uma metrópole escura onde o céu desapareceu atrás de poluição, anúncios luminosos e chuva permanente.
A chuva no cyberpunk não funciona só como estética. Ela ajuda a transformar a cidade em uma espécie de organismo cansado. Tudo escorre, enferruja, pinga, vaza. As ruas parecem saturadas de informação e sujeira ao mesmo tempo.
E existe uma ironia interessante nisso: boa parte da tecnologia contemporânea vende exatamente o oposto. Interfaces limpas, nuvens abstratas, aparelhos sem peso, superfícies minimalistas. O cyberpunk imaginava um futuro hipertecnológico muito mais material do que o nosso marketing tecnológico gosta de admitir.
Talvez seja por isso que o cyberpunk continue parecendo tão atual. Enquanto boa parte da tecnologia contemporânea tenta desaparecer atrás de interfaces limpas e discursos de eficiência, o cyberpunk insistia em lembrar que toda tecnologia ocupa espaço, consome energia, produz calor, altera cidades e deixa resíduos. A chuva constante dessas histórias talvez seja apenas a forma mais visível de dizer que o futuro nunca foi imaterial.
Três livros para continuar pensando o cyberpunk:
Neuromancer (William Gibson)
O livro que consolidou boa parte da estética cyberpunk moderna: megacidades saturadas, corporações gigantescas e tecnologia espalhada por cada centímetro do cotidiano.
Snow Crash (Neal Stephenson)
Uma versão mais caótica e acelerada do cyberpunk, onde infraestrutura, mídia e capitalismo se misturam até se tornarem indistinguíveis.
Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? (Philip K. Dick)
Menos neon e mais decadência existencial, mas fundamental para entender a atmosfera que depois moldaria Blade Runner.
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