Por que tantos protagonistas de ficção científica são pesquisadores?

Por que tantos protagonistas da ficção científica investigam o desconhecido em vez de simplesmente enfrentá-lo?

JUNE GARCIA

8/1/20263 min read

Uma coisa que comecei a notar depois de ler bastante ficção científica é que muitos protagonistas do gênero não parecem heróis no sentido tradicional da palavra. Eles não estão tentando salvar um reino, derrotar um vilão ou conquistar um território. Na maior parte do tempo, estão tentando entender alguma coisa.

Às vezes são cientistas, como acontece em muitas histórias de exploração espacial. Outras vezes são linguistas, matemáticos, psicólogos, arqueólogos, historiadores ou especialistas em áreas bastante específicas. O detalhe importante é que quase todos compartilham a mesma função narrativa: investigar um fenômeno que ainda não faz sentido.

Em Solaris, Kris Kelvin vai à estação espacial para lidar com um problema aparentemente científico, mas acaba preso em uma investigação sobre memória, consciência e percepção. Em História da Sua Vida, a protagonista não tenta derrotar os alienígenas, mas sim compreender sua linguagem. Em Encontro com Rama, a maior parte da tensão vem da tentativa de interpretar um objeto colossal cuja origem e propósito permanecem obscuros.

Até mesmo Fundação, que à primeira vista parece uma grande história política, nasce de uma pergunta de pesquisa: seria possível prever o comportamento de civilizações inteiras? Hari Seldon não é apresentado como um guerreiro ou um líder militar, mas como alguém que desenvolveu uma teoria para compreender padrões históricos em escala gigantesca.

Acho curioso comparar isso com a fantasia, que foi por onde comecei. Em muitos livros de fantasia, a história avança em direção a um objetivo concreto: destruir um artefato, derrotar um antagonista, impedir uma catástrofe ou cumprir uma profecia. Na ficção científica, o conflito principal não é “como vencer?”, mas “o que está acontecendo aqui?”.

Talvez isso aconteça porque a ficção científica frequentemente coloca o leitor diante de algo que ainda não compreende completamente. Pode ser uma tecnologia nova, uma forma de vida alienígena, uma organização social diferente ou até mesmo uma versão extrapolada de algo que já existe no nosso mundo. Em muitos casos, os personagens também estão tentando entender esse fenômeno, e é por isso que protagonistas com perfil de pesquisador funcionam tão bem: eles investigam o desconhecido ao mesmo tempo que apresentam suas regras ao leitor.

E tem outro ponto bem interessante: muitas vezes esses personagens descobrem que pesquisar não significa necessariamente compreender. Em Solaris, décadas de estudo não garantem entendimento. Em Encontro com Rama, a expedição consegue observar e catalogar, mas não estabelecer um verdadeiro contato. Já em História da Sua Vida, a compreensão só se torna possível porque a protagonista aceita mudar sua própria forma de perceber o tempo e a linguagem. A investigação produz conhecimento, mas também produz novas perguntas e, às vezes, transforma quem está investigando.

Isso também pode ter relação com quem escreve ficção científica. Muitos autores do gênero vieram de áreas de pesquisa ou de profissões ligadas à produção de conhecimento. Arthur C. Clarke trabalhou com engenharia e telecomunicações, Isaac Asimov era bioquímico, Stanisław Lem tinha formação em medicina, Ursula K. Le Guin dialogava profundamente com antropologia e sociologia, principalmente devido a sua influência familiar, entre outros. Assim, a formação de muitos autores de ficção científica em áreas ligadas à pesquisa ajuda a explicar por que tantos protagonistas do gênero se comportam menos como heróis tradicionais e mais como investigadores do desconhecido.

Pensando bem, acho que essa é uma das coisas que mais me aproximaram da ficção científica. Passei muitos anos lendo quase exclusivamente textos acadêmicos e meu retorno à ficção aconteceu pela fantasia. Mas Jules Verne já ocupava um lugar importante na minha história de leitura desde a infância, porque basicamente definiu a minha escolha do que cursar na faculdade. E foi essa lembrança que despertou a curiosidade de explorar mais ficção científica. De alguma forma, um livro que marcou minha infância acabou me levando de volta ao gênero que hoje ocupa um espaço tão importante nas minhas leituras.

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