Por que o primeiro contato quase nunca é um diálogo simples?
Antes de imaginar o diálogo com alienígenas, talvez seja preciso entender por que tantas vezes falhamos em compreender quem já vive ao nosso lado.
JUNE GARCIA
7/4/20262 min read


Meu pai é surdo e, desde cedo, aprendi que duas pessoas podem viver no mesmo país, frequentar os mesmos lugares e, ainda assim, experimentar o mundo de maneiras completamente diferentes. Apesar de ser uma língua oficialmente reconhecida, como a maioria das pessoas não sabe LIBRAS, situações cotidianas como uma ida ao médico, uma conversa em uma loja, um atendimento qualquer, muitas vezes se transformavam em pequenos exercícios de mediação. Desde muito nova, tive que assumir essa função.
Histórias de primeiro contato na ficção científica sempre me chamaram muita atenção. Elas quase nunca começam com uma conversa, mas sim com um estranhamento. Não por acaso, dois dos meus filmes de sci-fi preferidos são “A Chegada” e “Solaris”, do Tarkovski. E sei que estou super devendo assistir a “Stalker”, pretendo resolver isso depois de terminar a leitura de “Piquenique na Estrada”.
Quando pensamos em encontrar uma civilização extraterrestre, a imagem que costuma vir à cabeça é relativamente simples: alguém envia uma mensagem, alguém responde e, depois de alguns mal-entendidos iniciais, a comunicação acontece. Mas a maioria da literatura de ficção científica parece desconfiar profundamente dessa ideia.
Em “Piquenique na Estrada”, talvez nem exista um contato propriamente dito. Algo passou pela Terra, deixou vestígios e foi embora. O que resta é a tentativa humana de compreender algo que talvez nunca tenha se interessado em ser compreendido.
Em “Solaris”, os cientistas passam décadas estudando um oceano vivo sem sequer conseguir responder uma pergunta básica: estamos diante de uma inteligência? E, se estivermos, ela sequer pode ser entendida pelos nossos critérios?
Já em “História da Sua Vida”, que inspirou “A Chegada”, a comunicação só se torna possível porque a protagonista aceita aprender uma linguagem que muda sua própria forma de pensar. Ou seja, o contato só acontece depois de uma transformação.
Até mesmo em “Encontro com Rama”, onde a humanidade finalmente se depara com uma das maiores descobertas de sua história, a sensação predominante é de perplexidade. Há observação, investigação e fascínio, mas não existe um diálogo.
Pensando bem, talvez essas histórias sejam menos sobre alienígenas e mais sobre os limites da nossa própria compreensão.
Isso porque o primeiro contato nunca depende apenas de encontrar o outro. Ele também exige reconhecer que o outro pode perceber o mundo de uma maneira tão diferente da nossa que as palavras, os gestos e até as perguntas que fazemos deixam de ser suficientes.
Talvez seja por isso que tantas histórias de primeiro contato terminem em silêncio, incompreensão ou respostas incompletas. Não porque a comunicação seja impossível, mas porque entender alguém, seja um extraterrestre, um estrangeiro ou uma pessoa que habita o mesmo mundo de uma forma diferente da nossa, é um processo muito mais complexo do que simplesmente falar a mesma língua.
Depois de pensar nisso, dá pra entender por que essas histórias não são confortáveis para todo mundo. Nem todo mundo reage bem a esse tipo de incompreensão. O silêncio pode ser bem intimidador.
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