Por que o narrador se comporta como se eu já conhecesse aquele mundo?

Nem sempre a ficção científica explica o mundo onde a história acontece. Em vez disso, ela convida o leitor a habitá-lo até que o estranho deixe de parecer estranho.

JUNE GARCIA

7/18/20262 min read

Uma das primeiras coisas que me chamaram atenção na literatura de ficção científica acontece logo nas primeiras páginas. Você abre o livro e alguém menciona uma tecnologia que nunca existiu, uma instituição que ninguém explicou, uma guerra que você nunca ouviu falar ou um planeta com um nome completamente novo. E o narrador segue em frente como se tudo isso fosse perfeitamente normal.

Como eu vinha das leituras de fantasia, que costumam introduzir mais o universo, inclusive com mapas, eu achava que estava lendo errado. Voltava algumas páginas procurando a explicação que, supostamente, eu tinha deixado passar. Mas ela quase nunca estava lá.

Com o tempo, percebi que isso não era um acidente, mas sim uma escolha. Autores de ficção científica parecem confiar que o leitor vai aprender aquele universo da mesma forma que aprende o mundo real: vivendo dentro dele por algum tempo.

Ninguém nos explica o que é um semáforo, um elevador ou um imposto. Nós simplesmente crescemos cercados por essas coisas até que elas deixam de parecer estranhas. Muitos livros de ficção científica fazem exatamente isso. Em vez de interromper a narrativa para apresentar cada conceito, eles deixam que o significado apareça aos poucos, conforme acompanhamos os personagens.

Isso pode ser desconfortável no início, mas também produz uma sensação curiosa. Em vez de observar aquele universo de fora, começamos a fazer parte dele.

É claro que existem exceções. Alguns livros preferem explicar bastante antes de seguir adiante. Principalmente se você pegar algo escrito pelos pioneiros do gênero, como H. G. Wells e Jules Verne. Mas boa parte das leituras que mais marcaram a ficção científica, a partir da Golden Age, parece confiar justamente no caminho oposto.

Acho que um dos livros que mais me provocou essa sensação foi “O Cair da Noite”, de Isaac Asimov. Em vários momentos eu pensava: “Gente, é só acender a luz que o problema acaba”. Até perceber que a pergunta certa era outra: “Mas que luz?”. Naquele planeta, simplesmente não existia o conceito de iluminação artificial.

A mesma sensação aparece no início de “Fundação”, onde conceitos e instituições surgem como se o leitor já soubesse do que se trata. Você passa pelas primeiras páginas meio perdido. Depois que a estranheza passa, em vez de perguntar “o que é isso?”, você começa a perguntar “como isso funciona?”.

Curiosamente, minha leitura atual, “Nós” do Ievguêni Zamiátin, faz quase o movimento contrário. O protagonista escreve como se estivesse tentando apresentar sua sociedade a alguém de fora. Mas, à medida que a história avança, fica claro que ele também é prisioneiro da própria visão de mundo. Ele explica bastante, mas nem sempre consegue perceber aquilo que, para o leitor, salta aos olhos.

Como comecei minha jornada pela ficção científica lendo autores como Wells e Verne, demorei um pouco para me acostumar com essa mudança de abordagem. Quando passei para Asimov, Clarke, PKD, entre outros, muitas vezes me peguei pensando: “Será que estou lendo isso do jeito certo?”.

Mas agora eu só deixo o texto rolar, porque sei que uma hora a cabeça dá um start. Aquelas palavras estranhas deixam de parecer estranhas, os conceitos começam a se encaixar e você percebe que já está pensando naquele mundo como se sempre tivesse estado lá.

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