Por que o futuro muda dependendo de quem escreve?

Ao olhar para a ficção científica produzida fora do eixo americano e britânico, comecei a perceber que diferentes culturas não imaginam apenas outras histórias, mas também outros futuros, moldados pela experiência histórica, social e cultural de cada lugar.

JUNE GARCIA

8/15/20263 min read

Hoje mudei um pouco a proposta da coluna para trazer uma reflexão que venho tendo com base no meu projeto pessoal de mapear a ficção científica mundial.

Quando comecei a procurar ficção científica fora do eixo americano e britânico, esperava encontrar principalmente outras histórias. O que eu não esperava era encontrar outros futuros. Parece uma diferença pequena, mas não é.

Um autor pode colocar uma nave no espaço, imaginar o encontro com uma civilização extraterrestre ou criar uma tecnologia capaz de transformar completamente a sociedade. Nada disso determina qual história será contada a partir daí.

Durante boa parte do século XX, por exemplo, a exploração espacial ocupou um lugar enorme tanto na ficção científica americana quanto na soviética. Os dois países estavam construindo foguetes, disputando avanços científicos e olhando para fora da Terra. Seria razoável imaginar que suas literaturas produziriam futuros relativamente parecidos, mas não foi exatamente o que aconteceu.

A ficção científica americana moderna se consolidou em revistas como Amazing Stories e Astounding Science Fiction, onde ganharam força histórias sobre engenheiros, cientistas e exploradores enfrentando problemas que poderiam ser solucionados pela inteligência e pelo domínio técnico. Ao mesmo tempo, a ideia de uma nova fronteira, tão presente na história americana de expansão territorial, encontrou no espaço outros lugares a serem explorados, ocupados e transformados.

Do outro lado da Guerra Fria também havia foguetes, cientistas e uma confiança enorme na capacidade humana de transformar o mundo, mas a ficção científica soviética havia seguido outro caminho. A própria expressão nauchnaia fantastika aponta para uma tradição em que ciência, educação e imaginação estavam fortemente misturadas e, em diferentes momentos, esperava-se que essas histórias ajudassem a imaginar tanto o desenvolvimento científico quanto a sociedade que poderia surgir dele.

Nos livros dos irmãos Strugátski, o futuro pode ser tecnologicamente extraordinário sem que a tecnologia resolva aquilo que realmente importa. Em “Piquenique na Estrada”, por exemplo, a humanidade encontra objetos que parecem estar muito além de sua capacidade técnica. Ainda assim, os humanos recolhem restos, negociam artefatos, morrem tentando atravessar a Zona e continuam sem saber exatamente o que aconteceu ali.

Seria muito simples atribuirmos essas diferenças à divisão da Guerra Fria entre capitalismo e comunismo, mas a questão vai além: estamos falando também sobre como a experiência histórica e cultural dos autores ajuda a moldar a forma como imaginam ciência, sociedade, indivíduo e progresso.

A China deixa isso ainda mais evidente.

A ficção científica chinesa não começou com “O Problema dos Três Corpos”. No início do século XX, escritores e intelectuais chineses já discutiam o gênero em um momento em que ciência e modernização estavam profundamente ligadas à pergunta sobre o futuro do próprio país. Traduzir e escrever ficção científica podia fazer parte de um projeto muito concreto: imaginar como uma China considerada tecnologicamente atrasada diante das potências estrangeiras poderia se transformar.

Mais de um século depois, Liu Cixin escreve sobre civilizações inteiras, desenvolvimento tecnológico e sobrevivência em escalas gigantescas. Seria fácil olhar para isso e concluir que encontramos uma característica da “ficção científica chinesa”. Porém, basta ler outros autores chineses para a impressão começar a desmontar. Em vez das escalas cósmicas de Liu, há escritores interessados em cidades, desigualdade, trabalho, transformações sociais e nos efeitos muito concretos da modernização acelerada.

Essa diferença importa porque durante muito tempo a ficção científica que circulou internacionalmente com mais força foi justamente a produzida em inglês, especialmente nos Estados Unidos e no Reino Unido. Depois de ler muitas dessas histórias, algumas escolhas começam a parecer características naturais do gênero, quando na verdade também refletem os lugares onde elas foram produzidas.

Ler ficção científica de outros lugares também significa encontrar outras preocupações. Questões sobre território, desigualdade, dependência tecnológica, colonialismo ou relação com o meio ambiente ganham pesos diferentes para quem escreve a partir de países que ocupam outras posições na história e na economia mundial. Até uma ideia aparentemente simples como “progresso” pode significar coisas muito diferentes dependendo de quem se beneficiou dele e de quem pagou a conta.

Foi lendo ficção científica produzida fora dos lugares que eu já conhecia que comecei a prestar mais atenção nisso. Não porque exista uma maneira soviética, chinesa, brasileira ou americana de imaginar o amanhã, mas porque nenhum futuro é imaginado de lugar nenhum. Antes de dizer alguma coisa sobre o que ainda não existe, ele inevitavelmente carrega alguma coisa do mundo em que seu autor vive.

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