Por que o futuro está cheio de ruínas que ainda funcionam?

Talvez o futuro da ficção científica pareça tão antigo porque ele não é feito de invenções, mas de tudo aquilo que conseguiu continuar existindo.

JUNE GARCIA

6/6/20262 min read

Existe uma coisa curiosa na ficção científica: o futuro quase nunca parece novo.

Mesmo quando uma história se passa centenas de anos à frente, os prédios estão desgastados, os veículos acumulam remendos e as máquinas parecem funcionar graças a uma combinação de manutenção improvisada e teimosia.

É estranho porque, em teoria, o futuro deveria ser o lugar das novidades. Mas basta prestar atenção para perceber que boa parte da ficção científica costuma imaginar tecnologias envelhecidas ao invés de novas tecnologias.

Um dos exemplos mais fáceis de perceber talvez seja o do WALL-E. Séculos depois da humanidade deixar o planeta, ele ainda segue executando suas tarefas rotineiras. Quase como se o futuro fosse um lugar habitado por coisas que sobreviveram tempo demais. Muito mais tempo do que deveriam.

E se no mundo de WALL-E ele é o único que segue operando, em outros universos o que acontece é uma recriação dessas tecnologias, como vemos em Borderlands ou em Mad Max. Veículos, armas e equipamentos parecem ter sido desmontados, reaproveitados e reconstruídos tantas vezes que fica difícil imaginar como eram originalmente.

Talvez isso aconteça porque objetos novos dizem pouco sobre o mundo. Uma máquina recém-fabricada é apenas uma máquina. No entanto, uma máquina enferrujada, adaptada e consertada dezenas de vezes conta uma história.

Ela sugere que outras pessoas passaram por ali. Que aquele mundo tem um passado. Que o futuro não surgiu pronto, mas foi se acumulando ao longo do tempo.

Existe também uma ironia nisso. Quando pensamos no amanhã, costumamos imaginar inovação. Mas talvez pensar no desgaste faça muito mais sentido, porque a parte mais difícil de qualquer tecnologia não é ser criada. É continuar existindo.

Mas essa é apenas uma tentativa de pensar porque tantos futuros da ficção científica estão cheios de coisas velhas. Por falar nisso, um dos universos literários que mais apareceu quando comecei a pesquisar essa ideia de futuros que parecem antigos é o “A sombra do torturador” do Gene Wolfe.

Ainda não li, então não posso garantir nada. Mas vi bastante gente que associa o livro a essa ideia de um amanhã construído sobre camadas e camadas de passado. Me deixou bem curiosa, hein?

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