Para leitores com bagagem de ficção científica, Máquina de Guerra mal pode ser considerado sci-fi
Uma reflexão sobre o que realmente define o gênero: não a tecnologia que exibe, mas o desconforto que provoca.
REFLETINDO FICÇÃO CIENTÍFICA
5/12/20262 min read


Ficção científica é mais do que tecnologia
Quando nos aventuramos pelas páginas de uma boa ficção científica, percebemos que pouco importa se o carro do personagem é voador, se os robôs já chegaram ao cotidiano das pessoas, ou se a torneira tem LED e Wi-Fi. O que realmente importa é aquela cutucada mental que um bom autor de sci-fi consegue provocar.
O gênero nasceu para incomodar, para trazer questionamentos e só por último para entreter. A ficção científica é uma crítica com pano de fundo futurista.
A ficção científica brasileira já entendia isso em 1947
Em 1947, Jeronymo Monteiro publicou o que foi posteriormente chamado de a primeira ficção científica brasileira, ou pelo menos talvez a primeira: 3 Meses no Século 81.
O livro, tremendamente inspirado em H. G. Wells, especificamente na obra A Máquina do Tempo, descreve uma viagem a um futuro longínquo. Mas se você imagina que o autor descreveu máquinas tecnológicas, aceleração de partículas ou qualquer parafernália elétrica, está enganado, caro leitor.
Monteiro usou a narrativa de médiuns que poderiam levar a mente humana ao futuro. Isso mesmo, sem máquina. E mesmo assim, é uma tremenda ficção científica.
No livro, o personagem jornalista Campos viaja a um futuro onde a sociedade é tecnologicamente avançada, porém distópica: a humanidade teve a glândula do amor extirpada. A obra faz uma alegoria direta sobre amor, paz e poder, além de ser um soco no estômago sobre o controle governamental das grandes massas.
O verdadeiro papel da ficção científica
Isso é ficção científica. Não o assunto em específico, mas sim o poder de fazer o leitor fechar o livro e ficar pensando, refletindo sobre tudo que leu e trazendo aquilo para a sua própria realidade.
O recém-lançado Máquina de Guerra, disponível no streaming da Netflix, recebeu a categorização de ficção científica e eu, na minha pobre e humilde opinião, acredito que isso se deva apenas ao fato de haver uma máquina alienígena perseguindo soldados pela floresta.
Essa premissa pode ser caracterizada como sci-fi? Sim. É suficiente? Não.
A questão não é criticar ou diminuir a longa-metragem, que por sinal diverte e tem o seu propósito. A discussão é sobre como a ficção científica não precisa estar lotada de produtos, elementos e questões tecnológicas para ser importante. Basta fazer o leitor, ou espectador, pensar.
O que realmente importa ao escrever sci-fi
Então você, escritor, quando for escrever, não se preocupe tanto em inventar uma maçaneta holográfica que detecta o DNA do morador. Foque na mensagem que o seu livro quer passar.
E da mesma forma, leitor, não fique desapontado se uma obra de sci-fi não trouxer carros voadores ou naves espaciais. Aprecie a obra como ela é, e para o que ela foi criada.
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É um prazer ter você conosco nessa viagem espacial!
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