OPINIÃO: DIA D não é um filme sobre alienígena
O novo filme de Steven Spielberg usa o contato extraterrestre como ponto de partida para explorar uma questão muito mais intrigante: como a humanidade reagiria ao descobrir que não está sozinha no universo.
RESENHAS
Michael Douglas
6/17/20263 min read
Quando falamos de filmes sobre alienígenas, geralmente imaginamos invasões em larga escala, cidades sendo destruídas e a humanidade lutando pela própria sobrevivência. Não é uma associação injusta. Boa parte das obras mais populares do gênero construiu esse imaginário ao longo das décadas. Basta lembrar de Independence Day, de Roland Emmerich. Na trama o contato com uma inteligência extraterrestre desencadeia conflitos globais e coloca a existência humana em risco.
Mas quando Steven Spielberg decide abordar o tema, vale a pena prestar atenção em algo além da superfície.
Dia D, seu mais novo filme, usa a chegada de visitantes extraterrestres como ponto de partida para uma discussão muito mais ampla. A trama acompanha os acontecimentos que se desenrolam após um evento capaz de mudar para sempre a história da humanidade: a confirmação de que não estamos sozinhos no universo.
Embora os alienígenas estejam presentes na narrativa, eles raramente ocupam o centro das atenções. O verdadeiro interesse do filme está nas pessoas. Está nos governos tentando compreender o que fazer diante do desconhecido, nos cientistas buscando respostas, na imprensa tentando acompanhar acontecimentos sem precedentes e, principalmente, nos indivíduos comuns tentando encontrar algum sentido em uma realidade que mudou de uma hora para outra.
É justamente essa escolha que diferencia Dia D de tantas outras produções do gênero. Spielberg parece menos interessado em mostrar naves gigantescas pairando sobre cidades e mais interessado em observar como uma descoberta dessa magnitude afetaria nossas crenças, nossos medos e nossa visão sobre o lugar que ocupamos no cosmos.
O resultado é um filme que alterna momentos de grande espetáculo visual com sequências mais contemplativas, em que o silêncio e os diálogos carregam mais peso do que qualquer explosão. Nem todas as decisões do roteiro funcionam com a mesma força, mas quando o filme desacelera para refletir sobre suas ideias, ele encontra seus momentos mais interessantes.
Talvez por isso algumas pessoas saiam da sessão esperando algo diferente do que encontraram. Existe uma expectativa quase automática de que filmes sobre alienígenas precisem ser movidos por confrontos constantes e revelações grandiosas. A ficção científica, porém, sempre foi muito mais ampla do que isso.
Os melhores exemplos do gênero costumam usar conceitos extraordinários para falar de questões profundamente humanas. O contato com uma inteligência extraterrestre é apenas uma ferramenta para discutir medo, fé, identidade, pertencimento e a maneira como lidamos com aquilo que está além da nossa compreensão.
Basta olhar para Alien: O Oitavo Passageiro. Embora o xenomorfo seja uma das criaturas mais icônicas da cultura pop, o que torna o filme memorável não é apenas sua presença. É a sensação constante de vulnerabilidade, o isolamento e a paranoia que tomam conta da tripulação muito antes de o monstro aparecer em cena.
Dia D segue um caminho semelhante. Em vez de entregar respostas prontas, prefere deixar perguntas ecoando na cabeça do espectador. Algumas delas permanecem conosco mesmo depois dos créditos finais. Afinal, o que aconteceria se recebêssemos amanhã a confirmação de que existe vida inteligente além da Terra? Como governos reagiriam? Como religiões interpretariam essa descoberta? Como cada um de nós lidaria com a certeza de que a humanidade não ocupa um lugar exclusivo no universo?
São questões que o filme não tenta resolver completamente, e talvez seja justamente por isso que ele funcione tão bem.
Também ajuda o fato de Spielberg continuar demonstrando um domínio impressionante da linguagem cinematográfica. A fotografia é belíssima, os enquadramentos são cuidadosamente construídos e algumas sequências chamam atenção pela forma como mantêm a tensão sem depender de cortes frenéticos. O elenco acompanha esse nível de qualidade, entregando performances convincentes em uma história que exige mais introspecção do que heroísmo.
Dia D merece ser visto no cinema. Não apenas pela escala de suas imagens, mas porque é um daqueles filmes que ganham força na experiência coletiva da sala escura, quando cada revelação e cada silêncio parecem ocupar o espaço inteiro. É como se o silêncio do cinema, gritasse o que todos ali estavam sentindo.
Se eu pudesse dar uma única recomendação antes da sessão, seria esta: ajuste suas expectativas. Vá esperando um filme que quer provocar reflexão tanto quanto entretenimento. Um filme mais interessado em explorar as consequências de uma descoberta extraordinária do que em transformar essa descoberta em espetáculo. Porque, no fim das contas, as perguntas que ele levanta são muito mais interessantes do que qualquer resposta que poderia oferecer.
Contato
Somos apaixonados por ficção científica e gostamos de falar sobre ela de todas as formas possíveis. Com mais de 7 anos no ar no Instagram, e mais de 200 livros sobre o gênero lidos, estamos com a missão de propagar a ficção científica pelo planeta terra (e marte futuramente rs), além de fomentar a literatura da sci-fi nacional.
É um prazer ter você conosco nessa viagem espacial!
Email:
contato@umleitordescifi.com.br
© 2026. All rights reserved.
Quem somos nós?
Fale conosco para sugestões e parcerias
Comente essa publicação ou faça sua sugestão para melhorar o site:
@umleitordescifi
Instagram:
Receba no seu e-mail as novas publicações. Se inscreve.

