OPINIÃO: A ÚLTIMA CASA, lançamento da Netflix, é bom?

Uma chuva que aprisiona uma família dentro de casa acaba revelando uma história sobre sobrevivência, natureza e os mistérios que o filme deixa pelo caminho.

REFLETINDO FICÇÃO CIENTÍFICA

Michael Douglas

8/10/20263 min read

Quando pensamos em um filme da Netflix, por causa das inúmeras produções que claramente foram feitas para encher o catálogo sem muita profundidade, já esperamos o pior. E talvez isso seja o motivo desse filme ter surpreendido.

Na trama protagonizada por Wagner Moura e Greta Lee, acompanhamos uma família que fica presa dentro de casa. Uma chuva sinistra começa e todas as portas se trancam, janelas selam, e não adianta você tentar quebrar um vidro ou uma parede. A água da chuva te impede de sair.

Quando pensamos friamente nessa premissa, já nos interessamos, mas o filme faz questão de mostrar, nem que seja rápido, como estava a família (psicologicamente) antes de tudo começar.

O personagem Jason (Wagner Moura) é um engenheiro desempregado. Pai de dois filhos pequenos e esposo de Riley (Greta Lee), que, por sua vez, está tentando administrar o lar da melhor forma possível, com as crianças crescendo, as contas apertando e a casa literalmente desmoronando. A tensão pela sobrevivência já existia muito antes do confinamento misterioso começar.

A diferença é que, quando a sobrevivência é pela vida, todo o resto perde valor.

E isso foi uma das coisas que me impactou. Em um certo momento do filme, quando a família já estava confinada há alguns meses, o Natal chega. Naturalmente, não teve como a família ir ao shopping comprar o presente de Natal, por isso, cada um dá algo que representa o outro, e a família dar para a mãe (Riley) o primeiro tomatinho que ela plantou com as sementes de uma refeição é extremamente emocionante e com muito significado. Será que não seria melhor que fosse assim em todos os natais? Ao invés de sairmos nos endividando, às vezes comprando qualquer coisa que soe cara para presentear um ente querido, não poderíamos parar, pensar e dar algo que realmente signifique algo, mesmo que isso não valha 10 reais?

O filme tem uma tensão frequente durante todo o filme. Não vou mentir, eu, que durmo em quase todos os filmes, nesse eu terminei totalmente tensionado, aceso e voltando algumas cenas para rever. Ou seja, a tensão funciona para manter o público preso no filme. E só por isso já seria recomendável assistir.

E sabe o que mais eu tenho pra falar sobre isso? Eu não peguei o celular uma única vez durante o filme.

Você sabe o que isso significa.

A resolução do filme é uma coisa a ser discutida, porque, ao mesmo tempo que eu achei satisfatório, eu achei que foi rápido demais.

(a partir daqui tem spoiler)

No início do filme, a criança diz que viu algo lá na chuva, e parece para o telespectador que é algo com silhueta humana, mas feita de água. E, no decorrer do filme, isso é totalmente ignorado e mostram-se apenas os monstros cheios de tentáculos que, por várias vezes, entram nas casas. E mais, quando a menininha observa aquela criatura, ela diz que ela é diferente, que não é má igual aos outros. E os desenhos? A criança literalmente mostra que são pessoas feitas da chuva. Mas então, cadê elas?

No fim, o filme resolve com um ato de misericórdia. O monstro "polvico" que caçou a família até aquele momento, por não ser morto, tem um ato de misericórdia, libera eles da casa, de certa forma salva eles porque a casa está ruindo, e avisa aos outros que fossem embora.

E pronto.

Isso me lembrou o livro Invasores de Corpos, do Jack Finney, onde os personagens lutam contra seres fantásticos o livro todo e, no final, eles simplesmente vão embora. E isso é totalmente anticlimax.

Será que a mensagem era para que tenhamos mais empatia com a natureza? Ou que nos oceanos existem vidas que ainda não conhecemos? Que, um dia, a vida animal poderia tomar o controle da Terra novamente?

Iniciando com a frase de Arthur C. Clarke, onde fala que seria um erro chamar o planeta de Terra quando a maioria é água, o filme já entrega que a mensagem é ecológica, e que o terror vem do mar. Mas que animal seria capaz de controlar a água da chuva assim? A ponto de ela trancar todos dentro das casas e consertar trincos de vidros?

É um filme ótimo, que vale a pena ser assistido em um sábado acompanhado de uma pizza (foi assim aqui em casa), tem uma produção fantástica e uma interpretação fenomenal do nosso brasileiro Wagner Moura, e naturalmente não é perfeito, porque tem suas falhas de roteiro nesse sentido.

Mas, com certeza, vale a pena assistir.

Já assistiram? Comenta aqui o que acharam.

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