O quanto as redes sociais mudam quem somos? Thais Nunes leva a questão para a ficção científica

Entre vícios, exposição constante e a banalização do absurdo, Sala 22, de Thais Nunes, usa a ficção científica para discutir até que ponto as redes sociais podem transformar a maneira como nos relacionamos com o mundo e com nós mesmos.

REFLETINDO FICÇÃO CIENTÍFICA

Michael Douglas

9/19/20263 min read

Para quem nasceu a partir de 1995, a adolescência já aconteceu em meio às redes sociais. Orkut, MySpace, Ask.fm ou o famoso MSN.

É verdade que, já naquela época, existiam problemas que ainda persistem nas redes online. Pessoas de má índole usando uma máscara digital para praticar seus crimes, vício e, por que não, os perigos dos golpes financeiros.

Mas algo mudou nos últimos 20 anos.

A internet agora está no seu bolso, no computador portátil, no tablet do seu filho e até no seu relógio inteligente, que você usa para tudo, menos para ver as horas.

E isso traz uma coisa perigosa: o conforto de estar sempre conectado.

Eu cresci usando Orkut e MSN. Mas, como não tinha internet "ADSL", como chamavam antigamente os provedores de internet ilimitada, eu esperava os finais de semana ou as madrugadas para acessar a internet discada. Durante todo o intervalo entre um acesso e outro, muita coisa acontecia. A gente literalmente saía da internet.

Hoje, tudo é feito na internet.

Trabalho, estudo, entretenimento e, etc. Tudo está a um toque do Instagram, WhatsApp ou X. Ninguém mais está realmente desconectado. E isso transforma completamente a forma como enxergamos as redes sociais da década de 2000 em comparação com as de hoje.

Ou você existe nas redes, ou não existe. São raras as pessoas que conseguem se desligar verdadeiramente. Entrar no Instagram virou uma espécie de cigarro, bebida ou qualquer outra coisa que provoque vício e que, ao menor sinal de tédio, é requisitada.

Mas sabe o que não mudou? A humanidade.

Aquelas pessoas mal-intencionadas, sem caráter e com opiniões erráticas continuam nas redes e, agora, mais presentes do que nunca nas nossas vidas. Aos poucos, vamos nos acostumando com absurdos que, até 20 anos atrás, talvez fossem coisas de filmes.

Quando falamos que estamos vivendo um "Black Mirror", não é exagero.

Esses dias, eu me deparei com uma notícia sobre uma pessoa pública que tinha o apelido de "Batata" e que morreu soterrada pelo legume de mesmo nome. Ao abrir os comentários, pude perceber que uma notícia que deveria ser triste, ou pelo menos tratada com respeito, gerou uma leva de comentários sarcásticos e jocosos.

As pessoas esquecem que existe outra pessoa do outro lado da tela.

E isso foi extremamente bem abordado no livro Sala 22, da autora nacional Thais Nunes.

Conhecida por sua voz que desperta criticidade sobre tudo, Thais escreve agora uma trama que viaja entre o absurdo, o fantástico e a ficção científica. Nela, Rute sai de sua cidade natal, no interior, para ir à cidade grande estudar Direito. Sem conhecer ninguém e sem um tostão no bolso, ela procura uma forma de ganhar dinheiro para sobreviver.

Só nessa parte, eu já pude perceber inúmeras críticas sociais sobre como a desigualdade pode destruir a vida de uma pessoa, sobretudo de uma mulher sozinha.

Sem opção, Rute aceita entrar em um grupo que garante que irá torná-la membro remunerado da Sala 22. Uma espécie de culto tecnológico que, para ser acessado, exige que seus participantes passem por ritos macabros. E o pior: tudo isso é encarado com naturalidade nas redes sociais da faculdade.

Sala 22 é um livro que você termina com vontade de jogar o celular na parede, desligar a TV e ir viver no meio do mato.

Rute, uma garota até então tímida e ética, é transformada diante dos nossos olhos durante a leitura, e isso é desesperador. Até que ponto ela iria para se enquadrar naquela sociedade doente, que usava as redes sociais para praticar os atos mais impensáveis da humanidade?

Com um pouco mais de páginas, eu acho que excluiria minha rede social.

Obrigado mais uma vez, Thais, por fazer minha mente pensar além do que eu estava acostumado.

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