O duplipensar de Orwell na nossa realidade.

Será que chegamos na era onde pensar por si mesmo é um ato de rebeldia?

REFLETINDO FICÇÃO CIENTÍFICA

Michael Douglas

5/22/20263 min read

É dificil sermos um só, termos apenas uma versão frente ao próprio reflexo. Já dizia Raul Seixas, com a música Metamorfose Ambulante. Agora, quem dirá frente a milhares de reflexos, comparações e inundações de opiniões alheias sobre exatamente tudo, mantermos nossa mente em uma única direção.

O senso crítico terceirizado

Se você é uma pessoa que consome críticas ou análises online, como ironicamente fazemos nesse site, já passou pela situação de assistir um episódio daquela sua série favorita, gostar em um primeiro momento e, quando assiste à análise daquele youtuber querido, onde ele aponta inúmeros defeitos na produção, começa a pensar: “verdade, não tinha percebido isso”. E mais, começa a se questionar se seu senso crítico está ativo, porque afinal, você não percebeu aquela falha grotesca, até então ínfima, na narrativa do roteiro.

É quase como se terceirizássemos nossas próprias interpretações. Primeiro sentimos. Depois esperamos alguém nos dizer o que deveríamos ter sentido.

O Duplipensar de Orwell

George Orwell, em seu famoso livro 1984, chamava isso de Duplipensar. O ato de pensarmos duplamente, quase sempre um pensamento anulando categoricamente o outro, é como não acreditar em alienígenas mas, ao mesmo tempo, ter medo deles.

Na trama, o governo totalitário decidia, através da narrativa e do medo, no que o povo deveria acreditar. Por exemplo, se o governo dissesse que 2 + 2 era igual a 5, mesmo sabendo que a resposta certa seria 4, você acreditaria que de fato é 5. A verdade é relativa em um mundo onde a narrativa tem poder de controlar o que é fato e o que é inventado. Parece familiar?

A ficção científica sempre gostou dessa ideia. Mundos onde a realidade é moldada pela propaganda, pela mídia ou pela tecnologia aparecem o tempo todo no gênero. Em Snow Crash, por exemplo, existir socialmente depende da conexão com o mundo virtual. Em Matrix, a própria realidade é uma ilusão construída para manter as pessoas sob controle. O mais assustador talvez seja perceber que hoje não precisamos de máquinas dominando o planeta. Muitas vezes basta um algoritmo escolhendo o que vemos.

A narrativa acima da realidade

Hoje, com as redes sociais, o poder está na narrativa. Você pode achar um país incrível apenas pela imagem que o governo tenta passar pelas redes sociais, querer visitá-lo, mas quando chega lá vê que não é bem o que pintaram. Isso também acontece ao contrário. Você pode achar que algo é péssimo mas, quando prova com sua própria mente, vê que não é bem assim.

A sensação é que estamos constantemente vivendo versões editadas da realidade. Trailers de vidas perfeitas. Opiniões prontas. Revoltas coletivas que duram uma semana até serem substituídas pela próxima tendência do feed.

A mente coletiva digital

Pensar por si só hoje é um desafio enorme. Veja bem, não estou querendo dizer que não devemos mudar de opinião, evoluir ou trabalhar a neuroplasticidade do nosso cérebro. Isso é recomendável se quisermos continuar como humanidade nessa bolota azul que chamamos de Terra. Mas o ponto é que pensar de uma forma singular hoje é praticamente impossível. A menos que você seja uma pessoa analógica, o que é difícil hoje em dia.

Às vezes penso que nós é que somos uma inteligência artificial. Uma grande colmeia, todos pensando da mesma forma, odiando A ou B, falando dos mesmos assuntos. Inclusive lembro, e vale a citação, do livro Colmeia, do autor nacional Maikel Rosa. Sério, confere essa indicação que vale muito a pena.

Pensar sozinho virou rebeldia?

A ficção científica desde sempre busca trabalhar esse movimento que percorre séculos e décadas, que é o desenvolvimento mental da sociedade. O desenvolvimento do que chamamos de sociedade.

Talvez o cyberpunk não tenha chegado na forma de carros voadores ou megacorporações neon iluminando cidades chuvosas. Talvez ele tenha chegado silenciosamente através da disputa constante pela nossa percepção da realidade.

Será que chegamos na era onde pensar por si mesmo é um ato de rebeldia?