O Dia das Trífides: por que esse clássico ainda impressiona? Eu terminei a leitura e vim contar

John Wyndham usou plantas assassinas para contar uma história que, no fundo, nunca foi sobre monstros. Foi sobre como nós reagimos quando a sociedade deixa de existir.

RESENHAS

Michael Douglas

7/20/20264 min read

Quando comecei O Dia das Trífides, imaginei que encontraria um romance de sobrevivência centrado em plantas carnívoras ambulantes. Afinal, essa costuma ser a imagem mais conhecida do livro. No entanto, conforme a leitura avançava, fui percebendo que as trífides são muito menos importantes do que parecem. Elas representam a ameaça constante, claro, mas nunca são o verdadeiro assunto da narrativa. Aos poucos ficou evidente para mim que John Wyndham estava interessado em algo muito maior: entender como uma sociedade reage quando tudo aquilo que parecia sólido desaparece praticamente de uma noite para a outra.

A premissa é simples e continua extremamente eficaz, mesmo mais de setenta anos depois. Uma misteriosa chuva de luzes verdes cruza o céu e desperta a curiosidade do planeta inteiro. Como se trata de um fenômeno único, milhões de pessoas saem de casa para observar o espetáculo. Na manhã seguinte, quase todas elas descobrem que perderam completamente a visão. O protagonista, Bill Masen, escapa desse destino apenas porque estava internado em um hospital, recuperando-se de uma cirurgia nos olhos. Quando finalmente retira as bandagens, encontra um mundo irreconhecível. As ruas estão silenciosas, as pessoas caminham desnorteadas e toda a estrutura que mantinha a sociedade funcionando simplesmente entrou em colapso.

Como se a cegueira coletiva já não fosse suficiente, plantas conhecidas como trífides passam a dominar o cenário. Elas conseguem se locomover, possuem um ferrão venenoso e rapidamente se tornam uma ameaça para uma humanidade que já não consegue sequer enxergar o perigo se aproximando. É uma ideia fantástica e que, sem dúvida, chama a atenção logo nas primeiras páginas. Ainda assim, terminei o livro com a sensação de que elas funcionam muito mais como um catalisador da história do que como seu elemento principal. O desastre poderia ter sido provocado por qualquer outra coisa. O que realmente interessa a Wyndham é observar o comportamento das pessoas diante desse novo mundo.

Uma das decisões narrativas que mais gostei foi justamente aquilo que o autor escolhe não explicar. Hoje estamos acostumados com histórias que fazem questão de apresentar uma justificativa científica para cada acontecimento extraordinário. Queremos saber a origem do vírus, do alienígena, da criatura ou da tecnologia. Em O Dia das Trífides, existem algumas sugestões sobre a origem das plantas e até hipóteses para explicar o fenômeno que cegou a humanidade, mas nenhuma delas recebe um desenvolvimento definitivo. Em vez de gastar páginas tentando convencer o leitor da plausibilidade científica do desastre, Wyndham concentra seus esforços em responder perguntas muito mais interessantes. O que acontece quando ninguém mais consegue produzir alimentos? Quem assume a liderança? Quem escolhe ajudar o próximo? Quem decide explorar aqueles que agora se tornaram completamente vulneráveis?

Foi justamente nesse ponto que o romance mais me conquistou. Ao longo da jornada de Bill Masen, encontramos personagens que representam diferentes formas de enfrentar o colapso da civilização. Alguns tentam preservar valores, construir comunidades e dividir recursos. Outros enxergam naquele caos uma oportunidade para acumular poder e controlar pessoas que perderam toda a autonomia. Em nenhum momento senti que o autor queria oferecer respostas fáceis ou transformar seus personagens em heróis impecáveis. Pelo contrário. A impressão é de que ele está constantemente perguntando ao leitor qual seria sua própria reação caso tudo aquilo realmente acontecesse.

Essa abordagem faz ainda mais sentido quando olhamos para o contexto em que o livro foi escrito. O Dia das Trífides foi publicado em 1951, poucos anos após o fim da Segunda Guerra Mundial e em um momento em que o mundo começava a viver as tensões da Guerra Fria. John Wyndham, que havia publicado diversas histórias em revistas pulp utilizando outros pseudônimos antes de consolidar sua carreira, também serviu o exército britânico durante a guerra. É difícil não enxergar nesses acontecimentos uma influência sobre sua obra. Embora o romance nunca fale diretamente sobre bombas nucleares ou conflitos militares, existe uma sensação permanente de fragilidade. Basta um único acontecimento extraordinário para que hospitais deixem de funcionar, cidades parem, governos desapareçam e toda a organização social construída durante séculos simplesmente deixe de existir.

Talvez por isso o livro continue parecendo tão atual. Vivemos uma época em que frequentemente discutimos pandemias, mudanças climáticas, inteligência artificial, crises energéticas e outros possíveis fatores capazes de alterar profundamente nossa sociedade. O cenário mudou, mas a pergunta continua sendo exatamente a mesma feita por Wyndham há mais de sete décadas: quando todas as estruturas desaparecem, o que resta das pessoas? Continuamos cooperando ou passamos a agir apenas em benefício próprio? A civilização existe porque somos naturalmente colaborativos ou porque as circunstâncias nos obrigam a isso?

Também me chamou atenção o tom da narrativa. Quem espera um thriller acelerado talvez estranhe o ritmo mais contemplativo da obra. Existem momentos de tensão, perseguições e mortes, mas eles nunca parecem ser o foco principal. O romance frequentemente desacelera para discutir organização social, moralidade, responsabilidade e sobrevivência. Em vários momentos senti que estava menos diante de uma história de monstros e mais diante de um estudo sobre comportamento humano. As trífides permanecem ali, lembrando constantemente que o perigo existe, mas a verdadeira ameaça parece nascer das escolhas que os próprios sobreviventes fazem.

Não é difícil entender por que tantas pessoas consideram O Dia das Trífides um dos grandes clássicos da ficção científica. Muito antes de as histórias de zumbis popularizarem cidades abandonadas, pequenos grupos de sobreviventes e sociedades tentando recomeçar, John Wyndham já explorava muitos desses elementos. Mas reduzir sua importância apenas à influência que exerceu sobre outras obras seria uma injustiça. O que torna esse livro memorável não é o fato de ter apresentado ideias pioneiras, e sim a maneira como utiliza uma situação completamente absurda para investigar algo profundamente humano.

No fim da leitura, percebi que quase deixei de pensar nas plantas. O que permaneceu comigo foram as perguntas que o livro faz. Talvez seja exatamente essa a força da boa ficção científica. Não prever o futuro com precisão, nem explicar todos os seus mistérios, mas criar cenários extremos capazes de revelar quem realmente somos quando tudo aquilo que chamamos de civilização deixa de existir.

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