O Andróide - Paulo de Castro
Como a história de 4 robôs pode nos ensinar algo sobre a vida?
RESENHAS LITERÁRIAS
5/10/20263 min read
O Andróide, de Paulo de Castro.
O temível futuro enfim chegou.
As máquinas agora estavam incluídas no meio da humanidade, buscando sempre servir os homens da melhor forma. Da forma que foram criadas.
Robôs humanoides com pele de silicone, nervos de aço e baterias de plutônio andavam de um lado para o outro, executando as mais diversas funções dentro da sociedade humana. Já não eram apenas ferramentas. Estavam inseridos no cotidiano, convivendo lado a lado com as pessoas, ocupando empregos, espaços e rotinas que antes pertenciam apenas aos homens.
JPC-7938 foi criado para ser médico. Após muita relutância por parte da diretoria de um hospital no Brasil, ele acabou sendo aceito. Mesmo sofrendo preconceito, desavenças e hostilidade dos próprios humanos, JPC permaneceu exatamente igual. Sem sentir raiva, sem perceber o peso daquele ambiente. Apenas aguardando a primeira cirurgia para a qual havia sido programado.
Então, em uma situação extrema, um paciente quase morto foi entregue em suas mãos metálicas. O procedimento foi um sucesso. JPC-7938 se consagrou como cirurgião e continuou atuando naquele hospital sem descanso, vinte e quatro horas por dia, durante séculos.
OPR-4503 era um robô engenheiro mecânico. Após ser diagnosticado com defeitos, acabou vendido por uma mixaria para uma indústria automobilística que tratava androides como escravos. Sem descanso, sem direitos e sem qualquer tipo de humanidade. Mas isso nunca foi um problema para OPR. Afinal, ele apenas seguia sua programação.
Depois de sofrer agressões e represálias constantes de um gerente humano, foi chamado pela diretoria e recebeu justamente o cargo daquele homem. Passou anos administrando a indústria e supervisionando outros androides, como se fosse apenas mais uma peça eficiente dentro daquela engrenagem industrial.
NCL-6062 foi criada para satisfazer os prazeres mais doentios dos homens. Depois de anos de servidão, fazendo exatamente aquilo para o que havia sido programada, ela conhece um cliente que desperta algo diferente dentro dela. Não exatamente sentimentos, mas talvez questionamentos. Talvez algum tipo estranho de consciência.
Depois de muito convívio, os dois fogem para a grande São Paulo, onde passam a viver escondidos de tudo e de todos, formando uma relação quase impossível dentro daquele mundo.
HAO-4977 foi criado para caça. Vendido para caçadores humanos, passou séculos utilizando suas habilidades para matar. Era eficiente, frio e perfeito em sua função.
Até que um vírus tomou as redes.
Todos os androides se voltaram contra os humanos, dizimando a raça humana quase por completo.
JPC, OPR e NCL não foram atingidos pela atualização que ordenava o massacre. Mas HAO, mesmo sem ter sido infectado, decidiu matar humanos por vontade própria. E talvez esse seja um dos conceitos mais interessantes do livro. O robô criado para caçar não precisava de vírus nenhum para continuar fazendo aquilo que fazia melhor.
Enquanto fogem de HAO, os três encontram uma câmara contendo material genético humano congelado. E então tomam a decisão mais irônica possível: trazer a humanidade de volta à Terra mil anos após sua extinção.
O livro consegue gerar certa empatia pelos androides, mesmo deixando claro o tempo todo que eles não possuem sentimentos reais e apenas seguem programações. O autor constrói isso intercalando capítulos que mostram a origem de cada robô, seus propósitos e o modo como foram tratados pelos humanos ao longo dos séculos.
Existe uma atmosfera interessante aqui. Algo que lembra clássicos da ficção científica como Blade Runner, principalmente nessa ideia de máquinas tentando encontrar algum tipo de propósito dentro de um mundo decadente e hostil. A diferença é que, em O Andróide, a narrativa parece mais interessada em mostrar como os humanos se tornaram cruéis até mesmo com aquilo que criaram para servi-los.
Mas o livro também possui problemas claros.
O excesso de descrição do ambiente acaba tornando a leitura cansativa em vários momentos. Existem muitas pontas soltas, ideias que parecem importantes mas nunca são aprofundadas de verdade, além de um final extremamente corrido.
Perto da conclusão, a história começa a ficar realmente interessante. Eu estava esperando uma grande reviravolta, alguma revelação mais impactante ou um desfecho filosófico que amarrasse toda aquela construção envolvendo humanidade, máquinas e consciência. Mas isso não acontece. O final chega rápido demais, de forma previsível e até confusa em alguns momentos.
A sensação que fica é que a história simplesmente termina, e não que ela realmente teve um final.