Neill Blomkamp: um amigo, robôs e segregação

Uma reflexão sobre como a experiência de Neill Blomkamp sob o apartheid atravessa seus filmes de ficção científica, da segregação social de Distrito 9 à divisão entre a Terra e Elysium, até chegar à polêmica de Nightborne, seu curta produzido com inteligência artificial.

RAFAEL K. SINHORILIO

10/13/20265 min read

Refletia por estes dias sobre como livros, filmes e séries de sci-fi criadas fora do eixo Europa-América focam na segregação racial ou ao menos dão mais peso a ela. Mas me veio à cabeça que o branquelo Neill Blomkamp (um dos meus diretores favoritos) também leva essa temática como algo fundamental em sua carreira, e me bateu a curiosidade. Dei um Ok Google e descobri que ele cresceu sob o apartheid. Apesar de naturalizado canadense, o cara é de Joanesburgo, na África do Sul.

Logo, liguei muita coisa que vi nos seus filmes a este momento da sua vida. Pra crítica, ter vivido sob este regime segregacionista teve forte influência sobre sua obra e visão de mundo.

Ele não começou dirigindo, mas da adolescência à sua formação já teve um pezinho no cinema estudando e trabalhando com efeitos visuais.

Se formou na, nada mais, nada menos, Vancouver Film School. Mais tarde trabalhou como animador 3D em séries como Stargate SG-1, até ser o animador 3D principal de 3000 Milhas para o Inferno (2001).

Depois de uma fase em comerciais e curtas, inclusive os teasers live-action do curta Halo: Landfall, foi chamado pelo próprio Peter Jackson (só isso, eu infartaria) para dirigir o filme Halo. Não deu certo: o financiamento do projeto furou e a relação com o estúdio, a 20th Century Fox, desandou ainda na pré-produção.

Mas o Peter não largou o pupilo e resolveu produzir outra ideia dele, a versão longa do curta Alive in Joburg, e parte dos designs criados para o próprio Halo foi aproveitada. E aí sua carreira deslancharia com Distrito 9, com direito a cerca de 210 milhões de dólares de bilheteria e quatro indicações ao Oscar.

Isso é um pouquinho da vida desse diretor, animador e roteirista. Mas como o papo aqui é sci-fi, vamos ao que interessa: seus filmes do gênero.

Os filmes

Distrito 9 (2009), TriStar Pictures

Em 1982, uma nave alienígena para sobre Joanesburgo e fica ali flutuando. Os tripulantes, desnutridos e sem liderança, são confinados num campo improvisado, o Distrito 9, que em quase três décadas vira uma favela cercada. Quando a MNU, uma corporação armada contratada pelo governo, inicia o despejo dos aliens para um campo mais distante, o funcionário encarregado da operação, Wikus van de Merwe (Sharlto Copley, guarda este nome), é exposto a um fluido alienígena e começa a se transformar. De repente, o homem que comandava a remoção vira o alvo mais valioso da empresa. Tem uma pegada The Office que é um tempero ótimo.

Esse talvez seja o filme que mais reflete a vivência dele com o apartheid. E a inspiração vem da vida real: no curta que deu origem ao filme, Alive in Joburg, parte das entrevistas é verdadeira, com moradores de Joanesburgo falando de imigrantes do Zimbábue e da Nigéria, remontadas como se fossem sobre alienígenas. Muita gente também vê no título uma referência ao District Six, bairro da Cidade do Cabo esvaziado à força durante o apartheid. Ah, e Distrito 10 é aguardado pelos fãs há anos: o roteiro está em desenvolvimento desde 2021, mas o filme nunca saiu do papel.

Porra, bora agilizar isso aí, Neill?

Elysium (2013), TriStar Pictures

Em 2154, os ricos vivem em Elysium, uma estação orbital luxuosa onde máquinas curam qualquer doença em segundos. Na Terra superpovoada e arruinada se sobrevive como dá. Max (Matt Damon), ex-ladrão de carros que trabalha numa fábrica, sofre um acidente que o deixa com cinco dias de vida. Sua única chance é chegar a Elysium. Para isso, aceita um serviço perigoso: tem um exoesqueleto parafusado ao corpo e passa a ser caçado por Kruger (Sharlto Copley, lembra?), um mercenário a serviço da secretária de Defesa da estação (Jodie Foster). No elenco, dois brasileiros: Wagner Moura e Alice Braga (que orgulho).

Aqui a segregação é tão grande que vai além do Muro de Berlim ou de qualquer fronteira: o que separa os humanos que se enxergam como a nata da sociedade do resto da humanidade é a distância entre a Terra e a órbita.

Chappie (2015), Columbia Pictures

Num futuro próximo, Joanesburgo combate o crime com uma força policial de robôs. O engenheiro que os criou, Deon (Dev Patel), desenvolve em segredo uma I.A. capaz de pensar e sentir, e a instala num robô policial que seria descartado. Antes de testá-la, ele é sequestrado por uma dupla de criminosos da periferia que fica com o robô para usá-lo num assalto. Chappie (Copley, pode pedir música no Fantástico já) desperta como uma criança e aprende o mundo com os bandidos que agora cuidam dele como um filho, enquanto um engenheiro rival (Hugh Jackman) trabalha para destruí-lo.

Aqui a segregação parece não existir, mas está ali: é a realidade dos bairros periféricos, parecida com a que a gente vive no Brasil.

Outros filmes

Ele também se aventura por outros gêneros, com o terror Demonic (2021) e o drama esportivo Gran Turismo (2023), baseado na história real de um gamer que virou piloto.

Menção honrosa: Oats Studios

Em 2017, Blomkamp criou o próprio estúdio para fazer o que Hollywood não deixava. O Oats Studios produziu curtas experimentais de sci-fi e terror, distribuídos no Steam e lançados de graça no YouTube, para testar quais ideias o público queria ver virar longa. O Volume 1 tem Rakka, uma invasão alienígena com Sigourney Weaver, além de Firebase, Zygote, God: Serengeti, God: City, ADAM: The Mirror e a série cômica Cooking with Bill. Se você curte Black Mirror, Love, Death & Robots e a estética Blomkamp, é o melhor lugar para continuar. E se nunca viu nada dele, talvez seja o melhor lugar para começar.

Curiosidades

O amigo

Tim Burton e Johnny Depp. Scorsese e De Niro. Lanthimos e Emma Stone. Nolan e Cillian Murphy.

Todo diretor tem um ator-fetiche.

O de Blomkamp é o amigo que lhe emprestou os computadores, o cara que apareceu nos seus três longas de sci-fi.

Os dois se conheceram quando Neill tinha 16 anos. Copley tinha uma produtora, a Deadtime, e deixou o garoto usar os computadores para aprender animação 3D. Em troca, Neill fazia as artes 3D dos projetos que o amigo tentava vender. Anos depois, Copley produziu e atuou no curta Alive in Joburg, que virou Distrito 9, e ali ganhou o papel principal sem nunca ter atuado profissionalmente num longa.

Depois veio o vilão Kruger em Elysium e a voz e os movimentos de Chappie. De amigo que emprestou o computador ao rosto de todos os filmes que você viu até aqui.

Nightborne

Em julho de 2026, Blomkamp lançou Nightborne, um curta de 13 minutos feito inteiro com inteligência artificial. Baseado em Echopraxia, livro de Peter Watts, o filme foi feito com a ferramenta Seedance 2.0: cada quadro foi gerado por IA, com ele dirigindo as cenas por comandos de texto. Teve pessoas reais envolvidas, sim: artistas conceituais criaram os designs, e os personagens usam rostos e vozes cedidos por outras 32.

Ele chamou o curta de primeiro teste e disse que quer fazer um longa inteiro assim. A recepção foi bem negativa, e muita gente viu ali um abandono do ofício que fez Distrito 9. Ou seria a evolução de quem sempre trabalhou com efeitos visuais e animações 3D?

Assista a Nightborne: https://www.youtube.com/watch?v=8Wbtt2JxP7g&t=5s

E você, assistiria a um longa dele feito por IA?

Fica a pergunta.

Por hoje é isso, galera, até o futuro.

Fontes

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