Memórias Manipuladas e humanidade fragmentada: L. A. Mafra mergulha na essência da ficção científica em Chimaeris
Conversamos com L. A. Mafra, autora brasileira que fala sobre bioengenharia, identidade e os limites éticos da ciência em em seu lançamento sci-fi sombrio e emocional
REFLETINDO FICÇÃO CIENTÍFICA
Michael Douglas
5/27/20264 min read
A ficção científica sempre foi um terreno fértil para questionar o futuro da humanidade. Independente do assunto abordado, o gênero segue sendo uma das formas mais poderosas de refletir sobre o presente, mesmo que fale sobre o futuro, ou aborde temas emocionais. E é nesse espaço entre avanço científico e colapso emocional que nasce ''Chimaeris, entre sangue e memórias'', novo livro da autora nacional L. A. Mafra.
Em entrevista ao nosso portal, L. A. Mafra falou sobre as inspirações científicas por trás da narrativa, os dilemas filosóficos que movem seus personagens e o papel da ficção científica em um mundo cada vez mais dominado pela tecnologia.
O que sobra quando as emoções humanas são retiradas?
Segundo a autora, a ideia central de Chimaeris surgiu de uma pergunta inquietante: “O que sobra da humanidade quando memórias, emoções e identidade podem ser manipuladas?”
“Eu sempre me interessei por histórias que exploram o limite entre o humano e o artificial”, explica Mafra. “Especialmente quando a tecnologia deixa de ser apenas uma ferramenta e passa a moldar quem somos.”
A partir dessa provocação, nasceu um universo onde ciência, poder e trauma coexistem em uma sociedade tecnologicamente avançada, mas emocionalmente em ruínas. A autora também buscou desconstruir a figura tradicional do protagonista idealizado.
“Eu queria criar um personagem distante daquele herói perfeito. Alguém marcado, quebrado, que carrega consequências reais.”
Neurociência, transumanismo e os perigos da evolução sem ética
As influências de Chimaeris passam por conceitos científicos bastante atuais. Manipulação de memória, bioengenharia, condicionamento psicológico e interfaces neurais fazem parte da espinha dorsal da narrativa.
L. Mafra revela que grande parte da ciência presente no livro nasce de pesquisas reais sobre genética e funcionamento cerebral.
“Existe liberdade criativa, claro, mas eu gosto da ideia de plausibilidade”, afirma. “Quero que o leitor sinta que aquilo poderia deixar de ser ficção em algum momento.”
Além do aspecto científico, o livro mergulha em discussões filosóficas sobre livre-arbítrio, identidade e transumanismo — tema que debate até onde a evolução tecnológica pode transformar o próprio conceito de humanidade.
“Existe uma reflexão constante sobre até onde a ciência pode avançar antes de perder completamente sua ética.” diz a autora.
Um futuro avançado, mas emocionalmente destruído
Ao contrário de muitas obras que associam progresso tecnológico à evolução social, Chimaeris aposta em um futuro onde a humanidade continua presa às mesmas falhas estruturais.
“É um mundo onde progresso científico não significa evolução moral”, explica a autora. “As pessoas ainda carregam ambição, medo, desigualdade e sede de controle.” concluiu.
Esse contraste entre tecnologia extrema e fragilidade emocional é um dos elementos mais fortes da obra segundo a autora. A trama do livro também reserva espaço para uma narrativa contemplada com afeto, conexões humanas e resistência, mesmo meio ao caos.
Ficção científica como crítica social
A entrevista também revela o lado político e social presente em Chimaeris. L. A. Mafra utiliza a ficção científica como ferramenta para discutir concentração de poder, desumanização institucional e normalização da violência. Com isso, critica como o sistema transforma a humanidade em mero número e estatistíca, além de abordar realidades onde o controle extremo é vendido como segurança e progresso.
“A história critica sistemas que transformam pessoas em experimentos, números ou recursos descartáveis”, comenta. “Existe também uma reflexão sobre como sociedades podem aceitar controle extremo quando isso é vendido como segurança ou progresso.”
Essa abordagem aproxima o livro de grandes tradições da sci-fi distópica, onde o futuro funciona como espelho das tensões contemporâneas, como por exemplo Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, 1984 de George Orwell e também Minera Brazilis de Eberson Terra, autor nacional.
O equilíbrio entre ciência e emoção
Em toda boa ficção científica, mesmo que a tecnologia seja descrita de forma avançada, o que realmente marca o leitor, é como a abordagem emocional humana foi realizada. E pensando nisso, a autora explica que embora o universo da obra seja complexo e carregado de conceitos científicos, o foco principal nunca deixou de ser humano.
“O maior desafio foi equilibrar a grandiosidade desse universo com a profundidade emocional dos personagens”, conta. “Eu não queria que a parte científica apagasse o lado humano da narrativa.”
Essa preocupação aparece especialmente na construção dos protagonistas, descritos pela autora como personagens “quebrados, complexos e emocionalmente marcantes”.
A memória como campo de batalha
Entre as tecnologias fictícias apresentadas em Chimaeris, a autora acredita que a manipulação neural talvez seja a mais plausível dentro das próximas décadas.
“Já existem estudos envolvendo estímulos cerebrais, inteligência artificial aplicada à neurociência e interfaces cérebro-máquina”, afirma. “No livro isso aparece de forma muito mais extrema, mas parte dessa base já existe hoje.”
A ideia de controlar emoções e memórias se transforma, dentro da narrativa, em uma poderosa metáfora sobre identidade e liberdade. Na obra de Luiz Wickboldt nomeada de Memórias violadas, esse tema é muito bem explorado também.
“O quanto nossas dores moldam quem somos? Existe realmente liberdade quando alguém controla aquilo que sentimos ou lembramos?”
O papel da ficção científica no presente
Para L. A. Mafra, a ficção científica continua sendo um dos gêneros mais importantes da atualidade justamente por sua capacidade de antecipar debates urgentes.
“A ficção científica funciona como um espelho do presente projetado no futuro”, define. “Ela permite discutir tecnologia, política, desigualdade e ética de forma simbólica e emocional.”
A autora acredita que o gênero possui a rara capacidade de fazer perguntas desconfortáveis antes que a realidade obrigue a humanidade a enfrentá-las.
“Além disso, a sci-fi também é um espaço poderoso para imaginar futuros diferentes — tanto sombrios quanto esperançosos.”
Com Chimaeris, entre sangue e memórias, a autora brasileira aposta justamente nessa combinação entre questionamento filosófico, emoção humana e especulação científica para conquistar leitores que buscam uma ficção científica intensa, reflexiva e perturbadoramente plausível.
Com lançamento agora em 2026, o livro já está disponível no site da editora.


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