“Mais do que nunca, tenha livros físicos”: Lady Sybylla, autora de Sol de Limão publica alerta sobre a preservação dos livros na era da IA

Autora de ficção científica da Editora Aleph chama atenção para a destruição de livros usados no treinamento de inteligências artificiais e defende bibliotecas como espaços de preservação da memória humana

REFLETINDO FICÇÃO CIENTÍFICA

Michael Douglas

9/5/20264 min read

A relação entre inteligência artificial e produção intelectual humana ganhou mais um capítulo de discussão entre escritores. A autora de ficção científica Sol de Limão, publicada pela Editora Aleph, publicou em seu blog um texto intitulado “Mais do que nunca, tenha livros físicos”, no qual alerta para um fenômeno que considera preocupante: a compra em larga escala de livros físicos para serem escaneados e posteriormente descartados, com o objetivo de alimentar sistemas de inteligência artificial generativa.

O texto parte de reportagens e documentos apresentados em processos judiciais envolvendo empresas de tecnologia e escritores. Segundo Lady Sybylla, livreiros e sebos teriam começado a perceber um comportamento incomum: pedidos em grandes quantidades de livros antigos, muitas vezes dezenas ou centenas de exemplares de uma só vez. A explicação estaria na utilização dessas obras como fonte de dados para treinamento de modelos de inteligência artificial.

A autora chama atenção especialmente para o método utilizado em determinados processos de digitalização. Os livros podem ter suas lombadas cortadas para que as páginas sejam separadas e escaneadas em sequência. Depois da digitalização, o exemplar físico deixa de existir como livro.

É justamente nesse ponto que o texto de Lady amplia a discussão. Para ela, o problema não está simplesmente na digitalização de livros, prática que há décadas é utilizada por bibliotecas, universidades, museus e instituições de preservação. A diferença fundamental estaria no destino do original.

Não devemos confundir digitalização com conservação”, defende a autora. Uma obra pode ser digitalizada para ampliar seu acesso e, simultaneamente, permanecer preservada fisicamente em uma biblioteca ou coleção. Quando o processo envolve a destruição do exemplar original, porém, surge uma questão diferente: o que acontece quando a cópia digital também deixa de existir?

A autora argumenta que a preservação digital não é necessariamente permanente. Arquivos dependem de servidores, armazenamento, energia elétrica, manutenção, sistemas e empresas que precisam continuar existindo para que aquela informação permaneça acessível. Na visão apresentada pela autora, um arquivo criado para treinar uma inteligência artificial pode eventualmente ser descartado depois que cumprir sua função.

A reflexão ganha uma dimensão ainda maior quando ela relaciona livros físicos à memória coletiva. Uma biblioteca, seja pública ou particular, funciona como uma espécie de arquivo material da humanidade. O livro pode atravessar gerações e continuar acessível independentemente da existência de uma plataforma, de uma empresa ou de um determinado formato tecnológico.

Para reforçar essa ideia, a autora cita o escritor e engenheiro português Bernardo Mota Veiga, que compara a perda do original provocada pela destruição de livros com processos históricos de apagamento e reescrita da memória. A questão central, nesse caso, não seria apenas quem destruiu o livro, mas quem passa a controlar a versão do conhecimento que permanece disponível.

“Em ambos os casos o original desaparece e fica apenas a narrativa que quem ficou com o livro decidiu ou conseguiu reter e transmitir.”

A preocupação de Lady também está relacionada ao próprio funcionamento das inteligências artificiais generativas. Em seu texto, ela argumenta que, depois de consumir uma enorme quantidade de material disponível na internet, os sistemas passaram a depender cada vez mais de outras fontes de conhecimento produzido por humanos. Livros, nesse sentido, representam um acervo particularmente valioso, não apenas pelo conteúdo, mas pelo trabalho intelectual envolvido em sua produção.

A autora também questiona a ideia de que a inteligência artificial necessariamente democratizou a criação artística. Ao comentar o argumento de que ferramentas generativas permitem que pessoas produzam livros, ilustrações ou outros trabalhos sem dominar as técnicas envolvidas, fazendo uma distinção entre produzir um resultado e aprender a criar.

Para ela, o processo humano de criação envolve tempo, estudo, tentativa, erro e desenvolvimento de conhecimento. E existe uma ironia na própria dependência das empresas de IA em relação à produção humana: quanto mais essas ferramentas precisam de livros, textos e obras produzidas por pessoas para aprimorar seus sistemas, mais evidente se torna o valor do conhecimento humano que elas utilizam.

No texto, a discussão deixa de ser exclusivamente sobre inteligência artificial e passa a envolver também a relação pessoal da autora com os livros. Ela conta que sempre desejou ter uma biblioteca em casa e que, durante boa parte da vida, carregava seus poucos livros em uma mochila a cada mudança. Foi posteriormente, por meio do blog, de cortesias e parcerias com editoras, que começou a construir uma biblioteca pessoal.

Ela faz questão de diferenciar esse desejo de qualquer ideia de ostentação ou consumismo. Para a autora, ter livros físicos significa manter conhecimento ao alcance das mãos, independentemente de plataformas digitais ou mudanças tecnológicas.

“Leio bastante ebook pela praticidade, mas nada vai substituir a mídia física como uma fonte segura de conhecimento e informação”, afirma.

Ao final, ela transforma sua reflexão em um chamado para que leitores valorizem suas próprias bibliotecas. Mais do que recomendar a compra de livros, sua proposta é pensar o acervo físico como uma forma de preservar informações para o futuro.

E talvez seja justamente essa a provocação deixada por Lady Sybylla: em uma época em que podemos copiar praticamente tudo, ainda precisamos preservar os originais?

Para a autora, a resposta é sim. Porque quando o suporte desaparece, não perdemos apenas um objeto. Podemos estar perdendo também uma parte da história que aquele objeto carregava.

Leia o texto, da autora na íntegra clicando aqui.

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