[LANÇAMENTO] O Despertar inaugura série de ficção científica sobre identidade, tecnologia e liberdade

Primeiro volume de Luminosidade, série planejada em cinco livros, apresenta uma sociedade em que existir também depende de ser reconhecido pelos sistemas.

NOTÍCIAS SCI-FI

Michael Douglas

9/16/20264 min read

O que acontece quando uma sociedade consegue registrar praticamente tudo, mas não consegue provar quem você é?

Essa é a premissa de O Despertar, primeiro volume de Luminosidade, nova série de ficção especulativa planejada em cinco livros escrito por Theo Varen. A obra acompanha Elias, um homem que não é invisível: as pessoas conseguem vê-lo, câmeras registram seu rosto e ele trabalha, circula, come e adoece normalmente. O problema começa quando os sistemas responsáveis por confirmar sua identidade não conseguem estabelecer de forma consistente quem ele é.

O livro parte de uma sociedade na qual identidade, trabalho, transporte, alimentação e cuidados são organizados por uma rede altamente eficiente. Durante anos, Elias aprendeu a sobreviver justamente nas pequenas falhas desse sistema.

Tudo muda com a chegada da IC-112, uma atualização criada para eliminar acessos antigos, credenciais coletivas e inconsistências de registro. Para a sociedade, trata-se de uma melhoria. Para Elias, é o começo do fechamento de todas as portas.

Uma refeição deixa de ser liberada. Caminhos antes disponíveis desaparecem. Até o atendimento relacionado ao próprio corpo pode acontecer sem que a rede consiga determinar a quem aquele corpo pertence.

É nesse cenário que O Despertar coloca em discussão temas como identidade, pertencimento, liberdade e os limites da eficiência tecnológica.

Uma história que nasceu de uma inquietação

Em entrevista ao Um Leitor de Sci-fi, o autor contou que a ideia do livro surgiu de uma reflexão sobre o quanto da vida contemporânea já depende de sistemas responsáveis por definir e comprovar quem somos.

Cadastros, documentos, contas, históricos, algoritmos e reconhecimento fazem parte de uma estrutura que, cada vez mais, determina como as pessoas acessam serviços e se relacionam com instituições.

Foi a partir dessa inquietação que surgiu Elias.

A proposta, entretanto, não era construir mais uma história de ficção científica em que uma inteligência artificial simplesmente se torna maligna e passa a dominar a humanidade.

No universo de Luminosidade, o sistema funciona.

Ele organiza a sociedade, evita problemas e oferece estabilidade. O conflito está justamente na eficiência dessa estrutura e na pergunta sobre quanto de liberdade uma sociedade pode trocar por segurança e organização antes de começar a perder algo essencial.

Como explicou o autor ao Um Leitor de Sci-fi, Elias também não começa sua trajetória tentando salvar o mundo.

Ele quer coisas muito mais básicas: continuar trabalhando, comer, ter onde dormir e viver da maneira como sempre viveu. Aos poucos, porém, até essas necessidades começam a deixar de funcionar para ele.

A tecnologia como cenário para questões humanas

Apesar de estar inserido na ficção científica, o autor afirma que enxerga O Despertar principalmente como uma história sobre identidade, liberdade, pertencimento e escolha.

A tecnologia funciona como o ambiente onde essas questões são colocadas à prova.

Essa característica também aparece nas referências utilizadas na construção da obra. Em conversa com o Um Leitor de Sci-fi, o autor citou escritoras e escritores como Ursula K. Le Guin, Kazuo Ishiguro, Philip K. Dick, Aldous Huxley, Ted Chiang e Dostoiévski entre suas principais referências.

Le Guin é uma referência pela maneira de construir sociedades sem transformar a narrativa em uma explicação constante sobre o próprio universo. Ishiguro, pela capacidade de tratar acontecimentos pesados com uma aparente normalidade que pode torná-los ainda mais perturbadores.

Philip K. Dick aparece principalmente nas questões relacionadas à identidade, realidade e paranoia. Já Aldous Huxley influencia a reflexão sobre uma sociedade que não precisa necessariamente controlar seus indivíduos apenas pela força, podendo fazer com que eles próprios desejem aquilo que o sistema oferece.

Ted Chiang é lembrado pela maneira como leva conceitos tecnológicos a sério e explora suas consequências humanas.

Dostoiévski surge por outro motivo: a preocupação em construir conflitos nos quais os dois lados tenham argumentos fortes, sem necessariamente transformar o protagonista no dono absoluto da razão.

O resultado pretendido pelo autor é uma história em que o conflito moral tenha tanto peso quanto o tecnológico.

Uma sociedade que não precisa ser “má”

Um dos pontos centrais da proposta de Luminosidade está justamente em não apresentar uma divisão simples entre uma sociedade controladora e um indivíduo que simplesmente precisa derrotá-la.

O sistema não precisa ser apresentado como maligno para produzir consequências perigosas.

Essa escolha desloca o debate para uma questão mais próxima da realidade: quanto controle estamos dispostos a aceitar quando ele vem acompanhado de eficiência, segurança e conveniência?

É uma discussão que ganha relevância em um período no qual reconhecimento facial, algoritmos, bancos de dados, sistemas automatizados e identidades digitais estão cada vez mais presentes na vida cotidiana.

Em O Despertar, essa discussão é levada ao extremo por meio de Elias — alguém que existe fisicamente, mas cuja existência começa a não encontrar correspondência nos registros que organizam a sociedade.

Primeiro livro de uma história maior

O Despertar é o primeiro volume de Luminosidade, série planejada para cinco livros.

Segundo o autor, a intenção neste primeiro volume foi permitir que o leitor descubra o funcionamento daquele mundo junto com Elias, sem receber todas as respostas de imediato.

Dessa forma, algumas situações podem provocar suspeitas antes que o leitor compreenda exatamente o que está acontecendo.

A escolha também reforça o caráter de mistério presente na história e permite que o universo seja apresentado progressivamente ao longo da série.

O primeiro livro publicado

Em entrevista ao Um Leitor de Sci-fi, o autor também falou sobre o significado pessoal do lançamento.

Embora sempre tenha tido interesse pela escrita e pela criação de histórias, O Despertar é seu primeiro livro a chegar oficialmente ao público.

O lançamento representa, assim, a passagem de uma história que durante muito tempo existiu apenas como ideia para uma obra que agora passa a ser compartilhada com os leitores.

Para quem acompanha ficção científica, distopias, thrillers tecnológicos, mistérios envolvendo identidade ou histórias marcadas por uma sensação de paranoia, o livro se apresenta a partir de uma pergunta central que resume a proposta de toda a obra:

“Se um sistema não consegue reconhecer que você existe, o que é que prova que você é alguém?”

É a partir dessa pergunta que O Despertar abre as portas de Luminosidade — uma série que pretende investigar não apenas o que a tecnologia pode fazer com a sociedade, mas também o que uma sociedade está disposta a abrir mão para viver em um mundo cada vez mais organizado por ela.

O livro já está disponível clicando aqui.

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