KALLOCAÍNA: O desconforto de acompanhar um protagonista que acredita na distopia
É comum lermos distopias com protagonistas rebeldes e que querem derrubar o sistema. Mas e quando o protagonista é favorável ao absurdo? Estou lendo Kallocaína de Karin Boye, e refleti sobre isso.
REFLETINDO FICÇÃO CIENTÍFICA
Michael Douglas
8/9/20262 min read
Quem lê ficção científica acaba desenvolvendo certos reflexos. Basta surgir um governo controlador, uma sociedade rigidamente organizada ou um Estado que vigia todos os movimentos para imaginarmos quem será o personagem que vai desafiar aquele sistema. A distopia quase sempre nos ensinou a procurar o rebelde.
Foi justamente por isso que comecei Kallocaína com uma sensação estranha.
O livro de Karin Boye não produz desconforto apenas pelo mundo que apresenta. O incômodo nasce porque acompanhamos alguém que acredita naquele mundo. Leo Kall não olha para o Estado como um problema. Ele enxerga ordem, eficiência, propósito. Quando defende ideias que, vistas de fora, parecem absurdas, não existe ironia nem maldade gratuita. Para ele, aquilo faz sentido.
Em muitos romances distópicos, o protagonista funciona como os nossos olhos. Descobrimos as rachaduras daquele universo junto com ele. Em 1984, de George Orwell, Winston Smith já vive em conflito com o Partido desde as primeiras páginas. Em Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, Guy Montag começa convencido de seu trabalho, mas logo a narrativa se transforma em um despertar. O leitor encontra rapidamente alguém com quem compartilhar suas dúvidas.
Em Kalocaína, a situação é diferente.
O leitor precisa ocupar sozinho esse papel crítico. Enquanto Leo Kall justifica, explica e racionaliza o funcionamento daquela sociedade, somos nós que sentimos o peso de suas palavras. A narrativa cria uma distância curiosa entre protagonista e leitor. Continuamos interessados em acompanhá-lo, mas raramente caminhamos ao lado dele.
Esse recurso não é exclusivo de Karin Boye. Talvez o exemplo mais importante esteja em Nós, de Yevgeny Zamyatin. O engenheiro D-503 inicia o romance profundamente orgulhoso do Estado Único. Sua voz transmite convicção, quase entusiasmo, diante de uma sociedade baseada em matemática, vigilância e absoluta previsibilidade. A diferença é que, em Nós, a transformação do personagem ocupa o centro da narrativa. Em Kallocaína, pelo menos até o ponto em que estou na leitura, o interesse está justamente em observar alguém cuja lógica parece incompatível com a nossa.
E isso produz um efeito raro.
Percebemos que regimes autoritários dificilmente sobrevivem apenas pela força. Eles dependem de pessoas que acreditam sinceramente em seus princípios. Pessoas inteligentes, dedicadas, até bem-intencionadas. Quando a ficção coloca uma dessas figuras no centro da história, a distopia deixa de ser apenas um cenário opressor e passa a revelar um mecanismo muito mais inquietante: a capacidade humana de normalizar qualquer sistema quando nasce e cresce dentro dele.
Talvez seja esse o maior mérito de Kallocaína. O livro não exige que o leitor enfrente um vilão. Ele convida a enfrentar uma forma de pensar. E essa experiência, silenciosa e desconfortável, acaba sendo muito mais perturbadora do que uma revolução iniciada logo no primeiro capítulo.
Ainda estou na metade da leitura. Não sei para onde Leo Kall será levado, nem pretendo descobrir antes das próximas páginas. Mas uma coisa já ficou clara: poucas distopias conseguem provocar tanta inquietação simplesmente por escolherem o lado de onde a história será contada.
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