Júlia Azevedo Rocha fala sobre distopia, bolhas sociais e os limites da tecnologia em “Inferno Pós-Mundo”

Autora revela como uma campanha de RPG deu origem ao universo da obra e explica as críticas sociais, filosóficas e tecnológicas presentes na narrativa

REFLETINDO FICÇÃO CIENTÍFICA

5/14/20265 min read

A ficção científica brasileira vem expandindo cada vez mais seus horizontes, explorando temas que dialogam diretamente com as inquietações contemporâneas. Entre essas obras está Inferno Pós-Mundo, da escritora Júlia Azevedo Rocha, uma distopia que mistura chips implantados, gases atmosféricos misteriosos, inteligência artificial e sociedades isoladas em gigantescas redomas.

Em entrevista ao Um Leitor de Sci-Fi, Júlia falou sobre a criação do universo da obra, as inspirações filosóficas e científicas, o impacto psicológico dos personagens e o papel da ficção científica como ferramenta de reflexão sobre o presente e o futuro.

Uma distopia nascida do RPG

Segundo Júlia, a origem de Inferno Pós-Mundo surgiu durante uma campanha de RPG criada e narrada por ela. A ideia inicial era construir personagens separados que eventualmente precisariam se unir dentro da narrativa.

“Eu precisava limitar os jogadores de alguma forma para induzir eles a jogarem juntos o mais cedo possível”, explicou a autora.

Foi daí que nasceu o conceito de um governo totalitário que controla a população através de chips implantados nos pulsos. O elo entre os personagens seria justamente um defeito nesses chips.

A partir disso, novas ideias começaram a surgir. Júlia criou um gás atmosférico que enlouquece as pessoas e que supostamente é combatido pelos chips. Mas a dúvida sobre a veracidade dessa ameaça passou a ser parte essencial da história.

“Eu queria trazer essa questão de fora do jogo mesmo. Será que esse gás existe? Será que os chips protegem mesmo?”, disse Júlia.

Outro elemento central são as Redomas, estruturas gigantescas criadas após um evento apocalíptico desconhecido. Além da função física de proteger a população, elas também simbolizam bolhas sociais e a dificuldade de enxergar o que existe além da própria realidade.

“A busca do que é verdade em meio a tantas fake news e a acomodação com aquilo que já funciona”, comentou a autora.

Ciência, tecnologia e filosofia moldando o universo

Júlia afirma que o universo da obra foi construído a partir de uma mistura de conceitos científicos, tecnológicos e filosóficos.

Na ciência, a autora destaca questões ligadas à genética e aos efeitos do misterioso gás atmosférico, que pode ser interpretado de diferentes formas, desde contaminação química até uma doença degenerativa espalhada pelo ar.

Já na tecnologia, os chips possuem múltiplas funções, funcionando como celulares holográficos implantados diretamente no corpo. Além disso, existem inteligências artificiais, lentes inteligentes capazes de identificar e legendar ambientes e as próprias Redomas, descritas como gigantescos campos energéticos de proteção.

“Tudo sempre gira em torno da ideia de segurança”, explicou Júlia.

No campo filosófico, a autora trabalha conceitos como utilitarismo, moralidade e alienação social. Em sua visão distópica, o valor das pessoas está diretamente ligado à produtividade.

“Se você faz qualquer coisa, você é útil. Se não faz nada, você não é”, disse Júlia ao comentar o sistema social da obra.

Ela também aborda o conceito de viver em bolhas sociais e a dificuldade de distinguir verdade e manipulação em um mundo tomado por desinformação.

Ficção científica com base em possibilidades reais

Embora admita extrapolar alguns limites científicos em determinados momentos, Júlia afirma buscar uma abordagem relativamente plausível para a construção do universo.

Um dos exemplos citados pela autora é a ideia de memória biológica em plantas, conceito explorado em uma das Redomas da história.

“Existe uma pesquisa sobre o potencial das plantas para armazenar informações como um disco rígido. É uma possibilidade de acontecer e no meu universo isso acontece”, explicou.

A autora também comentou que pretende expandir o universo futuramente, explorando outras Redomas em contos e novas histórias.

O futuro inevitável da tecnologia

Para Júlia, a obra apresenta um futuro em que a evolução tecnológica se torna inevitável, especialmente diante do avanço da inteligência artificial.

Ela cita tecnologias presentes no livro que já possuem versões iniciais no mundo real, como lentes inteligentes capazes de identificar objetos e exibir legendas em tempo real.

“As coisas mudam muito rápido”, afirmou.

Ao mesmo tempo, a autora acredita que o futuro retratado na obra também expõe uma pressão crescente pela produtividade constante.

“Tem vezes que me sinto culpada por não estar fazendo nada e eu não sei de onde essa culpa vem”, comentou Júlia, relacionando essa sensação ao modelo de sociedade mostrado na narrativa.

Críticas sociais escondidas na distopia

Apesar do tom futurista, Inferno Pós-Mundo funciona como um espelho de problemas atuais. Júlia afirma que a obra traz diversas críticas sociais de forma sutil.

Entre os temas abordados estão a pressão por produtividade, fanatismo religioso, fake news com motivações políticas, invisibilização de povos e o isolamento em bolhas sociais.

“Você consegue enxergar para onde esses temas levam a trama se não forem combatidos”, disse a autora.

O equilíbrio entre lógica e criatividade

Júlia contou que precisa acreditar completamente na lógica interna de cada cena para conseguir escrevê-la.

“Eu preciso imaginar aquilo acontecendo. Preciso sentir que é possível dentro dos limites do universo”, explicou.

Ela revelou inclusive um exemplo de uma cena que ainda está avaliando incluir em um novo livro. Nela, um personagem criaria uma chama verde sobre um lago utilizando carbureto de cálcio.

A dúvida da autora não está na estética da cena, mas na coerência narrativa.

“Será que faz sentido esse personagem ter esse conhecimento?”, questionou.

Segundo Júlia, esse tipo de detalhe influencia diretamente sua escrita e pode impedir o avanço da narrativa até que tudo faça sentido dentro da lógica dos personagens.

O peso emocional dos personagens

Ao falar sobre os maiores desafios da escrita, Júlia destacou o impacto emocional de determinadas cenas.

Ela revelou que uma morte importante no primeiro livro foi especialmente difícil de escrever por causa das consequências emocionais para os personagens envolvidos.

“Foi bem difícil emocionalmente”, contou.

A autora também comentou sobre a dificuldade de interromper o fluxo criativo durante a escrita.

“Quando eu preciso parar antes de finalizar o enlaçar das ideias, depois preciso reler tudo de novo para recuperar a mesma emoção”, explicou.

A ficção científica como alerta

Para Júlia, a principal função da ficção científica continua sendo entreter. Mas ela acredita que as distopias possuem um papel importante ao extrapolar problemas reais e apresentar possíveis consequências futuras.

“Distopias são uma forma divertida de enxergar o que já acontece colocado de maneira extrema”, disse Júlia.

Ao mesmo tempo, ela faz um alerta para que essas histórias não sejam encaradas como verdades absolutas.

“É importante tomar cuidado para não transformar essas obras em motivo de medo ou rejeição às mudanças”, afirmou.

Segundo a autora, o equilíbrio entre reflexão e entretenimento é justamente o que torna a ficção científica tão relevante no mundo atual.

Júlia Azevedo Rocha nasceu em 1997, em Campos Gerais - Minas Gerais, Desde a infância, a imaginação sempre foi seu refúgio, criando histórias e dando vida a personagens por meio de palavras e desenhos.

Na adolescência, começou a explorar narrativas mais diversas, especialmente dentro da comunidade LGBTQIA+ um movimento que se intensificou quando se reconheceu como uma mulher trans. O primeiro livro da série Inferno Pós Mundo chamado À sombra de Farrel, pode ser encontrado nos principais buscadores de livros, inclusive no site da editora FLYVE, que publicou essa série.

Siga a autora nas redes sociais: @julinuxa