Já nos tornamos máquinas?

Entre engrenagens sociais, algoritmos invisíveis e futuros cyberpunk, a ficção científica revela uma verdade desconfortável: talvez nós já estejamos vivendo como máquinas há muito tempo.

REFLETINDO FICÇÃO CIENTÍFICA

Michael Douglas

5/10/20262 min read

Já nos tornamos máquinas?

Uma máquina é formada por engrenagens, sistemas e dados que trabalham em perfeita sintonia.
Uma máquina é composta por inúmeros componentes, de variados tamanhos e formas, e cada um possui um papel específico dentro daquele funcionamento. Algumas peças carregam o peso do sistema. Outras apenas existem para manter a aparência de que tudo continua funcionando perfeitamente.

Parece distante, frio, artificial. Algo vindo de um futuro cyberpunk iluminado por letreiros neon e chuva ácida caindo sobre megacidades decadentes. Parece coisa de ficção científica.

Mas talvez a ficção científica nunca tenha sido sobre o futuro.
Talvez ela sempre tenha sido sobre nós.

Em Blade Runner, humanos vivem cercados por máquinas tão avançadas que já não conseguem distinguir o que é artificial e o que ainda restou de humanidade. Replicantes possuem memórias implantadas, emoções programadas e uma vida inteira construída para servir. Eles trabalham, obedecem e sobrevivem dentro de um sistema criado por alguém maior. Um sistema onde até as lembranças podem ser fabricadas.

E olhando de fora, parece absurdo.
Mas olhando para nossa realidade... não parece tão distante assim.

Nós também seguimos programações.
Levanta, trabalha, compra, gasta, deseja, consome, se arrepende, repete. Todos os dias. Como um loop infinito rodando dentro de uma máquina gigantesca que ninguém consegue enxergar por completo.

A ficção científica sempre entendeu isso antes da gente.

Blade Runner 2049 não fala apenas sobre androides. Fala sobre identidade. Sobre propósito. Sobre a dor de perceber que talvez sua vida inteira tenha sido construída para cumprir uma função. E talvez seja exatamente isso que assuste tanto nesses universos futuristas. Não são os carros voadores, os implantes cibernéticos ou as inteligências artificiais. É perceber que o ser humano já vive como máquina há muito tempo.

Nós acordamos seguindo cronogramas.
Vivemos obedecendo algoritmos invisíveis.
Desejamos coisas que nos ensinaram a desejar.
Corremos atrás de metas que nem sabemos se realmente são nossas.

Somos peças tentando acreditar que possuem controle sobre a máquina.

E quanto mais a tecnologia avança, mais a ficção científica deixa de parecer ficção. Redes sociais moldam comportamento. Algoritmos definem o que vemos, o que sentimos e até o que odiamos. Empresas coletam nossos dados como se recolhessem combustível para manter um sistema funcionando eternamente. O cyberpunk não chegou de uma vez só com neon e implantes metálicos. Ele chegou silenciosamente, através de telas, notificações e dependência digital.

Talvez seja por isso que obras como The Matrix, Neuromancer e Ghost in the Shell continuem tão atuais. Porque no fundo elas não falam sobre robôs. Falam sobre pessoas tentando descobrir se ainda existe algo humano dentro delas.

Dia após dia, o sol nasce e se põe.
O sol nasce e se põe.
O sol nasce e se põe.

E nós nascemos e morremos.

O sol está fora do sistema. Nós não.

Nós temos apenas uma chance de existir, mas gastamos boa parte dela funcionando no automático, como componentes obedientes de uma engrenagem social que nunca para de girar. Trabalhando para produzir. Consumindo para continuar produzindo. Vivendo como replicantes modernos, com memórias alimentadas por telas, desejos fabricados e emoções cada vez mais artificiais.

A ficção científica sempre fez a mesma pergunta, repetidas vezes, em diferentes universos e épocas:

O que acontece quando a máquina já não consegue mais diferenciar o homem dela mesma?

Talvez a pergunta mais assustadora seja outra.

E se isso já aconteceu?