IVUC: Roberto Cassano transforma o caos suburbano brasileiro em uma space opera sobre amizade, improviso e monstros intergalácticos

Talvez a maior surpresa de IVUC seja perceber que qualquer leitor de ficção científica acredita, lá no fundo, que conseguiria enfrentar uma ameaça alienígena caso fosse necessário.

RESENHAS

Michael Douglas

6/9/20263 min read

Talvez a maior surpresa de IVUC seja perceber que qualquer leitor de ficção científica acredita, lá no fundo, que conseguiria enfrentar uma ameaça alienígena caso fosse necessário.

Mesmo sem preparo.
Mesmo sem treinamento.
Mesmo sem entender absolutamente nada do que está acontecendo.

Porque existe algo muito específico na imaginação de quem cresceu consumindo sci-fi: a sensação de que o cotidiano pode desmoronar a qualquer momento e revelar algo gigantesco escondido atrás da rotina mais banal possível.

E Roberto Cassano transmite perfeitamente essa sensação em IVUC – A Iniciativa C’ach’atcha .

HP, protagonista do livro, está muito longe da imagem tradicional do herói espacial. Ele não é piloto militar, cientista brilhante ou explorador interestelar. É apenas um programador trabalhando em casa, tentando sobreviver ao caos cotidiano entre cachorro engasgando, filhos precisando de ajuda com trabalhos escolares e ex-esposas que continuam atravessando sua vida o tempo inteiro — às vezes complicando tudo, às vezes salvando seu dia.

Existe algo extremamente brasileiro nessa dinâmica.

O livro começa quase como uma comédia suburbana contemporânea. Um calor absurdo, rotina bagunçada, pequenos problemas domésticos e aquele cansaço permanente de quem está sempre resolvendo alguma coisa. Até que HP recebe um JOB estranho vindo do outro lado do mundo: uma programação suspeita ligada a um esquema criminoso que claramente vai dar errado.

E dá.

E dá muito errado.

Um herói sem querer

Além das ameaças bastante concretas de seus novos empregadores — sujeitos que deixam claro que fracasso pode terminar com suas pernas virando farelo — HP ainda descobre que foi recrutado para salvar a Terra.

A responsável por arrastá-lo para isso é Soraia, uma de suas ex-esposas, que o joga praticamente à força dentro de uma reunião intergaláctica da IVUC, a Iniciativa de Vigilância Universal Cath’acha.

A ameaça?

Um polvo colossal de milhares de tentáculos capaz de engolir planetas inteiros.

E talvez a melhor decisão do livro seja justamente não tratar isso com solenidade excessiva.

Porque IVUC entende que o absurdo funciona melhor quando os personagens continuam emocionalmente humanos dentro dele. HP não se transforma magicamente em líder heroico depois da descoberta alienígena. Ele continua reagindo da única forma possível: improvisando.

Nas coxas.

O resultado é um livro que abraça completamente o caos. De repente, aquele programador suburbano que mal conseguia organizar a própria rotina está dentro de uma nave que parece uma bola de golfe voadora rumando ao desconhecido para impedir um horror cósmico interplanetário.

E ainda assim, o romance nunca perde sua escala humana.

A ficção científica criando uma abordagem sentimental em meio ao caos

Grande parte da força do livro vem justamente das relações pessoais. Família, amizade, exaustão emocional e afeto ocupam espaço tão importante quanto a ameaça alienígena. Mesmo nos momentos mais absurdos da narrativa, Roberto Cassano mantém os personagens ancorados em emoções extremamente reconhecíveis.

Isso impede que o humor transforme a história em algo vazio.

Porque IVUC é engraçado — muito engraçado em vários momentos — mas nunca parece debochar das emoções dos próprios personagens. Pelo contrário: o humor frequentemente funciona como mecanismo de sobrevivência diante do absurdo.

Você começa rindo do caos.
Depois percebe o peso emocional escondido ali.

E quando o livro decide atingir emocionalmente o leitor, ele consegue.

Existe uma melancolia discreta atravessando a história inteira. Uma sensação constante de pessoas cansadas tentando continuar funcionando apesar da bagunça da vida, do universo e das próprias escolhas.

Talvez seja por isso que o livro tenha uma energia tão simpática. Ele não está interessado em personagens perfeitos salvando galáxias com discursos grandiosos. Está interessado em gente comum tentando fazer o melhor possível sem entender direito o que está acontecendo.

                              Representação minha de HP, com sua querida máquina de café.

Também chama atenção como Roberto Cassano escreve de maneira extremamente fluida. O livro evita excesso de explicações técnicas ou longos mergulhos em lore. Tudo acontece com ritmo rápido, quase cinematográfico. A leitura avança sem aqueles desvios cansativos que parte da space opera contemporânea às vezes acumula tentando explicar cada detalhe do universo.

Isso faz IVUC funcionar muito bem como leitura divertida, mas sem abrir mão de profundidade emocional.

No fundo, o romance parece carregar uma ideia muito bonita: a de que pessoas comuns talvez sejam mais capazes do que imaginam.

E talvez seja exatamente por isso que o livro funcione tão bem para leitores de ficção científica.

Porque todo fã de sci-fi já imaginou, nem que por alguns segundos, como reagiria se o impossível aparecesse na porta de casa.

IVUC apenas responde isso da maneira mais brasileira possível:

provavelmente improvisando, reclamando, fazendo piada… e salvando o mundo mesmo assim.

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