Incarnate chega com um futuro de deepfakes, mas o Brasil já falou sobre isso com Personificadores de Adriana Toribio
Novo livro de Alma Katsu usa inteligência artificial, deepfakes e celebridades digitais para discutir identidade e os limites entre o real e o artificial. No Brasil, Adriana Toribio já explorou questões semelhantes em Personificadores.
REFLETINDO FICÇÃO CIENTÍFICA
Michael Douglas
10/10/20263 min read
A ficção científica tem um poder curioso de parecer que está falando do futuro, mas, na verdade, está sempre relacionada com o contexto atual. E isso se aprofunda e se intensifica quando começamos a pensar, ler e escrever sobre as famosas inteligências artificiais que tanto têm evoluído nos últimos anos.
Embora as ferramentas generativas de textos e imagens sejam as mais utilizadas em todo o mundo, em praticamente qualquer profissão, uma arma poderosíssima que pode ser usada para o mal é a tecnologia de deepfake. Rostos colados digitalmente em corpos que nunca existiram, criando situações e fatos que não aconteceram na vida real. E, cada vez mais, com uma semelhança tão grande que se torna difícil distinguir essas criações da realidade.
E, em setembro de 2026, chegou às prateleiras norte-americanas o livro Incarnate, da autora Alma Katsu. O romance acompanha Dorothy Wagner, uma mulher que trabalha com uma tecnologia avançada de deepfake e cria Isabella, uma personagem digital tão convincente que consegue conquistar milhões de seguidores nas redes sociais. A própria autora descreve a obra como uma espécie de releitura de O Retrato de Dorian Gray para a era da internet.
Mas o Brasil já tinha escrito sobre isso.
Em Personificadores, romance de Adriana Toribio publicado pela Editora Patuá, a autora constrói um futuro próximo em que grandes conglomerados de mídia utilizam celebridades digitais criadas por inteligência artificial em filmes e programas de televisão. Essas celebridades não existem fisicamente, mas possuem uma imagem pública, uma carreira e um valor comercial. Quando precisam aparecer no mundo real, os conglomerados recorrem a pessoas que assumem suas identidades.
A protagonista Raquel DeMornay trabalha justamente como uma dessas personificadoras. Ela chega a uma ilha paradisíaca interpretando Pâmela Divina, uma celebridade digital que não existe de verdade. O que deveria ser apenas mais um trabalho começa a se transformar em uma trama de mistério quando um dos homens mais poderosos daquele lugar é encontrado morto, e Raquel se vê envolvida em uma situação na qual sua própria identidade começa a ficar cada vez mais difícil de separar da personagem que interpreta.
Em Incarnate, uma pessoa artificial ganha uma presença tão convincente que o mundo passa a tratá-la como real. Em Personificadores, pessoas reais precisam assumir a identidade de personagens artificiais para que essas figuras possam existir fisicamente diante do público.
Em uma história, a máquina cria a pessoa. Na outra, a pessoa precisa se transformar na máquina.
Mas as duas chegam a uma questão parecida: o que acontece com a nossa identidade quando a tecnologia consegue fabricar uma imagem de nós mesmos que pode ser mais poderosa do que a própria pessoa?
Essa discussão está ficando cada vez menos distante da realidade. A própria Alma Katsu conta que trabalhou durante anos como futurista de tecnologia e que já estudava deepfakes muito antes de escrever Incarnate. Segundo a autora, foi justamente a evolução dessa tecnologia e o potencial de transformação provocado pela IA generativa que a fizeram perceber que aquele era um tema que merecia virar romance.
Adriana Toribio também parte de uma preocupação semelhante com a maneira como a tecnologia pode modificar nossa relação com a imagem, com o trabalho e até com a percepção que temos de nós mesmos. Em entrevista recente, a autora explicou que Personificadores nasceu justamente em torno dessas transformações provocadas pela inteligência artificial e pela indústria cultural.
Não precisamos esperar que Hollywood imagine todos os nossos futuros para depois perceber que essas discussões também podem ser feitas por autores brasileiros. Personificadores mostra que a literatura nacional também está olhando para a inteligência artificial, para as celebridades digitais, para a identidade e para os efeitos sociais dessas tecnologias.
Incarnate chega agora ao mercado internacional com uma história sobre deepfakes e uma personagem artificial que parece real.
Mas, antes de olhar para o futuro imaginado lá fora, talvez valha a pena olhar um pouco para o que a ficção científica brasileira já estava imaginando aqui.




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