Guilherme Rezk lança ficção científica distópica sobre um Brasil dominado pela tecnologia em 2063
Novo livro do autor combina elementos do cyberpunk, inteligência artificial, religião e conflitos políticos para imaginar um futuro em que o Estado passa a depender de sistemas autônomos. Conversamos com o autor, confira.
NOTÍCIAS SCI-FI
Michael Douglas
8/31/20263 min read
“Talvez você não queira conhecer o futuro do Brasil.” É com essa provocação que Guilherme Rezk apresenta sua nova obra de ficção científica, uma distopia ambientada em 2063 que transforma problemas políticos e sociais do presente em um futuro marcado pela desigualdade, pelo avanço tecnológico e pela disputa pelo controle do Estado.
Na história, Vítor Laurentino é um assassino de aluguel que acaba envolvido em uma conspiração violenta capaz de mudar os rumos do país. Enquanto trabalha em uma misteriosa vingança relacionada ao passado trágico que o moldou, ele se aproxima de Helena, uma de suas potenciais vítimas, e acaba descobrindo que seu trabalho faz parte de uma trama muito maior.
Por trás dessa disputa estão personagens como o pastor Matías Tenório, líder da Igreja do Broto, o violento delegado Toni Chaves e Pátria, uma inteligência artificial criada pelo governo. O grupo pretende eliminar os movimentos revolucionários que resistem ao poder do Estado, em uma sociedade dividida entre diferentes visões sobre o avanço tecnológico.
De um lado estão os Tecnologistas, fanáticos que acreditam que a humanidade deveria ser governada por inteligências artificiais. Do outro está a Ordem, grupo que combate a presença crescente da tecnologia como instrumento de repressão na vida dos brasileiros. No meio desse conflito, Vítor descobre que pode ser apenas uma marionete nas mãos de forças que desconhece.
A escolha de um futuro cyberpunk não foi por acaso. Segundo Rezk em uma entrevista ao Um Leitor De Sci-fi, a obra parte justamente da ideia de que toda distopia é, de alguma maneira, uma forma de falar sobre o presente. Para o autor, o Brasil estaria caminhando em direção ao conceito central do cyberpunk, o “high tech, low life”, marcado por grandes avanços tecnológicos coexistindo com uma sociedade cada vez mais desigual.
“Além disso, trago o debate sobre o cruzamento de política, religião e forças milicianas que já cruzam no nosso mundo”, explica o escritor. Para ele, a própria busca por significado em uma sociedade cada vez mais acelerada e barulhenta também pode produzir novos tipos de fanatismo. É nesse contexto que surge a ideia de pessoas que passam a enxergar as inteligências artificiais quase como entidades capazes de oferecer respostas para a existência humana.
A inteligência artificial Pátria ocupa justamente um dos pontos centrais dessa discussão. Criada pelo governo para participar da estrutura de poder do Estado, ela representa uma questão que Rezk considera inevitável diante do avanço tecnológico: não apenas se as inteligências artificiais serão incorporadas aos serviços públicos, mas como essa integração será feita.
Para o autor, antes de discutir somente as vantagens e desvantagens dessa tecnologia, é necessário questionar quem está por trás dela. “Quem programou? Quais são os limites e os parâmetros? Quais vieses influenciam o programa e seu desenvolvimento?”, questiona. A partir dessas perguntas, o livro propõe uma reflexão sobre o risco de sistemas autônomos passarem a participar de decisões que afetam diretamente uma população inteira.
A origem da história também está ligada à trajetória anterior do escritor. Rezk conta ser muito apaixonado por seu livro A Condenação da Memória, mas sentia falta de explorar de maneira mais direta um Brasil futurista, adaptando para a realidade nacional as estéticas e os gêneros literários que aprecia.
O autor também aponta seu consumo constante de notícias como uma das fontes de inspiração para a nova obra. Ao acompanhar os acontecimentos do presente, passou a imaginar como os problemas atuais poderiam se desenvolver nas próximas décadas e quais consequências poderiam produzir em uma sociedade tecnologicamente mais avançada.
O resultado é uma ficção científica que utiliza o futuro não para escapar do Brasil, mas para retornar a ele com outra perspectiva. Em 2063, os problemas podem ter adquirido novas formas, a inteligência artificial pode ocupar posições de poder e a tecnologia pode estar muito mais integrada à vida cotidiana. Mas algumas questões permanecem essencialmente humanas: quem controla o poder, quem define os limites da tecnologia e o que acontece quando uma sociedade entrega às máquinas a responsabilidade de decidir seu próprio futuro?
E, se depender de Guilherme Rezk, ainda existe uma pergunta que permanecerá sem resposta por enquanto: por que exatamente 2063? O autor prefere deixar esse desafio para os leitores descobrirem.
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