Futuro Deserto: sci-fi mexicano da Netflix que quase entrega o que promete
Mesmo com ritmo lento e ideias familiares, Futuro Deserto encontra força no sentimentalismo e na curiosidade silenciosa — mas termina justamente quando parecia pronta para se aprofundar de verdade.
RESENHAS
Michael Douglas
5/30/20263 min read
Existe algo muito interessante em Futuro Deserto. Mesmo quando a série parece lenta demais, mesmo quando ela claramente não possui tantas camadas narrativas quanto imagina ter, ainda assim existe alguma coisa ali que prende. Talvez seja a atmosfera. Talvez seja a melancolia constante. Ou talvez seja simplesmente a curiosidade que ela consegue despertar aos poucos.
A nova produção mexicana da Netflix se passa em um futuro próximo onde androides quase indistinguíveis de humanos começam a ser integrados à sociedade através de programas experimentais. No centro da história está Alex, um psicólogo ligado a uma empresa de tecnologia que se muda com os filhos para uma comunidade isolada no sul do México acompanhado de María — uma androide que de certa forma substitui a sua esposa falecida.
É uma premissa extremamente familiar para fãs de ficção científica.
Androides desenvolvendo emoções, humanos tentando lidar com o luto através da tecnologia, empresas escondendo experimentos antiéticos… tudo isso já foi explorado inúmeras vezes no gênero. E talvez esse seja o maior problema da série: ela raramente consegue fugir da sensação de “já vi isso antes”.
Mas o curioso é que, mesmo trabalhando com um tema tão batido, Futuro Deserto não soa vazia.
A série entende que sua força não está necessariamente nos conceitos futuristas, e sim no sentimentalismo. No 'humanismo'. Existe uma tristeza silenciosa permeando praticamente todos os episódios. Os personagens parecem emocionalmente esgotados o tempo inteiro, como se aquele futuro tecnológico tivesse drenado qualquer sensação genuína de pertencimento humano.
Mesmo com um ritmo extremamente lento, a narrativa consegue criar uma curiosidade constante. Não é aquele tipo de série cheia de revelações gigantescas ou reviravoltas explosivas. Pelo contrário. Ela aposta muito mais em pequenos desconfortos, olhares estranhos, silêncios prolongados e perguntas deixadas no ar.
A ambientação ajuda bastante nisso. O isolamento da comunidade no México cria uma sensação quase pós-apocalíptica, ainda que o mundo não tenha acabado oficialmente. Tudo parece seco, vazio e emocionalmente distante. O próprio título da série faz sentido nesse contexto: o “deserto” não é apenas geográfico, mas humano, eu presumo.
Visualmente, a produção também surpreende. Não é uma série grandiosa em escala ou efeitos especiais, mas existe um cuidado estético interessante na forma como retrata tecnologia e artificialidade. Os androides não parecem super futuristas. Eles parecem… próximos demais da realidade. O que me despertou o pensamento de que, não precisamos de muito CGI quando tratamos de robôs idênticos aos humanos, e sim, de uma boa atuação. E isso com certeza acontece aqui. Os atores que interpretam os AMBIS são extremamente convicentes.
E talvez seja justamente aí que a série acerta mais.
O problema é que Futuro Deserto às vezes parece ter medo de aprofundar seus próprios temas. A narrativa sugere discussões filosóficas interessantes sobre consciência, identidade e substituição emocional, mas raramente mergulha de verdade nelas. É como se a série estivesse constantemente prometendo uma camada extra que nunca chega completamente.
Ainda assim, eu não diria que ela é superficial.
Existe diferença entre uma obra simples e uma obra vazia. Futuro Deserto definitivamente não é vazia. Ela apenas trabalha com menos complexidade do que aparenta inicialmente. E honestamente? Talvez isso até combine com a proposta mais intimista da produção.
O maior problema aparece no final.
A temporada termina exatamente naquele ponto em que você pensa: “não acredito que acabou agora”. Não porque seja um final explosivo ou genial, mas porque claramente parece incompleto. É um encerramento extremamente aberto, daqueles que parecem funcionar mais como preparação para uma próxima temporada do que como conclusão narrativa. Deveria ter pelo menos a segunda temporada anunciada!
Até o momento, a Netflix ainda não confirmou continuação oficialmente. E conhecendo o histórico da plataforma com séries de ficção científica mais nichadas, isso gera um certo medo real de cancelamento antes da história alcançar todo o potencial que parece sugerir.
No fim das contas, Futuro Deserto é uma série que vive no “quase”.
Quase aprofunda mais suas ideias.
Quase entrega uma grande obra sci-fi existencial.
Quase se torna inesquecível.
Mas mesmo sem atingir totalmente esse objetivo, ainda consegue ser uma experiência interessante justamente por sua atmosfera melancólica, pelo sentimentalismo inesperado e pela curiosidade silenciosa que mantém até os minutos finais.
Talvez não seja uma revolução da ficção científica latino-americana.
Mas definitivamente também não é só mais uma série esquecível da Netflix.
Confira o trailer abaixo:







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