Fortunato Poeira: a ficção científica brasileira que transforma um relatório burocrático em uma história profundamente humana

A partir da morte de um simples trabalhador espacial, Anna Martino cria uma ficção científica intimista e profundamente brasileira sobre ausência, memória e as vidas ocultas de quem achamos conhecer.

RESENHAS

Michael Douglas

5/31/20263 min read

Tem livros que terminam e desaparecem da cabeça em poucas horas.
E tem livros que continuam crescendo depois da última página.

Fortunato Poeira, de Anna Martino, pertence muito à segunda categoria.

Quanto mais eu penso na história, mais ela parece expandir silenciosamente. Não pela grandiosidade tecnológica ou por conceitos mirabolantes, mas justamente pelo contrário: porque tudo nela parece absurdamente humano.

A premissa é simples. Fortunato Poeira era um trecheiro. Um trabalhador que passava temporadas viajando entre a Terra e a lua artificial Bertha Lutz, uma colônia agrícola responsável por produzir alimento para o planeta. Um homem comum, desses que vivem em deslocamento constante, criando amizades aqui e ali, sem exatamente pertencer a lugar nenhum.

Hora estava na Terra, hora estava na lua, hora estava no caminho entre os dois.

E então ele morre.

O curioso é que nós nunca realmente conhecemos Fortunato diretamente. Conhecemos ele através de Antônio, um colono lunar que relata toda a confusão causada pela morte do velho trecheiro. E essa talvez seja uma das decisões mais inteligentes da narrativa.

Porque Fortunato vai sendo montado aos poucos, pelas memórias, comentários e contradições dos outros.

Antônio conta como gente de vários cantos da galáxia apareceu para se despedir daquele homem aparentemente simples. Como a família terráquea de Fortunato chegou à colônia lunar sem conhecer direito a vida que ele levava ali. E principalmente como todo mundo parecia descobrir versões diferentes daquele mesmo homem.

A própria esposa de Fortunato admite que não fazia ideia de quem ele era nas estrelas. Não sabia sobre amizades, hábitos, histórias e até pequenos pedaços inteiros da vida dele. Enquanto isso, Antônio percebe que trabalhou anos ao lado do sujeito sem sequer saber que ele tinha filha.

E aos poucos o livro começa a falar sobre algo muito maior do que viagens espaciais.

Porque existe uma dor muito específica em perceber que nunca conhecemos completamente alguém. Mesmo pessoas que passam décadas ao nosso lado. Sempre existe uma camada escondida, um silêncio, uma vida paralela emocional que ninguém alcança totalmente.

Anna Martino transforma essa descoberta em algo melancólico sem cair no dramalhão. O texto é leve, extremamente fluido e carregado de personalidade. Antônio é prolixo, comenta coisas fora do assunto, se perde nos próprios relatos e às vezes parece esquecer que está fazendo algo oficialmente sério.

E isso torna tudo mais vivo.

Tem um momento em que ele comenta o nome estranho da esposa de Fortunato e imediatamente pede para não colocarem aquilo no relatório porque “é só um comentário”. Parece pequeno, mas são detalhes assim que fazem a narrativa respirar como conversa real.

Você sente que Antônio existe.

E talvez seja justamente essa naturalidade que torna os temas do livro tão fortes.

Porque no meio desse relato quase burocrático, Anna Martino encaixa discussões sobre preconceito social, abandono afetivo, luto e luta de classes com uma delicadeza impressionante.

Enquanto Antônio fala casualmente sobre o preconceito que os colonos lunares sofrem dos terráqueos, é impossível não pensar em como esse mecanismo já existe hoje. Mesmo que aqueles humanos vivem tão distantes da terra, o preconceito dos terráqueos continua o mesmo.

Existe algo muito doloroso em como a Terra olha para os trabalhadores da lua artificial. Como se eles fossem necessários, mas invisíveis.

E o livro entende perfeitamente isso.

Talvez uma das perguntas mais fortes da história seja justamente essa: Fortunato amava mais as estrelas do que a própria família? Ou simplesmente existia nele uma necessidade impossível de explicar para quem nunca viveu olhando para o espaço?

Por tudo que isso que Fortunato Poeira permaneça tanto nas nossas mentes depois da leitura. Porque por trás da ambientação espacial e da lua artificial existe uma história sobre ausência. Sobre as partes das pessoas que nunca conseguimos tocar completamente.

É uma leitura curta, cerca de 65 páginas, mas emocionalmente muito maior do que muita ficção científica de 500.

Você lê rápido porque o texto flui fácil, mas ao mesmo tempo desacelera sem perceber.

Como quem toma um sorvete favorito devagarinho só para ele não acabar tão cedo.

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