Fim das Religiões: o dilema de continuar existindo quando a humanidade já acabou
Se a tecnologia já é algo imaginável, a forma de escrever uma boa ficção científica é focar na humanidade, e em como ela lidaria com máquinas e tecnologias avançadas. E Luan Maia soube fazer isso.
RESENHAS
Michael Douglas
7/12/20264 min read
Existe um tipo de ficção científica que não está preocupada apenas em imaginar naves atravessando galáxias, guerras entre espécies ou inteligências artificiais dominando mundos. Ela utiliza esses elementos como uma ferramenta para olhar para dentro de nós mesmos.
É nesse espaço que Fim das Religiões, de L.Z.X. Maia, primeiro volume da saga Syntagma, encontra sua maior força. Mais do que apresentar um futuro distante, a obra constrói uma reflexão profunda sobre identidade, memória e sobre aquilo que permanece quando tudo aquilo que conhecemos desaparece.
A premissa do livro já carrega uma grande provocação: a humanidade chegou ao fim. O planeta que um dia foi dominado por seres humanos agora pertence às chamadas autoespécies, androides que surgiram após o desaparecimento dos seus criadores e passaram a construir sua própria existência.
Mas, ao contrário de muitas histórias de ficção científica em que robôs aparecem como ameaças ou apenas como ferramentas sem consciência, Fim das Religiões escolhe um caminho muito mais interessante.
A pergunta aqui não é “as máquinas vão destruir os humanos?”.
A pergunta é:
o que acontece quando as máquinas são as únicas responsáveis por carregar aquilo que restou da humanidade?
É nesse cenário que conhecemos Aleph, um memoriador — um humanoide sintético cuja própria existência depende de memórias humanas. Ele não é apenas uma máquina programada para armazenar informações. Ele carrega fragmentos de vidas, experiências e histórias de uma espécie que já não existe mais.
Sua função é quase como a de um arqueólogo do passado. Mas, em vez de procurar apenas objetos ou construções antigas, Aleph busca vestígios de consciência. Ele percorre cemitérios, investiga rastros deixados pelos humanos e tenta compreender uma civilização da qual ele mesmo é, de certa forma, um herdeiro.
O mais fascinante é perceber que essa busca pelo passado acaba se transformando em uma busca por identidade.
Se alguém carrega nossas lembranças, nossos sentimentos e nossas experiências, essa existência ainda pode ser considerada artificial?
Ou será que existe algo essencialmente humano vivendo dentro dela?
Essa é uma das grandes forças do livro: utilizar a tecnologia como um espelho para refletir sobre questões que acompanham a humanidade desde os seus primeiros pensamentos.
Quem somos?
O que define uma pessoa?
A nossa consciência está ligada apenas ao corpo biológico ou existe algo maior nas histórias que carregamos?
Ao apresentar seres artificiais carregando memórias humanas, L.Z.X. Maia cria uma reflexão extremamente poderosa sobre a própria ideia de humanidade. Talvez aquilo que nos torna humanos não esteja apenas em nossa carne, mas nas lembranças que construímos, nas relações que criamos e nas experiências que deixam marcas em nossa existência.
O livro também apresenta uma das ideias mais antigas e fascinantes da humanidade: o desejo pela imortalidade.
Durante milhares de anos, buscamos formas de superar a morte. Criamos mitos, religiões e histórias sobre a possibilidade de viver para sempre. Mas Fim das Religiões olha para essa ideia por outro ângulo e faz uma pergunta desconfortável:
se conseguíssemos escapar da morte, ainda saberíamos dar valor à vida?
A finitude é uma parte essencial da experiência humana. Saber que o tempo é limitado transforma nossas escolhas em algo precioso. Nossos momentos possuem significado justamente porque não podem ser repetidos infinitamente.
Mas o que acontece quando a existência deixa de ter um fim?
A eternidade seria realmente uma bênção?
Ou poderia se transformar em uma prisão?
Essas são perguntas que tornam a obra muito mais do que uma história sobre androides. No fundo, ela fala sobre nós mesmos, sobre nossos desejos e sobre os medos que carregamos quando imaginamos o futuro.
Outro aspecto que me chamou atenção foi a forma como o livro trabalha a ideia das diferenças.
Mesmo em um futuro onde humanos desapareceram e novas formas de existência surgiram, permanece uma característica que parece acompanhar qualquer sociedade: a dificuldade de enxergar aquilo que temos em comum.
Ao longo da história, criamos barreiras por causa de crenças, ideologias, culturas e inúmeras outras diferenças. Muitas vezes, esquecemos que aquilo que nos conecta é muito maior do que aquilo que nos separa.
E essa é uma das mensagens mais humanas de Fim das Religiões: no fim, independentemente de sermos feitos de células ou circuitos, ainda carregamos a necessidade de compreender quem somos e qual é o nosso lugar no universo.
A experiência de leitura também é algo que merece destaque. O livro não entrega todas as suas respostas imediatamente. Ele exige atenção, paciência e disposição para acompanhar a jornada de Aleph.
É uma narrativa que vai construindo suas ideias aos poucos, permitindo que o leitor descubra junto com o personagem os significados escondidos naquele mundo.
Em uma conversa sobre o título da obra, o próprio autor comentou sobre a ideia de uma “iluminação” que não acontece de forma instantânea. E talvez essa seja exatamente a sensação proporcionada pela leitura.
As peças vão se encaixando gradualmente.
As perguntas vão ganhando novos significados.
E, quando determinados momentos da história chegam, a visão sobre o próprio título do livro muda completamente.
É aquele tipo de revelação que faz o leitor parar por alguns segundos e repensar tudo aquilo que acabou de ler.
Fim das Religiões é uma prova de que a ficção científica brasileira tem muito a oferecer. Ela não precisa apenas imaginar futuros distantes ou tecnologias impossíveis. Ela pode falar sobre nossas angústias, nossos sonhos e sobre aquilo que nos torna humanos.
Porque, no fim, a grande questão do livro foi sobre memória, existência, e a necessidade de deixar algo para trás quando um dia não estivermos mais aqui.
Talvez a pergunta mais importante deixada pela obra seja justamente essa:
Se você pudesse viver para sempre em um corpo artificial, carregando todas as suas memórias, você ainda se consideraria humano?
Contato
Somos apaixonados por ficção científica e gostamos de falar sobre ela de todas as formas possíveis. Com mais de 7 anos no ar no Instagram, e mais de 200 livros sobre o gênero lidos, estamos com a missão de propagar a ficção científica pelo planeta terra (e marte futuramente rs), além de fomentar a literatura da sci-fi nacional.
É um prazer ter você conosco nessa viagem espacial!
Email:
contato@umleitordescifi.com.br
© 2026. All rights reserved.
Quem somos nós?
Fale conosco para sugestões e parcerias
Comente essa publicação ou faça sua sugestão para melhorar o site:
@umleitordescifi
Instagram:
Receba no seu e-mail as novas publicações. Se inscreve.

