Ficção científica nacional que imagina um futuro onde só as máquinas existem está em campanha no Catarse
Em entrevista, Rodrigo Ortiz fala sobre Natureza Sintética (um documentário), obra que mistura drones autônomos, colapso humano e crítica tecnológica em uma distopia criada no cenário independente brasileiro.
NOTÍCIAS SCI-FI
Michael Douglas
5/16/20264 min read


Enquanto grandes franquias internacionais continuam dominando o imaginário da ficção científica no cinema e na literatura, autores brasileiros independentes vêm construindo universos próprios, explorando temas contemporâneos e apostando em modelos alternativos de publicação para colocar suas histórias no mundo. Um desses casos é o novo projeto do autor Rodrigo Ortiz, que busca financiamento coletivo para lançar o livro Natureza Sintética (um documentário).
A obra imagina um planeta onde a humanidade desapareceu, mas as máquinas criadas para a guerra continuaram funcionando, evoluindo e disputando território. A ideia surgiu em meio às notícias constantes sobre o conflito entre Rússia e Ucrânia e o avanço do uso de drones militares.
Segundo Rodrigo Ortiz, o ponto de partida veio justamente da observação da tecnologia bélica contemporânea. Ele explica que começou a pensar em “como essa tecnologia poderia evoluir” e em seguida percebeu que queria contar uma história protagonizada por máquinas que não fossem humanizadas. “O que aconteceria se a narração acompanhasse máquinas que, por avançadas que sejam, ainda não são ‘pensantes’?”, disse o autor.
A proposta acabou encontrando força em um formato incomum. Em vez de seguir uma narrativa tradicional, Natureza Sintética (um documentário) assumiu uma estrutura quase documental. “A própria linguagem desse formato ditou os rumos da história”, afirmou.
O ecossistema das máquinas
Um dos aspectos mais interessantes da obra é a maneira como ela transforma máquinas de guerra em parte de um ecossistema funcional. Em vez de robôs conscientes dominando o mundo, o universo retrata sistemas automáticos apenas tentando continuar operando.
Rodrigo Ortiz explica que ficou fascinado pela lógica evolutiva desse cenário. “Se uma arma automática usa acompanhamento de movimento ou calor, como algo poderia sobreviver a ela? Se há necessidade de manutenção ou de remuniciar uma máquina, que outros sistemas precisavam continuar funcionais?”, questiona.
Na história, parte das máquinas continua seguindo protocolos antigos, enquanto outras acabam se adaptando às novas condições do planeta. Um dos principais grupos da narrativa são os chamados Drones-de-Crista, envolvidos em disputas territoriais constantes.
“Eles estão em uma briga por território com outros drones e máquinas, e a lei da sobrevivência os leva a adaptações físicas e técnicas”, explicou o escritor.
Ao mesmo tempo, o autor destaca que várias estruturas automatizadas seguem operando mesmo sem propósito humano. “Armas automáticas, minitransportadores de suprimentos e máquinas agrícolas tenderão a fazer o que sempre fizeram, mesmo em um mundo que não precisa mais deles da mesma forma.”
Ficção científica nacional e crítica tecnológica
A obra também reflete uma preocupação crescente da ficção científica contemporânea: a dependência excessiva de sistemas automatizados e inteligência artificial.
Rodrigo Ortiz afirma que sempre teve uma postura crítica em relação ao militarismo e às cadeias produtivas destrutivas. Para ele, o crescimento das IAs apenas intensificou essas preocupações.
“A responsabilidade, para o bem ou para o mal, é nossa”, afirmou. Ele cita inclusive uma frase atribuída à IBM presente na abertura do livro: “Um computador nunca pode ser responsabilizado. Portanto, um computador nunca deve tomar uma decisão gerencial.”
Esse tipo de abordagem mostra como a ficção científica brasileira vem se aproximando de discussões globais sem abandonar perspectivas próprias. Em vez de reproduzir apenas modelos estrangeiros, autores independentes têm usado o gênero para discutir tecnologia, política, colapso ambiental e comportamento humano sob um olhar nacional.
Um pós-apocalipse próximo da realidade
Visualmente, o universo descrito em Natureza Sintética (um documentário) evita exageros futuristas e aposta em uma estética mais próxima da realidade contemporânea.
A trama se passa principalmente em uma região chamada Campo de Batalha, marcada por crateras, armadilhas e destroços de antigas máquinas militares. Ao redor existem áreas industriais em ruínas que evoluíram para enormes centros automatizados de produção e regiões agrícolas desertificadas onde máquinas gigantes ainda operam, mesmo sem humanos para consumir os alimentos.
A influência de obras clássicas também aparece de maneira clara. Rodrigo Ortiz cita a franquia O Exterminador do Futuro como referência para a distopia tecnológica, além da série literária Cantos de Hyperion pelos debates sobre inteligência artificial e ética.
Nos games, uma influência direta foi Tokyo Jungle, conhecido por mostrar animais sobrevivendo em uma Tóquio abandonada.
O papel do Catarse na sobrevivência da literatura independente
Além do universo ficcional, o projeto também chama atenção por representar um modelo cada vez mais importante para autores brasileiros: o financiamento coletivo.
Para muitos escritores independentes, campanhas no Catarse não funcionam apenas como pré-venda, mas como a única maneira viável de viabilizar produção, revisão, impressão e distribuição.
“Campanhas como essa não são de pré-venda, mas sim um financiamento que vai garantir que consigamos colocar o livro no mundo”, explicou Rodrigo Ortiz.
Ele destaca que o apoio cobre desde preparação e diagramação até impressão e envio dos exemplares. “Cada livro é um sonho, e realizá-los é vital.”
A fala resume uma realidade cada vez mais comum no mercado nacional. Com editoras reduzindo riscos e apostando em nomes já consolidados, muitos autores de ficção científica acabam encontrando no financiamento coletivo uma forma de construir público diretamente com os leitores.
Um cenário em expansão
Mesmo ainda distante do tamanho do mercado norte-americano, a ficção científica brasileira vive um momento de expansão criativa. Editoras independentes, campanhas coletivas e comunidades online vêm abrindo espaço para obras mais experimentais, autorais e ousadas.
Projetos como Natureza Sintética (um documentário) mostram que o gênero nacional não está apenas reproduzindo fórmulas internacionais, mas tentando criar novas perspectivas sobre tecnologia, colapso social e futuro.
E talvez a imagem que melhor resuma isso seja justamente a cena descrita pelo próprio Rodrigo Ortiz: tiros automáticos atravessando a noite de um campo devastado, enquanto pequenos roedores aprendem a sobreviver em meio às máquinas que herdaram a Terra.
O financiamento coletivo da obra continua até o dia 03/07/2026, e você pode apoiar clicando aqui.
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