Entrevistamos Roberto Fideli, finalista do Prêmio Argos 2026

Autor de Nenhum Funeral para os Mortos, finalista na categoria Melhor Romance, conversa com o Um Leitor de Sci-fi sobre sua obra e sua trajetória na literatura especulativa brasileira.

REFLETINDO FICÇÃO CIENTÍFICA

Michael Douglas

10/11/20266 min read

A ficção científica não precisa imaginar futuros melhores ou apresentar soluções para os problemas da humanidade. O gênero também pode nos colocar diante de cenários desconfortáveis, sociedades que não evoluíram como gostaríamos e histórias que terminam sem oferecer respostas fáceis. É nessa direção que Roberto Fideli descreve Nenhum Funeral para os Mortos, romance que está entre os finalistas do Prêmio Argos 2026.

Realizado pelo Clube de Leitores de Ficção-Científica (CLFC), o Prêmio Argos reconhece a produção de literatura fantástica original em português. Para Fideli, a indicação representa um reconhecimento especialmente significativo, não apenas pela importância do prêmio, mas também por acontecer em um momento em que ainda considera estar no início de sua carreira como escritor.

Em entrevista ao Um Leitor de Sci-fi, o autor contou que recebeu a notícia com surpresa, explicou por que acredita na força de sua história e compartilhou conselhos para quem deseja começar a escrever. Sua fala também revela uma questão interessante sobre a ficção científica brasileira: há espaço para histórias que não buscam necessariamente oferecer esperança, mas confrontar o leitor com aquilo que incomoda.

Uma indicação inesperada

A notícia da indicação pegou Roberto Fideli desprevenido. O autor conta que já havia inscrito Nenhum Funeral para os Mortos em outra premiação, a Odisseia de Literatura Fantástica, mas o livro não ficou entre os finalistas. Com isso, ele havia perdido parte das expectativas de receber algum reconhecimento naquele momento.

Fideli também afirma que não fez campanha para divulgar o romance entre os integrantes do CLFC e que havia recomendado a leitura da obra no grupo apenas uma vez ao longo daquele ano. Por isso, abrir o e-mail e descobrir que estava entre os finalistas foi uma surpresa ainda maior.

Embora já tivesse sido indicado anteriormente, pela coletânea Histórias mais ou menos assustadoras, na qual participou como co-editor, esta é a primeira vez que recebe uma indicação individual por um livro próprio.

Em entrevista ao Um Leitor de Sci-fi, Roberto Fideli descreveu a reação à notícia:

“Eu tomei um puta susto! Realmente não estava esperando. E eu tinha inscrito esse livro na Odisseia de Literatura Fantástica e ele não ficou entre os finalistas então eu tava muito descrente. Aí eu não fiz campanha, não fiquei falando no grupo do CLFC sobre o livro, acho que este ano todo só recomendei a leitura dele uma vez (nesse grupo). Aí, eis que abro o e-mail e lá está ele! Fiquei muito, muito surpreso, mas do jeito mais feliz possível. É a primeira vez que sou indicado ao prêmio "sozinho", por assim dizer - eu tinha sido indicado uma outra vez por uma coletânea chamada "Histórias mais ou menos assustadora", como editor. Então essa é a primeira vez com o livro. Fiquei muito feliz. Ainda estou muito feliz”

Uma ficção científica que confronta o leitor

Ao falar sobre a possibilidade de ser finalista, Fideli explica que, embora não seja possível escrever uma obra esperando que ela ganhe um prêmio, o desejo de reconhecimento existe. Para ele, ser reconhecido por pessoas que conhecem bem o gênero literário torna a indicação ainda mais especial.

O autor afirma que tinha confiança no texto e na história que contou, mas também reconhecia que seu romance seguia uma direção diferente daquela que identifica em parte da ficção científica contemporânea. Na sua percepção, muitas obras do gênero procuram imaginar futuros melhores, sociedades que evoluem e personagens que conseguem resolver seus problemas.

Nenhum Funeral para os Mortos segue outro caminho. Fideli define o livro como raivoso e melancólico, sem um final feliz ou uma solução prática e simples para os problemas apresentados. Isso não significa, como ele próprio ressalta, que os demais livros brasileiros de ficção científica sejam necessariamente otimistas, mas que percebe uma diferença de tom entre sua obra e parte dessa produção.

A indicação ao Prêmio Argos, portanto, tem um significado que vai além da possibilidade de vencer uma premiação. Para o escritor, ela demonstra que uma literatura de confrontamento também pode encontrar espaço e reconhecimento entre os leitores do gênero.

Outro aspecto que chamou sua atenção foi estar entre os finalistas ao lado de autores já estabelecidos e conhecidos do fandom, enquanto ele ainda considera estar construindo sua trajetória. Nesse contexto, saber que sua história conseguiu chegar a esse espaço representa uma conquista importante.

“Não dá pra escrever qualquer material esperando que ele ganhe um prêmio, mas querer a gente quer, né? Queremos que o nosso trabalho seja de algum modo reconhecido e ainda mais por pessoas que conhecem tão bem esse gênero literário. Mas eu tinha fé no texto e na história que eu contei, apesar de eu achar que ela vai muito numa contra-corrente do que tá sendo feito, que me parece ser uma literatura de gênero que busca imaginar futuros melhores e cenários em que as pessoas resolvem seus problemas e que nós como sociedade evoluímos. E este é um livro raivoso, e melancólico, que não oferece um final feliz ou uma solução prática nem simples para nossos problemas. Não que os demais livros de sci-fi brasileiros façam isso, mas eu sinto que eles têm um tom mais otimista. Então é legal saber que esse tipo de literatura de confrontamento que eu escrevo ainda tem seu lugar. E também foi muito interessante ver que dos cinco indicados, todos já eram escritores estabelecidos (...)

conhecidos do fandom, e eu não, eu ainda tô no começo da minha carreira. Mas eu sinto que isso demonstra que essa história ainda tem um poder, uma força, e esse é o melhor reconhecimento que eu poderia ter.”

O conselho de Roberto Fideli para quem quer escrever

Para quem deseja começar uma trajetória na literatura, Roberto Fideli oferece um conselho direto: ler muito, ler de tudo e escrever bastante.

A recomendação parte de uma realidade que acompanha qualquer escritor. Não há como prever com segurança a reação do público a uma obra. Um livro pode ser prestigiado, rejeitado, criticado ou até receber um reconhecimento inesperado. O autor não tem controle sobre todos esses resultados, mas pode continuar trabalhando para aprimorar sua escrita e desenvolver suas ideias.

Isso significa investir na técnica, ampliar o vocabulário, explorar novos recursos narrativos e persistir mesmo quando o reconhecimento não chega imediatamente. A indicação de Nenhum Funeral para os Mortos também ilustra essa imprevisibilidade: Fideli não esperava estar entre os finalistas, mas agora vê sua história alcançar um espaço que considera significativo.

Ao deixar uma mensagem para os escritores iniciantes, ele reforça a importância de acreditar no próprio trabalho sem perder de vista a necessidade de continuar aprendendo.

“Pra escritores iniciantes, o melhor conselho que eu posso dar é ler muito e de tudo, e escrever muito. A gente não consegue prever qual vai ser a reação do público, se nosso material vai ser prestigiado ou rejeitado ou atacado, muito menos se ele vai ser contemplado em um prêmio. O que a gente pode fazer é trabalhar sempre pra entregar o melhor material possível e acreditar nas nossas ideias, no nosso esforço. Seguir em frente e ir melhorando nossa técnica, nosso vocabulário, nossos recursos. E, claro, sempre torcer para que o reconhecimento um dia venha.”

A indicação de Roberto Fideli ao Prêmio Argos 2026 é uma oportunidade para conhecer um autor que aposta em uma ficção científica menos preocupada em oferecer respostas e mais interessada em confrontar o leitor. Sua reação à notícia também mostra como o reconhecimento pode ter um significado particular para quem ainda está construindo seu espaço na literatura.

Para a ficção científica brasileira, histórias como essa ajudam a mostrar que o gênero comporta diferentes perspectivas, inclusive aquelas que não prometem um futuro melhor. Às vezes, imaginar o amanhã também significa encarar as contradições do presente sem a garantia de que tudo terminará bem.


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