Entrevistamos Eliza Telles, produtora e atriz de curta YBI que imagina uma Amazônia em 2051
Inspirado por acontecimentos reais, experiências na Amazônia e preocupações ambientais, o curta brasileiro de ficção científica imagina um futuro distópico em que a busca por terras férteis se torna uma questão de sobrevivência. Em entrevista ao Um Leitor de Sci-fi, Eliza Telles falou sobre as origens do projeto, os desafios das gravações e os planos para transformar a história em um longa-metragem.
REFLETINDO FICÇÃO CIENTÍFICA
Michael Douglas
10/16/20267 min read
A ficção científica tem a capacidade de nos colocar diante de futuros que parecem distantes, mas que, quando olhamos com mais atenção, já apresentam sinais no nosso presente. Em YBI, curta-metragem brasileiro produzido por Eliza Telles, que também atua na obra, essa possibilidade ganha forma em um mundo marcado pela escassez de terras férteis e por condições ambientais cada vez mais hostis à vida.
Durante o filme, acompanhamos uma personagem em busca de um lugar onde seja possível encontrar terra fértil e continuar vivendo. A narrativa não coloca sua protagonista na posição de alguém que precisa salvar o mundo, mas de uma pessoa que tenta sobreviver dentro de uma realidade que parece caminhar para o colapso. Essa escolha aproxima a ficção científica de uma preocupação bastante concreta: o que acontece quando as condições necessárias para a vida começam a desaparecer?
A atmosfera sufocante, os cenários degradados e o contraste entre a aridez e a possibilidade de encontrar uma terra verde ajudam a construir essa sensação. Há momentos em que a obra nos remete visualmente a produções como Duna, não necessariamente pela construção de um universo semelhante, mas pela maneira como o ambiente hostil participa da narrativa e influencia a jornada da personagem.
Para entender de onde surgiu essa história, conversamos com Eliza Telles, produtora e atriz de YBI. Na entrevista ao Um Leitor de Sci-fi, ela contou que o projeto reúne experiências pessoais, referências culturais, acontecimentos ambientais e reflexões sobre a relação entre os seres humanos e a Amazônia. A cineasta também falou sobre as dificuldades enfrentadas durante as gravações e revelou o que pretende explorar na futura versão em longa-metragem.
Uma história que nasce da realidade
A criação de YBI está ligada à relação de Eliza com a Amazônia, região que ela visita há dez anos. Casada com o manauara Bege Muniz, que roteiriza e dirige o filme ao lado dela, a cineasta explica que a ideia surgiu do encontro entre diferentes experiências e acontecimentos que marcaram sua trajetória.
Um dos momentos decisivos ocorreu após as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul. Ao chegar a Porto Alegre, logo depois da reabertura do aeroporto, Eliza encontrou uma cidade profundamente marcada pela tragédia. Foi em uma cafeteria, diante daquele cenário de melancolia, que começou a escrever a história.
Entretanto, as raízes do projeto são anteriores. Eliza trabalhava com o diretor e dramaturgo Francisco Carlos em uma peça chamada Cosmos Amazônico, que abordava questões relacionadas à floresta, às culturas indígenas e às possibilidades de resposta à destruição ambiental. O projeto não chegou a ser concluído após a morte de Francisco durante a pandemia, mas algumas das ideias desenvolvidas naquele período permaneceram com ela.
Essas referências se encontraram com a terra preta, associada pela cineasta à ideia de uma terra prometida, e com o mito guarani de uma terra que precisa ser alcançada por meio de uma travessia. A partir desses elementos, a história começou a ganhar forma.
A experiência de acompanhar as transformações da Amazônia também foi fundamental. Eliza relembra a seca extrema de 2024 e demonstra preocupação com a possibilidade de novos períodos ainda mais severos. Para ela, a história não foi construída a partir de um desastre ambiental imaginado sem relação com o mundo real, mas de problemas que já são estudados e discutidos por pesquisadores.
Essa preocupação também passa pela maneira como a floresta e os povos indígenas são representados. Eliza contou que seu avô foi um dos primeiros aviadores brancos a chegar a diversas comunidades indígenas, por trabalhar na Aeronáutica. Na família, havia uma percepção de que ele teria ajudado a salvar as florestas. Com o tempo, porém, ela passou a questionar essa interpretação e a refletir sobre como a chegada de pessoas de fora também pode contribuir para a perda de culturas e conhecimentos tradicionais.
Essa reflexão aparece na relação entre o cientista e a menina dentro da narrativa. Mais do que apresentar a Amazônia como um território a ser explorado ou compreendido por quem vem de fora, a cineasta queria discutir a importância de aprender com as pessoas que vivem naquele ambiente.
Gravar uma distopia em meio a dificuldades reais
Se a construção do universo de YBI exigiu pesquisa e reflexão, levar esse mundo para as telas também trouxe desafios consideráveis. Segundo Eliza, a produção precisava de diversas locações que nem sempre estavam disponíveis ou tinham autorização para filmagem, especialmente quando envolviam áreas desmatadas.
A solução encontrada foi pouco convencional. Em parte das gravações, Eliza e Bege Muniz, que também dirige o filme, iam até os locais com o carro, ela já caracterizada como a personagem, colocava a mochila e a máscara e começava a gravar. Quando percebiam que alguém poderia questionar a presença da equipe, voltavam para o veículo e saíam.
De acordo com a cineasta, a equipe teve apenas três diárias de gravação no formato convencional. As outras cinco diárias seguiram essa dinâmica de produção em locações difíceis de acessar.
O filme também contou com apoios importantes, incluindo a Secretaria de Meio Ambiente de Manaus, que ajudou a viabilizar gravações em um parque abandonado, uma escola pública de Manaus, que permitiu filmagens em uma área com grande acúmulo de lixo, e o Instituto de Pesquisas da Amazônia, citado por Eliza como apoio para as cenas realizadas em laboratório.
Outro elemento importante foi a utilização de efeitos práticos. A fumaça aparece como um dos recursos mais usados na construção da atmosfera do curta, contribuindo para a sensação de sufocamento e para a representação de um ambiente degradado.
O processo revela uma característica interessante da produção: a tentativa de construir uma distopia com recursos analógicos e soluções encontradas durante as gravações. Ao mesmo tempo, as dificuldades enfrentadas para filmar em áreas degradadas mostram como a realização de uma obra com preocupações ambientais pode esbarrar em obstáculos bastante concretos.
O que a ficção científica pode dizer sobre a Amazônia?
A Amazônia já foi representada de diferentes maneiras no cinema brasileiro, frequentemente associada à natureza, ao passado, à exploração e aos conflitos territoriais. Em YBI, a floresta também é um espaço de futuro, um território que atravessa uma narrativa de ficção científica e ajuda a imaginar as consequências de problemas que já conhecemos.
Para Eliza, essa é justamente uma das possibilidades mais importantes do gênero: mostrar um futuro possível caso a humanidade não mude seus caminhos.
A cineasta acredita que a ficção científica permite olhar para aquilo que pode acontecer se a exploração continuar, se as estruturas responsáveis por esses problemas permanecerem intactas e se não houver mudanças suficientes para interromper esse processo.
A proposta não é apenas mostrar que a exploração ilegal de madeira e a destruição ambiental existem. É imaginar o que pode acontecer se continuarmos tratando essas questões como problemas que podem ser deixados para depois.
Essa abordagem faz com que a distopia de YBI ultrapasse a ideia de um futuro distante. A escassez de terras férteis e a hostilidade do ambiente tornam-se consequências possíveis de uma realidade que já apresenta sinais de degradação.
A Amazônia, nesse contexto, deixa de ser apenas um cenário e passa a ocupar uma posição central na reflexão sobre o futuro. A pergunta que atravessa essa proposta é simples, mas inquietante: como será o amanhã se não mudarmos a maneira como nos relacionamos com a floresta?
YBI pode ganhar uma versão em longa-metragem
Eliza também confirmou que o universo de YBI está em desenvolvimento para uma versão em longa-metragem. A nova produção pretende aprofundar questões que não puderam ser exploradas no curta, ampliando tanto a dimensão tecnológica daquele mundo quanto a organização social de seus habitantes.
Entre os elementos que devem ganhar mais espaço estão as cidades distantes da floresta, as diferenças entre riqueza e pobreza e a maneira como essa sociedade se divide. A cineasta também pretende explorar melhor a tecnologia em um ambiente de floresta desertificada e as estruturas de poder que determinam quem controla a Amazônia naquele futuro distópico.
Outro ponto importante será o desenvolvimento das relações pessoais. A história deve aprofundar a ruptura entre Ana e seu pai, além de explorar a maneira como Maria e o próprio pai vivem em um ambiente extremamente hostil, no qual a sobrevivência é difícil mesmo para aqueles que parecem estar isolados do restante da sociedade.
Essa ampliação pode permitir que o universo apresentado no curta seja compreendido para além da jornada individual de sua protagonista. Ao explorar as cidades, as desigualdades sociais e as estruturas de poder, o longa poderá mostrar como as transformações ambientais também reorganizam a vida humana, criando novas formas de controle e aprofundando diferenças que já conhecemos.
YBI parte de uma preocupação ambiental para construir uma história de ficção científica, mas seu interesse não está apenas em imaginar um planeta degradado. A obra também nos convida a pensar nas pessoas que precisam continuar vivendo nele, nas culturas que podem desaparecer e nas escolhas que nos conduzem até esse futuro.
É justamente nessa aproximação entre o presente e a distopia que o curta encontra sua força. Afinal, imaginar o fim das condições necessárias para a vida não é apenas um exercício de especulação sobre o amanhã. É também uma maneira de olhar para o que estamos fazendo hoje.


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