Em 6 Voltas Depois, a ameaça alienígena importa menos do que a reação humana

Conversamos com Rodrigo Dahia, autor de 6 Voltas Depois, sobre medo, guerra, sociedade e o futuro da ficção científica. Seria a ficção científica, um exercício de olhar para a humanidade mesmo quando fala sobre alienígenas?

REFLETINDO FICÇÃO CIENTÍFICA

Michael Douglas

5/30/20264 min read

Conversamos com Rodrigo Dahia, autor de 6 Voltas Depois, sobre medo, guerra, sociedade e o futuro da ficção científica.

Existe algo fascinante na ficção científica quando ela para de tentar prever o futuro e começa a dissecar o presente. Talvez seja por isso que tantas obras do gênero permaneçam atuais décadas depois de terem sido escritas. Não importa se estamos falando de invasões alienígenas, inteligências artificiais ou viagens interestelares. No fundo, quase sempre estamos falando sobre nós mesmos.

É exatamente essa sensação que atravessa 6 Voltas Depois, livro do autor brasileiro Rodrigo Dahia. A obra parte de uma premissa clássica da SciFi: a humanidade encontra sinais de vida inteligente em um planeta próximo. O encanto da descoberta, porém, dura pouco. Um ataque devastador destrói grandes cidades da Terra e joga a civilização à beira do colapso.

Décadas depois, nasce a Vingança Humana, organização criada para retaliar o planeta alienígena Cawken. Mas o que parecia uma missão simples de destruição se transforma em algo muito mais complexo quando os personagens começam a confrontar não apenas o inimigo, mas também os próprios conceitos de humanidade, medo e violência.

Conversamos com Rodrigo Dahia sobre os bastidores da obra, os desafios de escrever ficção científica no Brasil e o papel do gênero em uma sociedade cada vez mais acelerada tecnologicamente.

O medo humano como ponto de partida

Perguntado sobre a ideia central que deu origem ao livro, Rodrigo deixa claro que o foco nunca foi apenas a ameaça alienígena.

“Acho que a ideia central por trás de 6 Voltas Depois foi elaborar sobre as reações humanas em geral a uma situação estranha e hostil.” disse o autor.

O autor explica que a narrativa acompanha tanto Robert Tillen, protagonista enviado ao planeta inimigo, quanto a própria humanidade reagindo à crise.

“Uma abordagem sobre como o medo e a raiva podem coexistir com a curiosidade e a afeição, ou sobre como é possível ir de um lado a outro de uma balança tão bem estabelecida.” Explica Rodrigo.

Talvez essa seja uma das características mais interessantes da boa ficção científica moderna. O alienígena deixa de ser apenas um monstro externo e passa a funcionar como um espelho psicológico da sociedade humana. Algo que obras como A Mão Esquerda da Escuridão, de Ursula Le Guin, e Solaris, de Stanisław Lem, já exploravam há décadas.

Ficção científica como ferramenta social

Apesar da ambientação futurista e dos conceitos espaciais, Rodrigo afirma que a história conversa diretamente com o presente.

“Gosto de pensar que o livro traz uma visão realista da humanidade, mas não necessariamente do futuro. Apesar de se passar num ‘futuro do pretérito’, a história conversa muito com nossa sociedade dos dias de hoje.”

É impossível não associar isso ao momento atual das redes sociais, polarizações políticas e conflitos ideológicos constantes. Em muitas obras SciFi, a tecnologia serve apenas como cenário. O verdadeiro conflito continua sendo humano.

E Rodrigo parece enxergar exatamente isso no gênero.

“Acho que o enfoque deve ser mais introspectivo, com os cenários fictícios de futuro servindo para que possamos discutir o caminho para onde estamos indo em termos de sociedade.”

Ele cita inclusive Ursula Le Guin como referência desse olhar mais humano da ficção científica.

Entre ciência e imaginação

Ao contrário da chamada hard sci-fi, onde existe um compromisso técnico extremamente rigoroso com conceitos científicos reais, 6 Voltas Depois utiliza a ciência mais como mecanismo narrativo.

“Pouco da ficção científica da obra é inspirada em pesquisas reais” revela o autor.

Ainda assim, Rodrigo revela que brincou com algumas hipóteses físicas levadas ao extremo.

“Se encontrarmos uma partícula responsável pela força gravitacional, poderíamos gerar gravidade artificial com ela? Ou seria possível gerar uma reação em cadeia capaz de afetar um planeta inteiro, com ogivas nucleares?”

O interessante é que o autor entende esses conceitos não como protagonistas, mas como ferramentas para impulsionar os dilemas humanos.

“O principal é que esses pontos são só apêndices da trama. Um meio, e não um fim em si mesmos.”

Essa abordagem lembra muito a tradição da chamada ficção científica sociológica, onde os avanços tecnológicos importam menos do que o impacto deles sobre comportamento, política e cultura.

O desafio de criar mundos imperfeitos

Uma das respostas mais sinceras da entrevista talvez tenha vindo quando perguntamos sobre o maior desafio ao criar esse universo e personagens. O autor foi honesto em dizer: “Aceitar a imperfeição deles, com certeza.”

Rodrigo comenta como é difícil para autores de ficção especulativa lidar com os inevitáveis furos de lógica que surgem em mundos complexos.

“Se você se aprofundar nos detalhes, vai perceber que uma coisinha ou outra não encaixam, e isso pode incomodar o lado perfeccionista de quem tá jogando um filho para outros lerem.”

Para ele, o segredo está em duas palavras: verossimilhança e consistência interna.

As regras não precisam funcionar no nosso mundo. Elas só precisam funcionar dentro do universo criado.

A ficção científica perdeu seu lado tecnologicamente profético?

Ao falar sobre o papel da ficção científica hoje, Rodrigo toca num ponto interessante: talvez o gênero tenha mudado porque o próprio mundo mudou.

“A velocidade com a qual a tecnologia evolui acelerou assustadoramente, e talvez isso tenha dificultado o lado profético do SciFi.” declara.

É uma observação pertinente. Durante décadas, a ficção científica parecia prever o futuro com frequência assustadora. Hoje, porém, a realidade tecnológica avança tão rápido que muitas vezes ultrapassa a própria imaginação dos autores.

Talvez por isso tantas obras recentes estejam menos preocupadas em prever gadgets futuristas e mais interessadas em discutir ansiedade, identidade, isolamento e comportamento coletivo.

Nesse sentido, 6 Voltas Depois parece seguir exatamente esse caminho. Não é apenas uma história sobre guerra espacial. É uma história sobre reação humana diante do desconhecido.

E talvez essa continue sendo a principal função da ficção científica: usar o impossível para falar sobre aquilo que é profundamente humano.

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