Editora Bandeirola lança pré-campanha para publicação de dois livros sobre ficção científica
Projeto prevê nova edição de pesquisa de M. Elizabeth Ginway sobre a ficção científica brasileira e coletânea de artigos e entrevistas do jornalista André Cáceres.
NOTÍCIAS SCI-FI
Michael Douglas
11/7/20267 min read
Foto: Divulgação Editora Bandeirola
A Editora Bandeirola iniciou uma pré-campanha de financiamento coletivo para viabilizar a publicação de dois livros dedicados aos estudos da ficção científica. Os títulos integram a coleção Bandeirola Ensaio e Crítica: Ficção Científica Brasileira: Mitos Culturais e Nacionalidade no País do Futuro, da pesquisadora americana M. Elizabeth Ginway, e Territórios do Amanhã: Literatura Especulativa – Artigos e Entrevistas, do jornalista, escritor e crítico literário André Cáceres.
As publicações reúnem perspectivas complementares sobre o gênero. Enquanto o estudo de Ginway investiga como a ficção científica brasileira incorporou e reinterpretou questões históricas, políticas e culturais do país, a coletânea de Cáceres apresenta um panorama de diferentes momentos, autores e vertentes da literatura especulativa, reunindo artigos críticos e entrevistas com escritores.
A iniciativa reforça a proposta da Bandeirola de ampliar o espaço dedicado à reflexão sobre a ficção de gênero, aproximando leitores, pesquisadores e autores interessados na ficção científica.
Ficção Científica Brasileira: um estudo fundamental sobre a identidade nacional
Publicado originalmente em 2004 nos Estados Unidos, com o título Brazilian Science Fiction, o livro de M. Elizabeth Ginway tornou-se uma das principais referências acadêmicas sobre a ficção científica produzida no Brasil. A obra chegou ao público brasileiro em tradução publicada em 2005 e ganha agora uma nova edição revista e ampliada pela Bandeirola.
O estudo investiga como a ficção científica brasileira, mesmo historicamente marginalizada pela crítica literária, desenvolveu características próprias ao adaptar elementos e convenções do gênero, tradicionalmente associados à produção anglo-americana, às particularidades culturais, políticas e sociais do país.
Ginway analisa a relação entre a ficção científica e os projetos de modernização brasileira, especialmente a partir da década de 1960, período marcado por transformações políticas e sociais. A pesquisadora demonstra como narrativas do gênero incorporaram mitos nacionais, como a imagem do povo alegre e dócil e a ideia de uma terra fértil e abundante, ao mesmo tempo que questionaram as contradições desses imaginários.
A obra também aborda temas como repressão política, desigualdade, degradação ambiental, tecnologia, raça, classe e questões de gênero. Entre os elementos recorrentes analisados estão os robôs, os alienígenas, as espaçonaves, as cidades e as paisagens devastadas, ícones que, nas narrativas brasileiras, assumem significados relacionados à experiência histórica e cultural do país.
Outro destaque é a investigação das distopias brasileiras e da produção literária posterior à ditadura militar, quando novas vozes passaram a explorar questões ligadas à pós-modernidade, à globalização e às transformações sociais. O livro também dedica atenção à participação das mulheres na ficção científica nacional.
A nova edição contará com tradução e assessoria de Roberto de Sousa Causo, atualização terminológica realizada por George Amaral e um posfácio do professor Alexander Meireles da Silva, da Universidade Federal de Catalão. O texto, intitulado “O Futuro do País do Futuro: Configurações da Ficção Científica Brasileira no Século XXI”, apresenta uma atualização sobre a evolução da ficção especulativa nacional nas últimas décadas.
Para Meireles, a obra permite compreender como a ficção científica brasileira se articulou a um projeto de modernização do país e como o gênero passou a refletir as tensões e transformações da sociedade.
A própria autora destaca a expansão do campo de estudos: há mais de três décadas trabalhando com ficção especulativa brasileira e latino-americana, Ginway afirma ter acompanhado o crescimento do interesse e da produção literária e acadêmica nessa área, confirmando a importância que sempre atribuiu ao gênero.
A nova edição representa, assim, uma oportunidade de aproximar novas gerações de leitores, escritores e pesquisadores de um estudo pioneiro, fundamental para compreender as particularidades da ficção científica brasileira.
Territórios do Amanhã reúne artigos e entrevistas sobre a literatura especulativa
Em Territórios do Amanhã: Literatura Especulativa – Artigos e Entrevistas, André Cáceres reúne 26 textos publicados originalmente entre 2017 e 2022, período em que atuou como jornalista no jornal O Estado de S. Paulo. A coletânea apresenta um amplo panorama da ficção especulativa, com ênfase na ficção científica, abordando autores, obras e movimentos que contribuíram para a formação e a transformação do gênero.
Além dos artigos, o livro reúne 14 entrevistas com escritores e escritoras de destaque, permitindo que os próprios criadores apresentem suas ideias, influências e intenções literárias.
Entre os nomes abordados estão H. G. Wells, Ievguêni Zamiátin, Aleksandr Bogdanov, Karel Čapek, Isaac Asimov, Arthur C. Clarke, Arkady e Boris Strugatsky, Stanislaw Lem, Ursula K. Le Guin, Samuel R. Delany, Octavia Butler, Ray Bradbury, José J. Veiga, J. G. Ballard, Frank Herbert, Kim Stanley Robinson, John Scalzi, N. K. Jemisin, Ian McEwan, Nelson de Oliveira e Lu Ain Zaila.
A coletânea percorre diferentes períodos e vertentes da literatura especulativa, incluindo os pioneiros da ficção científica, a Golden Age (Era de Ouro), a New Wave (Nova Onda), a New Space Opera, o Cyberpunk, o Realismo Fantástico e o Afrofuturismo.
Também são contemplados escritores de diferentes tradições literárias, como Ann Leckie, Charlie Jane Anders, Dan Simmons, E. M. Forster, Fred Hoyle, James S. A. Corey, Joe Haldeman, Karin Boye, Neal Stephenson, Simon Stålenhag, Suzette Haden Elgin, Thea von Harbou e William Gibson.
Com espaço generoso nas páginas do jornal, especialmente nas edições de domingo, Cáceres desenvolveu artigos e resenhas que acompanharam a publicação e a circulação de importantes obras de ficção científica. O resultado é um conjunto que permite observar a evolução do gênero e sua presença crescente no mercado editorial.
Um dos pontos de partida da coletânea é a reflexão proposta pelo escritor Stanislaw Lem em Solaris: independentemente da distância que a humanidade consiga percorrer pelo universo, seu maior desafio talvez continue sendo compreender a si própria. A ideia sintetiza uma das questões centrais da ficção científica: utilizar o desconhecido, o futuro e o contato com outras formas de existência para investigar a própria condição humana.
A apresentação do livro é assinada pelo pesquisador, escritor e editor Roberto de Sousa Causo, que destaca a clareza, a inteligência e a capacidade de análise de Cáceres. Para ele, os textos demonstram a validade persistente da ficção científica como instrumento de compreensão do mundo contemporâneo.
Causo também observa que a seleção de obras e autores evidencia uma retomada do interesse editorial pelo gênero, especialmente depois de um período em que a fantasia e o horror ocuparam espaço predominante no mercado.
Na avaliação de Sandra Abrano, editora da Bandeirola, a ficção científica tem despertado interesse crescente das editoras brasileiras e internacionais, abrindo espaço para a publicação de novos autores nacionais e para a recuperação de obras importantes do passado.
Territórios do Amanhã reúne, portanto, material de interesse tanto para pesquisadores e estudiosos quanto para leitores apaixonados pela ficção especulativa, oferecendo diferentes caminhos para conhecer e compreender a história e as possibilidades do gênero.
A ficção científica em um momento de expansão
O lançamento dos dois títulos acontece em um período de crescente interesse pela ficção científica, tanto entre leitores quanto no mercado editorial. A ampliação do espaço destinado ao gênero também favorece a circulação de autores brasileiros e a recuperação de obras que ajudam a compreender sua trajetória.
Nesse cenário, os livros cumprem papéis complementares. O trabalho de Ginway oferece uma investigação acadêmica sobre a formação e as particularidades da ficção científica nacional, enquanto Cáceres apresenta um panorama crítico de autores, movimentos e obras que marcaram diferentes momentos da literatura especulativa.
A coleção Ensaio e Crítica, da Bandeirola, busca justamente contribuir para esse debate, publicando trabalhos de escritores e pesquisadores que aprofundam a reflexão sobre os gêneros literários.
Os autores
M. Elizabeth (Libby) Ginway é professora titular de Estudos Hispânicos e Portugueses na Universidade da Flórida, onde leciona disciplinas sobre literatura e cultura brasileiras, língua portuguesa e ficção científica brasileira e hispano-americana. É autora de Brazilian Science Fiction (Bucknell University Press, 2004), obra traduzida para o português e agora publicada em nova edição pela Bandeirola, e de Cyborgs, Sexuality, and the Undead: The Body in Mexican and Brazilian Speculative Fiction (Vanderbilt University Press, 2020).
André Cáceres é escritor, jornalista, crítico literário e editor. Autor dos livros de ficção científica Nebulosa (Patuá, 2021) e Esperando o dono (Caos & Letras, 2023), vencedor do Prêmio Odisseia de Literatura Fantástica e finalista do V Prêmio Internacional de Teatro Jovem. Escreve sobre literatura para o jornal O Estado de S. Paulo desde 2016, ministra oficinas de crítica literária no LabPub, foi jurado do Prêmio São Paulo de Literatura em 2024 e 2026 e edita publicações no Instituto Kunumi.
Como participar
A pré-campanha de financiamento coletivo segue até 11 de novembro de 2026, data prevista para o início oficial da campanha.
Durante essa etapa, os interessados que realizarem o cadastro receberão FlipBooks com trechos das duas obras e poderão participar do sorteio de um título da coleção Bandeirola Ensaio e Crítica, além de ter acesso a outros benefícios divulgados pela editora.
A campanha busca viabilizar a publicação dos dois títulos, ampliando o acesso a estudos e reflexões sobre a ficção científica e a literatura especulativa.
Para conhecer os projetos e acompanhar a campanha, acesse o site do Catarse clicando aqui.


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