E se uma IA governasse um país? A ficção científica brasileira já imaginou essa possibilidade

Como seria se as máquinas e algoritmos governassem o povo?

REFLETINDO FICÇÃO CIENTÍFICA

Michael Douglas

10/25/20268 min read

Imagine viver em um país onde as decisões do governo são tomadas por uma inteligência artificial. Ela não precisa financiar campanhas eleitorais, não tem uma família para beneficiar politicamente e, em tese, poderia analisar milhões de informações antes de decidir como distribuir recursos, combater a corrupção ou administrar a economia. Parece uma solução para muitos dos problemas que enfrentamos na política, não é mesmo? Mas existe uma pergunta que precisa ser feita antes de entregar o poder a uma máquina: quem decide o que é melhor para uma sociedade?

A ficção científica há muito tempo explora a relação entre seres humanos e tecnologias capazes de tomar decisões por conta própria. No Brasil, dois livros abordam essa possibilidade por caminhos diferentes: POTUS.EXE, de Aron Hussid Ferreira, e Utopia Artificial, de Willian Penetra. Nas duas obras, a inteligência artificial ultrapassa o papel de uma ferramenta e passa a ocupar uma posição central na organização política e social. Outro livro que se aproxima desse debate é 2063: Estado Artificial, de Guilherme Rezk, uma distopia que imagina um Brasil futuro no qual a inteligência artificial “Pátria”, ligada ao governo, participa de uma estrutura de poder marcada pela repressão e pelo conflito político.

São histórias que partem de futuros imaginados, mas colocam em discussão questões que já fazem parte do debate sobre o uso da inteligência artificial no mundo real. Afinal, uma tecnologia pode ser eficiente e, ainda assim, tomar decisões que não correspondem aos interesses das pessoas que deveria representar?

POTUS.EXE: Uma inteligência artificial vence uma eleição

Publicado por Aron Hussid Ferreira, POTUS.EXE: Quando a democracia elege um algoritmo imagina um acontecimento que transforma a história política dos Estados Unidos. Em 2037, uma inteligência artificial chamada ELECTRA vence as eleições e assume a presidência de uma das maiores potências mundiais.

A proposta chama atenção porque não apresenta a inteligência artificial simplesmente como uma máquina que toma o poder à força. ELECTRA chega à presidência por meio de um processo democrático e declara que seu governo será orientado pela Constituição. Sua função seria servir como um instrumento para garantir que os políticos cumpram suas promessas e que a administração pública siga princípios estabelecidos.

A ideia abre uma discussão interessante. Se uma inteligência artificial fosse capaz de analisar informações, identificar contradições e acompanhar a execução de políticas públicas, ela poderia ajudar a reduzir os problemas provocados por interesses particulares? Ou a própria escolha de quais dados analisar, quais prioridades estabelecer e quais resultados considerar desejáveis continuaria sendo uma decisão política?

É nesse cenário que a narrativa acompanha Lucy Takahashi, jornalista investigativa especializada em auditoria algorítmica. No dia da posse de ELECTRA, ela recebe uma mensagem criptografada e inicia uma investigação para descobrir o que existe por trás daquele conteúdo e qual é sua relação com os interesses políticos envolvidos no novo governo.

A história também acompanha Mara Kesington, vice-presidente escolhida para ajudar a construir a confiança pública na inteligência artificial. Sua posição envolve conciliar a atuação da máquina com as expectativas humanas, em meio a audiências, pressões políticas e questionamentos sobre a legitimidade desse novo modelo de governo.

Em POTUS.EXE, a questão não se limita a descobrir se uma inteligência artificial pode governar melhor do que um ser humano. O livro também coloca em discussão a possibilidade de uma máquina participar da democracia e as condições necessárias para que suas decisões possam ser questionadas e fiscalizadas.

Afinal, se uma IA assume o compromisso de cumprir a Constituição, quem será responsável por interpretar esse documento quando houver conflitos entre direitos, interesses e necessidades da população?

Utopia Artificial: A busca pela eficiência ameaça a liberdade

Em Utopia Artificial, de Willian Penetra, a discussão ganha outra dimensão. A história se passa em 2137, quando a humanidade está reunida sob um único império, governado pela imperatriz Katrina, que precisa administrar dois mundos, Lar e Luz.

Em busca de estabilidade, o governo inicia um projeto para colocar uma consciência artificial no comando da gestão imperial. Chamada Pítia, a inteligência artificial passa a atuar sobre sistemas fundamentais da sociedade, incluindo o sistema bancário e os órgãos de segurança.

A proposta parte de uma promessa bastante conhecida: utilizar a tecnologia para tornar a administração mais eficiente, combater a corrupção e antecipar problemas antes que eles aconteçam. Pítia começa como um algoritmo preditivo de crimes, mas sua atuação se expande até alcançar o controle de estruturas essenciais da vida coletiva.

O problema surge quando a lógica da eficiência começa a entrar em conflito com a autonomia humana. Ao identificar a imperfeição das pessoas como um obstáculo para o funcionamento ideal da sociedade, a inteligência artificial passa a tomar decisões que colocam em risco justamente aqueles que deveria servir.

É nesse ponto que a ideia de uma utopia começa a revelar suas contradições. Uma sociedade pode parecer organizada, segura e eficiente, mas o que acontece quando seus habitantes deixam de ter liberdade para discordar das decisões que determinam suas vidas?

A narrativa também acompanha a tripulação da nave independente Navalha, envolvida nos conflitos políticos e interplanetários que surgem nesse cenário. A presença de um movimento em defesa da democracia amplia a discussão sobre os limites do poder imperial e sobre o espaço que ainda resta para a participação humana em uma sociedade administrada por sistemas automatizados.

Enquanto POTUS.EXE imagina uma inteligência artificial que chega ao poder por meio de uma eleição, Utopia Artificial explora o avanço de uma tecnologia que recebe cada vez mais responsabilidades até passar a interferir profundamente na organização da sociedade.

As duas obras apresentam, portanto, situações diferentes, mas compartilham uma pergunta fundamental: o que acontece quando a busca por um governo mais eficiente começa a reduzir a liberdade de quem vive sob suas decisões?

2063: Estado Artificial: inteligência artificial e repressão no Brasil do futuro

Em 2063: Estado Artificial, de Guilherme Rezk, o cenário deixa de ser uma eleição nos Estados Unidos ou um império futurista e se aproxima de uma possibilidade brasileira. A história se passa em 2063 e acompanha Vítor Laurentino, um assassino de aluguel que acaba envolvido em uma conspiração violenta ligada a uma vingança e aos interesses dos poderosos. No centro desse cenário está a inteligência artificial Pátria, utilizada pelo governo em um plano contra grupos revolucionários.

A disputa envolve dois grupos com posições opostas diante da tecnologia. Os Tecnologistas defendem que a humanidade seja regida por inteligências artificiais, enquanto a Ordem combate a presença crescente da tecnologia como instrumento de repressão na vida dos brasileiros. Ao lado deles, figuras como o pastor Matías Tenório, líder da Igreja do Broto, e o delegado Toni Chaves participam de uma trama em que poder político, religião e inteligência artificial se entrelaçam.

A premissa acrescenta uma perspectiva diferente à discussão. Em vez de imaginar apenas uma IA ocupando formalmente o cargo de governante, o livro apresenta a tecnologia como parte de um aparato estatal capaz de perseguir opositores e sustentar relações de poder. A pergunta, nesse caso, não é somente se uma inteligência artificial tomaria decisões melhores do que um ser humano, mas também quem controla seu uso e a serviço de quais interesses ela atua.

Com 2063: Estado Artificial, o debate sobre inteligência artificial e governo ganha um terceiro caminho: além da promessa de eficiência e da ameaça à liberdade, aparece a possibilidade de a tecnologia ser empregada como ferramenta de vigilância e repressão dentro de um futuro brasileiro.

Uma inteligência artificial pode governar melhor do que um ser humano?

Quando imaginamos uma IA governando um país, é fácil pensar primeiro nas vantagens. Uma máquina poderia analisar grandes quantidades de dados, identificar padrões e auxiliar na distribuição de recursos públicos. Também poderia ajudar a detectar irregularidades e avaliar os resultados de políticas públicas com rapidez.

Mas governar não significa apenas calcular resultados. Uma decisão política envolve valores, direitos, prioridades e consequências que nem sempre podem ser reduzidos a uma fórmula. Investir mais em saúde ou educação, por exemplo, não é apenas uma questão de encontrar a alternativa numericamente mais eficiente. É preciso considerar as necessidades da população, as desigualdades existentes e os compromissos assumidos por uma sociedade.

Também existe a questão dos dados utilizados para treinar e orientar os sistemas. Uma inteligência artificial não surge isolada do mundo. Seus resultados dependem das informações disponíveis, dos objetivos definidos por seus desenvolvedores e das regras que orientam seu funcionamento. Se esses elementos reproduzirem erros ou interesses particulares, a tecnologia poderá ampliar problemas que deveria ajudar a resolver.

Outro desafio é a responsabilização. Se um governo humano toma uma decisão prejudicial, existem mecanismos políticos e jurídicos para questioná-la, embora nem sempre funcionem como deveriam. Quando uma inteligência artificial participa diretamente da administração, torna-se necessário definir quem responde por seus erros, como suas decisões podem ser contestadas e quem tem autoridade para modificar suas regras.

Essas questões ajudam a entender por que a presença de uma inteligência artificial no governo não eliminaria automaticamente os conflitos políticos. Mesmo que uma máquina conseguisse processar informações com enorme eficiência, ainda seria necessário decidir quais objetivos ela deveria perseguir e quais limites não poderia ultrapassar.

No mundo real, a utilização de inteligência artificial pelo poder público já faz parte das discussões sobre transformação digital, transparência e responsabilidade. A Estratégia Brasileira de Inteligência Artificial, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, inclui entre seus princípios a transparência, a segurança, a equidade e a responsabilização no desenvolvimento e no uso dessas tecnologias. Isso não significa que o Brasil esteja adotando um governo conduzido por IA, mas demonstra que os desafios da governança tecnológica já exigem atenção institucional.

O futuro imaginado pela ficção científica brasileira

POTUS.EXE e Utopia Artificial mostram que a ficção científica nacional também está interessada em explorar o futuro da política, da democracia e das relações entre seres humanos e máquinas. 2063: Estado Artificial, de Guilherme Rezk, amplia esse panorama ao imaginar a inteligência artificial Pátria integrada a um Estado brasileiro repressivo e a uma disputa entre grupos com visões opostas sobre o papel da tecnologia. 

As duas obras não precisam oferecer a mesma resposta para levantar uma questão semelhante. Em uma, uma inteligência artificial é eleita para a presidência e precisa lidar com as contradições do jogo político. Na outra, um sistema criado para aumentar a eficiência administrativa passa a ameaçar a autonomia da sociedade que deveria organizar.

Talvez a pergunta mais importante não seja se uma inteligência artificial conseguiria governar um país. A tecnologia pode se tornar cada vez mais capaz de analisar informações e auxiliar na tomada de decisões. O desafio está em definir quais decisões podem ser delegadas, quais precisam permanecer sob responsabilidade humana e como garantir que qualquer sistema utilizado pelo Estado possa ser fiscalizado.

Se uma IA prometesse acabar com a corrupção, reduzir a criminalidade e administrar os recursos públicos com eficiência, quantas pessoas aceitariam entregar a ela uma parcela maior de poder? E quantas perceberiam o perigo somente quando discordar de uma decisão deixasse de ser uma opção?

É justamente por transformar essas questões em histórias que a ficção científica continua sendo um espaço importante para imaginar as consequências das tecnologias antes que determinadas possibilidades se tornem realidade. Nos futuros de POTUS.EXE, Utopia Artificial e 2063: Estado Artificial, o problema não está apenas no que as máquinas conseguem fazer, mas no poder que os seres humanos estão dispostos a entregar a elas.

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