COZY SCI-FI: A ficção científica também pode ser descanso, defende autora premiada Becky Chambers

"A ficção científica aconchegante (cozy sci-fi) pode ser resumida de forma muito simples como histórias que dizem que o futuro pode ser bom" Diz Becky Chambers

REFLETINDO FICÇÃO CIENTÍFICA

Michael Douglas

6/18/20264 min read

Se você nasceu há pelo menos 30 anos, pode estar passando por aquela fase em que tudo é cansativo, as rotinas são exaustivas, e pensar no futuro (seu ou do planeta) é extremamente prejudicial e desperta gatilhos de ansiedade. O que vou fazer da minha vida? Como posso ganhar mais dinheiro? Vou ter filhos? Eles vão ser bem criados?

E quando temos um pouquinho de tempo livre, não queremos sentar em uma cadeira e estudar, aprender, ou ler algo que deveria ser entretenimento, mas que só serve para te lembrar, ou fazer você pensar que está atrasado na vida adulta.

Hoje, com a internet, existem gurus para tudo. Você senta para relaxar após um dia de trabalho exaustivo, puxa o scrolling do Instagram e tudo que aparece é: ''Você fez isso errado a vida inteira'' ''Se você não está investindo seu dinheiro nisso ou naquilo, você está jogando dinheiro fora'' ''Essa torneira com IA faz você lavar a louça rapidamente - aqui foi exagero, mas por que não? -'' E você se vê preso em um ambiente que era para ser relaxante, mas que se tornou algo tóxico, e que cansa mais do que se você tivesse ido capinar um lote.

A fadiga mental é algo que deve ser olhada com muita atenção, e um trabalho para ser evitá-la deve ser realizado durante todo o dia.

Mas, ao mesmo tempo, depois que passamos algumas horas 'relaxando' nas redes sociais, vem aquela sensação de tempo perdido, arrependimento, e o livro que estava do seu lado que você poderia ter lido 50 páginas ao invés de 100 reels rolados, intocado.

Mas, se você é leitor de ficção científica, sabe que a maioria das obras, por abordarem problemas sociais, são ambientadas em cenários pessimistas, distópicos e que o final às vezes não é nem resolutivo. Geralmente, a ficção científica faz pensar mesmo após o fim da leitura. E tá tudo bem, existem inúmeros livros necessários e maravilhosos com esse tom.

E quando encontramos livros de ficção que, ao mesmo tempo que divertem, conseguem ser nutritivos, é um deleite, lemos com mais voracidade, e a sensação de conforto mental é instantânea.

A problemática é que fomos ensinados que ler algo para conforto, assistir série sem se preocupar com o desfecho, apenas para relaxar, é errado na vida adulta. Isso é coisa de criança. Assistir desenho animado na vida adulta é encarado com maus olhos pela sociedade. E com isso, acabamos consumindo séries e livros ''adultos'', o que fadiga mais ainda nosso cérebro.

Na entrevista mediada pela autora e jornalista Annalee Newitz, a premiada autora Becky Chambers defende que, mesmo quando adultos, precisamos consumir livros, filmes ou séries que tragam conforto, e, na ficção científica, livros chamados de Cozy Sci-fi.

Suas obras são comumente encaradas com esse aspecto. Um livro que faz bem. Um livro que mostra que o futuro pode ser bom. Como a autora diz na entrevista: ''que nem tudo vai dar certo, mas que as coisas vão ficar bem''.

Então, digamos que o suprassumo de um livro para nós, jovens velhos cansados da rotina, seria um livro que diverte, mas que também tem um teor nutritivo, que não seja 'um tempo perdido'. E existem muitos autores que escrevem dessa forma.

Podemos começar pelos clássicos, como o renomado autor Isaac Asimov. Suas obras geralmente são otimistas, intimistas e até poéticas. Ele defendia a ideia de que os robôs não precisariam ser maus, que eles não iriam dominar o planeta, ele não demonizava a tecnologia. A série dos robôs, que inicia-se com As Caverna de Aço, é um ótimo exemplo.

Outro autor que escreve dessa forma é John Scalzi. Com inúmeras obras chamadas de soft sci-fi, ele usa a tecnologia, a hipérbole de uma história absurda, para, ao mesmo tempo que diverte o leitor, nutrir com algumas lições boas para a vida. O Vilão Iniciante e A Sociedade de Preservação dos Kaijus são ótimos exemplos do autor.

Na nossa terra brasileira, também existem vários autores que escrevem dessa forma.

O autor paulista Maicon Moura, com seu humor irreverente sem precisar fazer piada, escreve de forma quase que irônica ficção científica e realismo mágico. Os próprios títulos dos livros são icônicos, como: Não Quero Patos Elétricos, ou Cigarros e Anéis no Rabo do Gato. Histórias interessantes, que relaxam o cérebro, mas que ao mesmo tempo não são ''chulas'' ou vazias.

Quando paramos para pensar no tipo de conteúdo que estamos consumindo, seja na ficção ou jornalística, começamos a perceber que a nossa realidade é totalmente moldada por isso. Às vezes sua vida não está tão ruim, seu trabalho não é tão tóxico assim. Você só está alimentando seu cérebro com informações negativas, na tentativa de ser adulto.

Então podemos dizer que, na ficção científica, podemos ser adultos, e aceitar o descanso também.

Abaixo você pode assistir a um trecho da entrevista com a autora Becky Chambers citada no artigo.

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