Conheça o romance de 78 páginas do brasileiro finalista do Prêmio Nebula, Renan Bernardo

Em apenas 78 páginas, Renan Bernardo transforma um Rio de Janeiro submerso em palco para uma das distopias climáticas mais humanas da ficção científica brasileira.

RESENHAS

Michael Douglas

6/23/20264 min read

Se você acha que precisa ler 900 páginas para sentir alguma coisa, ou que apenas um calhamaço pode entregar uma história profunda, talvez esteja na hora de rever esse conceito.

A indicação de hoje tem apenas 78 páginas. E, ainda assim, consegue carregar mais humanidade do que muito romance três vezes maior.

O Rio que Passou em Minha Vida, de Renan Bernardo, é uma distopia climática brasileira ambientada em um Rio de Janeiro parcialmente submerso após décadas de enchentes e avanço dos oceanos. Enquanto parte da população tenta sobreviver entre canais improvisados e temperaturas extremas, a elite encontrou uma solução bastante familiar à ficção científica: abandonar o problema.

Os mais ricos passaram a viver em enormes estações espaciais conhecidas como Dentes-de-Leão, estruturas orbitais construídas para oferecer conforto, segurança e estabilidade àqueles que puderam pagar — ou tiveram a sorte de conseguir uma vaga.

É nesse cenário que conhecemos Néia.

Professora de matemática aposentada, já idosa e convivendo diariamente com dores físicas e emocionais, ela ganha em uma loteria o direito de morar em um desses satélites. Cansada da incerteza constante e da sensação de que sua vida vale pouco para o mundo que ficou para trás, ela aceita partir.

Mas algumas coisas não cabem em uma nave espacial.

Néia deixa na Terra um pedaço de si mesma.

Ela não era apenas professora. Era uma tia. Não tia de sangue. Tia no sentido mais sagrado da palavra.

Aquela pessoa que acolhe quando ninguém acolhe. Que junta os pedaços quando a vida quebra alguém. Que oferece direção para jovens que cresceram cercados por abandono, violência e desesperança.

Anos depois, tomada pela saudade e pelo peso das escolhas que fez, ela encontra uma oportunidade de retornar ao Rio ao lado de Rebeca Soares, uma influenciadora espacial rica e herdeira de uma família famosa por resgatar relíquias do passado terrestre. A missão oficial é procurar artefatos históricos. A verdadeira missão de Néia, porém, é outra: reencontrar aquilo que deixou para trás.

Uma ficção científica sobre pessoas

O que mais impressiona em O Rio que Passou em Minha Vida não é seu cenário pós-apocalíptico.

É a humanidade que existe dentro dele.

Renan Bernardo poderia ter usado suas poucas páginas para explicar tecnologias, detalhar sistemas políticos ou construir uma grande aventura espacial. Em vez disso, escolhe falar sobre saudade, pertencimento, responsabilidade e luto.

O Rio inundado está presente o tempo todo, mas funciona quase como uma extensão dos sentimentos de seus personagens.

A cidade afundou.

E parte deles afundou junto.

A narrativa também discute desigualdade social de maneira bastante eficiente. Enquanto os habitantes dos Dentes-de-Leão vivem cercados de conforto e recursos, a população que permaneceu na Terra enfrenta escassez, calor extremo e abandono institucional. Não é difícil enxergar os paralelos com o mundo atual.

Os satélites orbitais representam uma pergunta incômoda: o que acontece quando a solução para uma crise não é resolver o problema, mas simplesmente fugir dele?

Um Rio de Janeiro que continua vivo

Um dos maiores méritos do livro é a forma como ele preserva a identidade cultural carioca mesmo em um futuro devastado.

O Rio continua existindo.

Mudou de forma, mudou de geografia, mudou de clima.

Mas continua sendo o Rio.

Essa escolha dá autenticidade à obra e faz com que a ambientação pareça próxima demais para ser ignorada. Não estamos diante de uma metrópole genérica do futuro. Estamos diante de um Brasil possível.

Talvez desconfortavelmente possível.

Quem é Renan Bernardo?

Para quem ainda não conhece o autor, Renan Bernardo vem se consolidando como um dos nomes brasileiros mais relevantes da ficção científica contemporânea.

Suas histórias já foram publicadas em revistas internacionais de prestígio como Clarkesworld, Apex Magazine e Reactor . Além disso, o autor foi finalista do Prêmio Nebula, uma das premiações mais importantes da ficção científica mundial, com a novela Disgraced Return of the Kap's Needle.

Em breve, leitores brasileiros também terão a oportunidade de conhecer seu trabalho por meio da Editora Aleph, responsável por trazer ao país alguns dos maiores nomes da ficção científica mundial.

Vale a pena?

Definitivamente.

Porque O Rio que Passou em Minha Vida não é um livro sobre enchentes. Não é um livro sobre satélites. Não é um livro sobre mudanças climáticas.

Tudo isso está presente, claro.

Mas, no fundo, é uma história sobre as pessoas que deixamos para trás e sobre aquelas que continuam morando dentro de nós, independentemente da distância.

São apenas 78 páginas.

Mas algumas leituras ocupam muito mais espaço do que isso.

E essa é uma delas.

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